Cabo Delgado, “corpo de chagas”, o testemunho de Eduardo Andrés Roca Oliver

| 4 Mai 21

Eduardo Andrés Roca Oliver, Pemba

Nascido em 1968, em Espanha, Eduardo Andrés Roca Oliver é padre e está em Pemba desde 2012. Foto: Direitos reservados.


Eduardo Andrés Roca Oliver é padre. Nasceu em 1968, em Mequinenza, na província espanhola de Saragoça. Está em Pemba desde 2012, empenhado na educação, na evangelização e no diálogo inter-religioso. É pároco na periferia de Pemba, numa zona maioritariamente muçulmana, e professor na Escola diocesana de Ética, Cidadania e Desenvolvimento. Uma província tão flagelada quanto é Cabo Delgado não será propriamente o lugar mais expectável para redigir uma tese de doutoramento em filosofia moral e política, mas é isso que Eduardo Andrés Roca Oliver também se propõe fazer a muito curto prazo. O 7MARGENS pediu-lhe um testemunho sobre como está a viver dias tão dolorosos. 

 ……..

Ainda, sábado santo…

Há já semanas que as comunidades cristãs não se encontram para celebrar aqui em Pemba. Eu sinto esta situação, provocada pela política de restrições que as autoridades implementaram a seguir os procedimentos da Europa, como uma paragem obrigada no sábado santo… olhando com ânsia essa grande pedra que sela o sepulcro, aguardando com fé e esperança que chegue quem nos retire tanta morte, que parece roubar a pouca luz que ainda resta em nosso rosto. Desejo tanto sentir a ressurreição, porque estamos doentes de morte… um ano já, mais uns meses, e continuamos no chão, a chorar a pedra tão grande no sepulcro que nem nos deixa despedir os nossos…

Consola-me aqui somente, a mulher que chora lágrimas pelo filho único…

Eduardo Andrés Roca Oliver, em Pemba. Foto: Direitos reservados.

Essas lágrimas, as únicas capazes de dizer algo que toque em minha alma triste…


Esta semana voltam a abrir as igrejas, e eu grito! Só enchendo de ressurreição os corações sedentos, haverá uma chance para nós, nesta terra santa. Os cristãos chamamos a ressurreição! Celebramos a salvação antecipada que Deus já realizou em seu Filho! Desafiamos, pobres loucos, todas as mortes. Mas é mesmo esse ímpeto de loucura que se apossa de nós por dentro, ao som incansável dos batuques que fazem tremer a terra, aqui em África, o único capaz de remover as pedras, e até de destruí-las… em África é o retumbar dos batuques que remove as pedras dos sepulcros, e antecipa a ressurreição.

Mas este ano também não retumbaram, os batuques…


Em Pemba a morte cresceu, desde o começo da pandemia, engolindo cada dias mulheres, crianças, desesperados. Dia sim e dia também, alguém perde um ente querido, um conhecido… muitos passam aqui, e deixam algo de morte ao saírem. Os cristãos temos onde deixar a morte, ao pé das pedras de altar, que são agora portas do sepulcro vazio daquele que morreu todas as mortes. Eu penso em aqueles que terão morrido nas covas esquecidas dos matos, ou nos rios que, talvez, querem de vez acabar tanto sofrimento. Penso em quantos terão caído nos buracos de negrura desta violência sem fim…


Nossas famílias esquecidas não aguentam tanta carga… ontem as gémeas irmãs de Iaside, com apenas 17 anos, uma na terça, outra na quarta… não pode ser doença tanta dor diz a família, não aceitam, querem alguém que pague, um culpado, é sanidade da mente… retribuir o dano, uma paz efémera. Mas eu sei é só miséria.


Ainda, alguém pensa não haver direito para o lamento, por eles não serem deslocados da fúria do norte… os pobres acham sempre razões para entender as suas mágoas. É parte acrescida ao sofrimento, esse achar que o merecemos.


A política da morte, dizem alguns, com um amor extraordinário às suas raízes africanas… quem pode não amar África? Mas não é amor fechar os olhos. Às nossas portas, também seladas, batem as mãos trémulas, debilitadas, de centenares de famílias que já tiveram uma história, e agora sentem o pavor de não encontrar mais um espaço na página para continuar escrevendo. E levantam seus rostos, imploram, lágrimas pelos filhos únicos… num esforço mais para manter esperança. Eu grito ressurreição, quero levar a todos a esta celebração salvadora, a viver antecipada a experiência que continua a derramar luz, nos lugares mais escuros.


Neste corpo de chagas, em que se tornou Cabo Delgado, consigo entender a prece que não entendia: escondei-me, em vossas chagas… e nelas fico, já não procuro escapar. Numa silenciosa quietude, vou descobrindo que se eu souber ser bálsamo, mirra perfumada, a dor amolece.

E também, no entanto, implorar perdão pelos que não pude, não vi, não amei… e saíram sem tocar o sagrado. Preciso que aqueles que se encontram comigo, sintam sempre sagrada a terra que nos separe…

Quantos, meu Deus, deixei em solidão tão escura!


Nesta noite de vigília, ofereço minha prece…


Volte o fogo aos meus olhos, e acenda os olhos que me procuram e esperam. Esse fogo que a morte se empenhou em apagar, e não descansa em seu empenho… até que a sombra envolva tudo.

O ritmo do bater dos corações que se resistem cresça, induzindo toda vida a dançar ao redor das chamas, as entranhas da mãe de todas as mães, a fonte inextinguível da vida…

Pois cada ano arde generosa a Páscoa em nossa igreja, e cremos, e sabemos que havemos de ver e tocar…

Que povo humilde! Que grande misericórdia! não cremos porque vimos, mas veremos porque cremos! Oh morte, onde está tua vitória? Aguarda, foge já de nós, estão a retumbar os batuques!

O padre é pároco na periferia de Pemba, numa zona maioritariamente muçulmana, e empenhou-se na educação, na evangelização e no diálogo inter-religioso. Foto: Direitos reservados.


Esperávamos hoje elevar o cântico da Páscoa em nossa comunidade de Muxara. Mas a noite de ontem firmou-se e não deixou entrar a luz de um novo dia de esperança. Serafina, a pequena de Deus, refugiada de Muidumbe, não conseguia respirar bem desde a quarta… e foi a procura do ar puro além… Segura na mão de Deus, não a largues, não percas o caminho… canta a comunidade, mergulhada mais uma vez nesta água lamacenta. Tinha 13 anos e toda uma vida… e eu, tenho de falar, arrancar palavras do meu íntimo quebrado, e consolar ao mesmo Deus, incapaz de entender esta viagem sem sentido da Serafina.


Enfermidade e violência, e o nosso medo. E um Deus surpreendido.

Sinto sua dor surda, adivinho-a, e não me atrevo sequer a espreitar um momento… a dor de todas as cruzes… quem a pode imaginar e continuar vivo? Mas é mesmo essa dor a que faz a Deus sagrado, e eu apenas encosto, ajoelho, aos pés deste corpo morto da Serafina.


A noite está enganada, eu sei, nós sabemos. Não roubará o amor que partilho, porque não vê a luz, aquela que só enxerga sombras. Nós a enganamos, sim, o sorriso da Kanaia e os cânticos e a dança da Suzana e a Dora… sim, ela não sabe, a noite, que já crescem, e se preparam para encher de luz todas as coisas, enquanto retumbam os batuques, no âmago da minha terra santa africana…


Vem aí, Páscoa!

 

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