Livro de João Reis

“Cadernos da Água”, um romance a ler

| 22 Jun 2022

João Reis é escritor e tradutor. Foto © CeeandTea, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

 

É um livro envolvente e inquietante. Alienante, só se for no sentido de nos transportar para outra realidade, mas de nenhum modo sem nos deixar sossegados no nosso hoje. Cadernos da Água é o seu título, João Reis o seu autor. Valeram a pena as horas intensas de leitura que lhe dediquei, porque me alargaram os horizontes da vida e da esperança. 

O autor, nascido há 37 anos em Vila Nova de Gaia, era desconhecido para mim. E, no entanto, tem mundo e tem uma visão dele. O que mais impressiona na sua biografia são as dezenas de livros que traduziu, sobretudo de línguas escandinavas. Fez estudos em Veterinária e em Filosofia. Criou e geriu uma editora. E lançou em 2015 a sua primeira obra literária, o romance A Noiva do Tradutor, já reeditado e traduzido em inglês. Os vários que se lhe seguiram, alguns finalistas de prémios relevantes, tornaram-no um caso, na literatura portuguesa contemporânea. Em março deste ano, com a chancela da Quetzal, saiu o romance que hoje aqui trago.

Cadernos da Água transporta-nos para umas décadas mais adiante e para uma Europa transfigurada, ou talvez melhor, desfigurada. As mudanças climáticas tinham feito subir as águas do mar, inundando muitas zonas costeiras.  A seca tinha feito desaparecer lagos e cursos de água. As disputas pelo controlo dos recursos hídricos originaram guerras e caos. Milhares de pessoas da Europa do Sul viram-se forçadas a demandar os países do Norte em busca de melhores condições.   

A narrativa para a qual o autor nos convida coloca-nos num país escandinavo, no meio de um grupo numeroso de refugiados, muitos dos quais portugueses. O relato é-nos feito por uma jovem mulher que ali se encontra com a sua filha pré-adolescente, que se dá como tarefa registar o que ali se passa, como forma de matar o tempo, mas, também, na esperança de que o marido, que não pôde acompanhar a família por motivos ponderosos, venha um dia a ler estes relatos.

Na leitura da obra, ao leitor é dado o privilégio de acompanhar quer o dia a dia no campo de refugiados quer as terríveis peripécias em que o marido se viu coercivamente envolvido, no ponto onde ficou,  e que são completamente desconhecidas para a esposa e a filha.

Em ambos os cenários, o romance dá-nos a conhecer as condições duras dos refugiados, o desafio que é encontrar-se num país cuja língua não dominam, em condições de mobilidade e de sobrevivência reduzidas ao essencial. É a partir deste quadro vivencial que o narrador nos vai dando pistas para contruir o contexto geopolítico mais vasto em que essas vivências ocorrem.

Mais do que isso: no desenvolvimento das narrativas, vamos assistindo à génese e desenvolvimento de relações sociais que dão a conhecer um conjunto de personagens, alguns dos quais de uma riqueza extraordinária, o que confere uma densidade humana de grande força e intensidade. 

Além das problemáticas que servem de pretexto e motivo ao romance, dos processos narrativos e desta riqueza humana, há ainda um outro aspeto a que fui particularmente sensível. Na verdade, na narrativa de Cadernos da Água, somos nós, europeus do sul, peninsulares, (ex-)portugueses, que estamos em jogo. Nos últimos meses, com a invasão da Ucrânia pela Rússia, ouvimos frequentemente dizer que os refugiados são “gente como nós” (como que a aceitar que os milhões de refugiados de outras tragédias não são). Nesta ficção de João Reis são mesmo os portugueses, e já não apenas os africanos, que caminham do sul para o norte. Esta experiência e esta consciência permitem conferir uma intensidade à leitura, que não me lembro de ter experimentado anteriormente.

Cadernos da Água

Cadernos da Água

Neste jogo entre os desafios de hoje e a realidade de amanhã, ainda que ficcional, há um outro aspeto que chama a atenção: se os nossos dias conhecem a omnipresença das tecnologias digitais, com as suas plataformas, aplicações e devices, e com a ideia de que é impossível viver sem tudo isso, quase que choca constatar que, num cenário de conflitos e de grandes dramas sociais, são as realidades básicas e essenciais que contam, sendo as tecnologias relativamente residuais. A capacidade de resiliência, de ajuda, de atenção e de cuidado, de conversar e de fazer silêncio, de reagir ao espezinhamento, de observar e de sonhar são prevalentes. Como que a dizer que o digital é certamente importante na construção da vida atual, mas não é tudo nem porventura o mais importante, já que o mais importante parece ser, também neste romance, poder ser pessoa, poder tornar-se pessoa.

Disse atrás que João Reis, o autor, era desconhecido para mim. Até certo ponto, já não é. Tive, num destes dias, a possibilidade de conversar com ele, em público, numa iniciativa da Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em Braga, que organizou um ciclo com autores de livros que tratam da problemática dos refugiados, a propósito do Dia deles, ocorrido em 20 de junho. E não me surpreendeu encontrar um escritor com uma obra que vale a pena conhecer, mas também porque é uma pessoa inquieta que procura ler “os sinais dos tempos”. Agradeço-lhe o ter partilhado essa inquietação com todos nós.

 

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