Cabo Delgado: “Uma guerra que ninguém entende e maltrata a todos”

| 28 Mar 21

O bispo António Juliasse diz que “tudo o que é violência deixou de ser religião”. Foto: Direitos reservados/Ecclesia.

 

O administrador apostólico da diocese de Pemba (Cabo Delgado, Moçambique) pediu neste domingo, 28, que “esta guerra que ninguém entende e maltrata a todos termine quanto antes”.

Falando na homilia da missa do Domingo de Ramos, o bispo António Juliasse, que é também bispo auxiliar de Maputo, defendeu que a “justiça numa nação é inegociável”, lembrando que “tudo o que é violência deixou de ser religião”. E acrescentou: “Um líder que não pratica a justiça deixa de ser verdadeiramente líder.”

O bispo Juliasse sugeriu que “os governantes devem olhar para os mais pobres, para os mais pequenos e fazer com que saiam da condição de pobreza”. “Se um dirigente lava a mãos, condena por essa via todo o povo que ele governa”, sustentou.

No fim da celebração, o administrador apostólico de Pemba, citado pela Agência Ecclesia, expressou a sua “comunhão com os irmãos no distrito de Palma” e convidou os católicos da região à participação nas celebrações da Semana Santa através da rádio e das redes sociais, na impossibilidade de o fazer presencialmente.

Precisamente na zona de Palma (extremo Norte do país, junto da fronteira com a Tanzânia) a situação não registou alterações: a emboscada de sexta-feira deixou, segundo o Governo moçambicano, dezenas de civis mortos, incluindo sete técnicos estrangeiros que trabalham em empresas de produção de gás natural líquido. Um barco com algumas centenas de pessoas, incluindo estrangeiros e habitantes de Palma, chegou a Pemba, a capital da província, situada na faixa costeira, mais a sul. Outro barco tem chegada prevista para esta segunda-feira.

O dado relevante dos acontecimentos dos últimos dias em Palma relaciona-se com o facto de os ataques terem atingido não apenas a população da cidade, mas também trabalhadores e interesses estrangeiros. A verdade é que as atenções dos media se estão a concentrar no hotel Amarula, onde largas dezenas se encontram aparentemente refugiados, e de onde partiu o comboio de viaturas que foi vítima de emboscada pelos atacantes, na sexta-feira.

Autoridades de diferentes países manifestaram preocupação com o que se passa no norte de Moçambique. E tanto o presidente de Moçambique como o da África do Sul (que teve um cidadão seu morto em Palma) têm estado sob pressão pela lentidão na tomada de medidas.

 

Ataques jihadistas, sim ou não? 
Cabo Delgado. Grupos Armados

As verdadeiras motivações dos grupos atacantes continuam a ser tema de debate. Foto: © Direitos reservados.

 

A atribuição da responsabilidade dos ataques a grupos de jihadistas está, entretanto, a ser ponderada por analistas que seguem o drama humanitário no Norte de Moçambique e nos países vizinhos. É o caso de Mina Al-Lami, especialista em jihadismo e responsável por uma equipa editorial de monitorização da BBC, que publicou este sábado uma sequência de mensagens no Twitter com várias observações: os grupos jihadistas costumavam registar os seus ataques num boletim informativo disponibilizado online; pelo menos desde final de outubro, não há qualquer indício de que tenham reivindicado acções no norte de Moçambique; a não existência de reivindicação pode ter a ver com dificuldades de comunicação dos grupos com a sua sede central; uma edição do boletim da organização foi publicada em 25 de março último, sem qualquer referência a Moçambique; a violência militante em Cabo Delgado é anterior ao surgimento do autodenominado Estado Islâmico em junho de 2019, altura em que parecia ter cooptado militantes islâmicos locais.

Embora destes factos não se possam tirar conclusões seguras, eles obrigam a alguma prudência quanto às atribuições de responsabilidades. E fazem recordar afirmações do ex-bispo de Pemba, Luiz Lisboa, numa conferência em Dezembro, na qual sublinhava que as causas profundas dos conflitos na região norte de Moçambique não estão tanto no fundamentalismo islâmico como nas profundas desigualdades e injustiças entre a população e na falta de futuro sentidas por muitos jovens.

Na conferência, noticiada pelo 7MARGENS, o bispo acrescentava que o factor religioso poderia ser, assim, um fator de instrumentalização do mal-estar social. Por conseguinte, “uma guerra que ninguém entende e maltrata a todos”, como dizia este domingo o administrador apostólico de Pemba, sucessor de Luiz Lisboa à frente da diocese.

 

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