Cabo Delgado visto de Braga: “Estamos comprometidos com a libertação da pobreza, raiz do conflito”

| 2 Abr 21

Escola Primária de Mahipa Ocua, Cabo Delgado

Escola Primária de Mahipa Ocua, na província de Cabo Delgado. Foto: Direitos Reservados

 

O recente ataque à cidade de Palma veio agravar a situação já muito alarmante que se vive na província de Cabo Delgado, no Norte de Moçambique. Para apoiar os habitantes, flagelados por uma insurreição terrorista que se reivindica de islamita e por doenças como a cólera ou o coronavírus, estão no terreno diversas instituições e organizações. O 7 MARGENS questionou-as sobre como vêem o que se está a passar, o trabalho que desenvolvem e o que podem os portugueses fazer para ajudar os moçambicanos desta zona do nordeste moçambicano.

Ficam a seguir as respostas do Centro Missionário Arquidiocesano de Braga (CMAB).

Como vê a Arquidiocese de Braga a situação em Cabo Delgado?

Cabo Delgado não é, para nós Centro Missionário (1), a notícia do momento. “Cabo Delgado” significa, desde 2003, os nomes das pessoas que trabalham na machamba [horta], a cor vermelha da terra, o riso das mulheres à conversa no sempre longínquo fontenário, o calor húmido, os ‘chapas’ [transportes] a abarrotar de gente, o companheirismo e a visitação mútuas dos missionários, as temporadas de sementeiras ao sabor do clima, a fé e a entreajuda de vizinhos que são sempre parte da família, o incrível cheiro das primeiras chuvas, a alegria do canto, das danças e das celebrações, a arte das esculturas em pau preto, a chima com feijão ou matapa, a dor da malária e as filas pacientes nos raríssimos postos de saúde, a perícia da condução nas picadas, os solenes embondeiros a recortar a paisagem, o jipe atolado no matope e os pedidos de boleia, as alegrias e tristezas das intermináveis viagens a pé. A capital de Cabo Delgado, Pemba, que dá nome à Diocese moçambicana, é identificável, há muitos anos, por um grande número de católicos da Diocese de Braga. Desde 2003 que nos fomos amigando através do envio de pessoas, com visitas e partilhas entre ambas as Dioceses. A partir de 2014 foi estabelecido um relacionamento também formal através de um acordo de cooperação missionária [Salama] através do qual, entre outros aspetos, a Diocese de Braga assumiu a Paróquia de Santa Cecília de Ocua, na Diocese de Pemba.

Portanto, como vemos a situação? Como veem os irmãos os problemas uns dos outros? Com angústia diária, alguma impaciência e impotência e com um coração que faz mexer as mãos, os pés e a voz. Sabemos que “quando os elefantes lutam, quem sofre é o capim [erva]” e, por isso, estamos comprometidos com a libertação de todas as formas de pobreza, raiz primeira e última daquele conflito. O capim não tem culpa pela luta dos elefantes mas sofre pela violência das suas lutas. E, para alguns elefantes, a pobreza sempre deu muito dinheiro.

catequista_Alexandre, Cabo Delgado

O catequista Alexandre com crianças, num momento da catequese. Foto: Direitos Reservados

Que acções está a Arquidiocese a empreender para ajudar as vítimas?

Há diversos níveis de intervenção a considerar e, sublinhamos, há vítimas diretas (deslocados internos, cerca de 700.000) mas também indiretas (grande parte da província está perturbada pelo medo e pela fome, resultado também do mau ano agrícola). É preciso salvar vidas, no imediato, mas também reabilitar vidas a médio e longo prazo. No imediato e por emergência, em colaboração com os projetos locais de assistência às vítimas da Caritas Diocesana de Pemba, enviamos 50.000€ recolhidos em Portugal em parceria com diversas associações e ONG (2). Essa campanha continua ativa.

