“Cada bispo é rei no seu reinado”

| 16 Abr 2024

comissão independente, abusos sexuais Portugal

Conferência de imprensa da Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais contra Crianças na Igreja em Portugal, 11 Outubro 2022, Fundação Gulbenkian, Lisboa. Foto Agência Ecclesia/OC

No trabalho da Comissão Independente (CI) confrontámo-nos bem cedo com o facto de a Igreja Católica portuguesa (ICP) estar longe de ser um edifício piramidal compacto, organizado numa hierarquia firme, onde a ordem se impõe naturalmente de cima para baixo. Nada disso. Encontrámos uma estrutura de tipo “feudal”, fragmentada, consolidada ora em territórios geográficos e sociais com características históricas próprias (as dioceses) ora em carismas e esferas de ação distinta (as ordens religiosas). Apesar da partilha de uma missão universal, a diversidade interna da ICP e o papel individual dos seus líderes são marcas de identidade. Entre estes, destacam-se os bispos, os quais dispõem de uma grande autonomia na gestão das respetivas dioceses e na condução da política diocesana (designadamente, no que para a CI se tornou óbvio: a autonomia nas modalidades de divulgação e participação no Estudo que desenvolvíamos). “Cada bispo é rei no seu reinado”, ouvimos. E é em reino mesmo que se pensa ao lembrar que esse estatuto só se perde por morte do sacerdote. “Uma vez bispo, bispo para sempre”.

Os bispos diocesanos constituem um grupo de homens envelhecido, à data com uma média de idades de 65 anos[1]. Nascidos quase todos em regiões a Norte do Tejo ou nas Regiões Autónomas, cresceram, na sua grande maioria, em famílias numerosas muito desfavorecidas do Portugal rural da ditadura, pouco escolarizadas e que viviam do trabalho nos campos. Nelas, as práticas religiosas, em casa ou na paróquia, eram vigorosas e regulares. Hoje, estes homens assistem aliás, com nostalgia, ao desmoronar do “ambiente saudável e tranquilo” “daquele tempo”, “onde a fé vinha do berço” e o quotidiano era regulado pelo sino da igreja. A escola, quase sempre a passagem pelo seminário desde idade precoce, foi o grande impulsionador de um notável percurso de mobilidade ascendente. Com exceções, podemos admitir que os bispos são protagonistas do que, em sociologia, designamos como “trajetórias improváveis”: o seu ponto de partida familiar dificilmente faria antever um percurso de tão grande sucesso no que toca a entrada numa das elites da sociedade portuguesa.

Foram nítidas, também, as diferenças de atitude entre eles no que respeita aos abusos sexuais de crianças. Percebemos que o tema entrou de “fora para dentro” e de “cima para baixo” na ICP; as notícias internacionais e o papel do Papa Francisco são motores indiscutíveis para uma necessária atenção à questão e na decisão para se estudar o caso português. A pressão de certas franjas de católicos, que vieram a público reclamar um estudo independente, desempenhou também o seu papel.  Afinal, talvez Portugal não fosse um oásis comparativamente às realidades negras de outros países. Afinal, talvez a dimensão do problema não se adequasse à “teoria do meteorito”. E o Estudo foi mesmo lançado. Mas, se entre todos os bispos havia uma partilha, mais ou menos entusiástica, sobre a sua necessidade, as disparidades entre as perceções individuais sobre a existência real destas situações foram flagrantes.

Uma esmagadora maioria afirmou nunca ter tido conhecimento ou lidado com casos concretos de crianças sexualmente abusadas – apetecendo perguntar onde estariam então, distraídos, esses bispos portugueses ao longo de décadas de exercício do seu ofício de sacerdote; e qual é, afinal, a realidade humana em que se movem no seu dia a dia. Uma minoria, porém, relatou experiências muito dolorosas na escuta e acompanhamento de vítimas, não tendo dúvidas em comparar a gravidade do momento que a ICP vivia como aquela que a associou, por exemplo, à Inquisição. Quanto a manobras de ocultação desses crimes, nenhum admitiu tê-las praticado e muito raros foram aqueles que afirmaram delas ter tido conhecimento (dando, porém, exemplos de outros ou do passado). Eram resultados que chocavam de frente com os testemunhos numerosos, trágicos, intensos das centenas de vítimas que responderam ao nosso pedido de participação no Estudo: sim, os abusos eram muitas vezes conhecidos pelos superiores hierárquicos dos abusadores, mas foram silenciados, ignorados ou os denunciantes ameaçados. E, tal como descrito em outros países, os abusadores eram mudados de paróquia, diocese ou enviados para o estrangeiro (tipicamente para comunidades da diáspora portuguesa).

