Porta-voz da diocese de Pemba

Cabo Delgado é a “pior guerra” de Moçambique

| 24 Jun 2021

Padre Kwiriwi Fonseca: “Esta é uma guerra que não tem rosto”. Foto captada de uma entrevista vídeo à AIS.

O padre Kwiriwi Fonseca, porta-voz da diocese de Pemba (Moçambique), que viveu 16 anos a guerra civil no seu país, considera que “esta é a pior guerra” desde a independência, em 25 de Junho de 1975 (completam-se nesta sexta-feira 46 anos), por “não se saber qual a motivação” dos ataques às aldeias e vilas da província de Cabo delgado, no extremo norte do país. 

“É uma guerra que não tem rosto e se tiver uma conexão estrangeira, ainda pior”. Apesar disso, o padre confessava nesta quinta-feira, em entrevista à TSF, três meses depois do ataque à vila de Palma, que não sente medo. 

O risco de algum novo ataque terrorista já levou uma dezena de religiosas a abandonarem a cidade de Pemba, ainda que o bispo Juliasse Sandramo, administrador apostólico, tenha pedido aos missionários que “estejam vigilantes, mas não em pânico”, como refere o padre Fonseca. 

A mesma informação tinha sido dada há dias pelo padre Fonseca à Ajuda à Igreja que Sofre (AIS): “O que nós verificamos é que uma ou outra congregação feminina [já] saiu para outro local, principalmente aquelas que têm casas de formação… Perceberam que [Pemba] não é hoje um local seguro.”

O bispo de Tete, Diamantino Antunes, citado pela mesma fonte, confirmou igualmente: “Recebi um apelo urgente de uma congregação de irmãs que estão em Cabo Delgado e que não se sentem tranquilas a viver naquele contexto, com medo de possíveis ataques.” Por isso as religiosas pediram acolhimento na diocese de Tete.

Comida, abrigo, material de higiene

Ação dos Médicos Sem Fronteiras em Cabo Delgado, Moçambique. Foto © MSF

“As aldeias continuam a sofrer ataques”, dizia ainda o padre Kwiriwi Fonseca à TSF, enquanto o jornalista Hizidine Achá acrescenta que continuam a verificar-se “situações de raptos, assassinatos”, tiroteios e até uma perseguição nas matas. 

O padre Kwiriwi confirma ainda as últimas estimativas, que apontam para cerca de 750 mil pessoas deslocadas, que chegam a Pemba e a outras localidades a pedir “comida, abrigo, uniformes escolares e material de higiene”. Com a agravante, diz, de os deslocados mais recentes se sentirem esquecidos, porque “a ajuda é insuficiente”, para responder a uma crise humanitária daquela dimensão: seriam necessários “cerca 300 milhões de dólares, mas só conseguiram 25 milhões de dólares”.

O maior presente de aniversário para os 46 anos de independência, acrescenta o padre, seria “buscar soluções para repor a paz e tranquilidade na região e em todo o país”, porque “o povo está cansado da guerra”, e os moçambicanos deveriam poder continuar a “sonhar e a lutar contra a pobreza absoluta, que já se via, mas que agora é uma miséria total”.

 

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