Terminamos também exatamente hoje (31.03), em todos os arciprestados da Arquidiocese, a recolha de material agrícola, de carpintaria e de costura, lonas, tendas e cobertores para serem enviados num contentor para Pemba (3). Houve imensa generosidade que superou todas as expetativas. Será necessário, provavelmente, outro contentor para albergar as doações. Também o Conselho Económico da Paróquia de Santa Cecília de Ocua (onde está a Andreia, uma missionária de Braga, e para onde aguardam vistos de entrada mais dois missionários) tem disponibilizado terrenos agrícolas, sementes e alfaias para as famílias deslocadas que chegaram àquele território. Esta é a ajuda imediata e de emergência mas absolutamente insuficiente para a reabilitação de todas as vítimas que demorará décadas. As crianças precisam de escola com qualidade (particularmente as meninas, sempre mais vulneráveis a abusos), as pessoas em geral de melhores cuidados de saúde, os jovens precisam de ocupação, de trabalho e de perspetivas de futuro, a universalização no acesso à energia elétrica e à água potável, o desenvolvimento de novas formas de trabalhar a terra e de diversificação de culturas… A experiência e a história dizem-nos que, na emergência, sempre aparecem algumas ajudas até pelo mediatismo que muitas entidades precisam para se justificarem e se financiarem. O posicionamento estatal precisa de se fortalecer naqueles contexto mas as comunidades religiosas no terreno continuarão a ser, de facto, o fio constante da ajuda antes, durante e após os mediatismos. Braga estava lá antes deste conflito, está neste momento e acreditamos que continuará a fazer diferença no futuro.

Contentor ajuda Cabo Delgado

Preparação de contentor com ajuda para Cabo Delgado. Foto: Direitos Reservados

Como podem os portugueses ajudar?

Existem campanhas de ajuda em curso, nossas e dos outros parceiros, em Portugal e em Moçambique. D. Luiz Lisboa, ex-bispo de Pemba, costumava dizer que havia três formas permanentes de ajuda: oração, partilha (vida e bens) e falando do assunto, mantendo-o na ordem do dia das agendas sociais e políticas.

Permitam-nos, contudo, que recordemos que ajudar com respeito implica amar. É fácil desrespeitar os pobres tratando-os com altivez, infantilizando ou até aproveitando-se da sua pobreza. Recordo que há uns anos, para escândalo de alguns, uma determinada cidade moçambicana recusou a oferta de uns velhos camiões de recolha de lixo de uma cidade portuguesa porque estavam a “cair de velhos”. Ajudar implica conhecer a cultura, respeitar as pessoas, informar-se sobre quais são as suas necessidades ao invés de tentar adivinhá-las ou pressupô-las. E, já agora, podemos aproveitar estes momentos em que as dores nos aproximam para mudarmos alguns dos nossos hábitos diários (de consumismo, de poluição…) que também são a causa de grande parte das catástrofes naturais que penalizam os mais frágeis. Será que precisamos de todos os bens materiais que compramos? Neste mundo global, cada vez mais percebemos que somos todos responsáveis por todos e, por isso, é nossa responsabilidade (e um modo de ajudar) manter na ordem do dia esta causa e este povo irmão.

 

Notas
(1) O Centro Missionário da Arquidiocese de Braga – CMAB é o organismo da Igreja de Braga que promove e coordena a formação, animação e cooperação missionárias. Uma das dimensões de trabalho do CMAB é a coordenação dos termos do acordo de cooperação missionária da Arquidiocese de Braga com a Diocese de Pemba-Moçambique (projeto “Salama”).

(2) A Câmara de comércio Portugal-Moçambique, de Pemba, disponibilizou-se para o envio de um contentor com bens recolhidos em Portugal a serem enviados para Moçambique que serão geridos e distribuídos pela Diocese de Pemba (Caritas), no apoio aos deslocados internos.

(3) Arquidiocese de Braga, através do Centro Missionário Arquidiocesano de Braga – CMAB, juntamente com as organizações parceiras – Cáritas Portuguesa, Fashion Education One Work, Infância Missionária de Balasar, LIAM, Leigos Boa Nova, Associação Regina Mundi, Missionários Combonianos, Missionários do Espírito Santo, Missão (A)mares, Mosaico, Mundo Posible, O melhor de nós, Província Portuguesa dos Sacerdotes do Coração de Jesus – Dehonianos, Rosto Solidário e Sociedade Missionária da Boa Nova, Banco Alimentar de Braga – lançaram em setembro de 2020, em Portugal, a campanha solidária “Juntos por Cabo Delgado”. Até ao dia 31 de dezembro 2020 recolhemos a quantia de 54.924,50€. Doações podem ser feitas pelo IBAN: PT50 0010 0000 0276 7480 0020 8 (Banco BPI), conta em nome da Diocese de Braga. O vídeo da campanha:

 

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