apresentacao relatorio final comissao abuso sexuais de crianças na igreja foto clara raimundo

“Confrontei-me ao vivo com um corpo de dirigentes exclusivamente masculinos – e lembro-me, em particular, das assembleias em Fátima onde a plateia, vestida de escuro e contida, nos ouvia.” Foto: Apresentação do Relatório Final  da Comissão  sobre Abusos Sexuais contra Crianças na Igreja em Portugal.  ©  Clara Raimundo / 7MARGENS

Depois de escrito e apresentado o Relatório, permito-me partilhar duas impressões fortes que me ficaram das conversas e do contacto direto com este corpo eclesial. Desde logo, confrontei-me ao vivo com um corpo de dirigentes exclusivamente masculinos – e lembro-me, em particular, das assembleias em Fátima onde a plateia, vestida de escuro e contida, nos ouvia. A etnografia desses espaços e dinâmica ficou por fazer, mas dir-nos-ia muito sobre os valores, os modos de funcionamento e a dinâmica interna daquele grupo. Contudo, há algo que saltava à vista, absolutamente inédito e chocante numa sociedade moderna: onde estávamos nós, as mulheres? As mulheres que fazem também o mundo, a Igreja e o Evangelho? Lugares e trabalhos à sombra são cruciais para o funcionamento das coisas, é verdade. Mas não nos consolam: ser batizado é uma condição inteira e não vejo como se pode decidir quem entra e quem não entra na esfera do poder a partir do sexo que é dado à nascença.

Em segundo lugar, o desconhecimento revelado, por grande parte deles, sobre as características e o impacto devastadores que um abuso sexual tem na vida presente e futura de uma criança. Essa dimensão arrasadoramente destrutiva parecia de facto esbarrar na atitude fria e distante dos meus interlocutores. A falta de empatia e inabilidade em lidar com as vítimas-pessoas e o seu sofrimento veio a revelar-se de novo nos meses de intervenções erráticas na pós-publicação do Relatório. Não posso ser injusta com um muito pequeno número de bispos onde encontrei humanidade, perplexidade, vergonha genuínas pelo que se passou e um compromisso firme com um virar de página. Agradeço-lhes, como católica, esse exemplo, que vieram a traduzir em ações concretas nas suas dioceses. Mas a parte não faz o todo, o coletivo. Como sentir então conforto ou liderança numa ICP fechada sobre si, solene, formal, distante, afinal desumanizada – incapaz de comunicar, incapaz de ouvir, incapaz de abraçar e dar colo aos mais frágeis? Onde está Cristo nesta Igreja?

A concluir. Recebi com satisfação a notícia de que a assembleia plenária da CEP, reunida em Fátima em 11 abril último, decidiu indemnizar as vítimas de abusos sexuais praticados no seu seio. É um passo muito importante no reconhecimento inequívoco da existência e gravidade desses crimes, o qual certamente se deve ao empenho interno de alguns bispos e, uma vez mais, às pressões de fora. Feito o anúncio, aguardamos com expetativa a sua operacionalização. É que, como sabemos, “o diabo esconde-se nos detalhes”. E se há grupo treinado em conhecer e desmontar as suas artimanhas e engodos, esse grupo é justamente aquele de que aqui falei…

16.04.2024

[1] Todos estes dados, resultantes de entrevistas individuais aos bispos diocesanos portugueses na primavera de 2022, são apresentados e aprofundados no Capítulo 6 do Relatório Dar Voz ao Silencio, https://dados.rcaap.pt/bitstream/10400.20/2118/7/APIS0098_Relat%c3%b3rioFinal.pdf 

Ana Nunes de Almeida é socióloga, ex-membro da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa.

 

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