Este título faz alusão à obra de Manuel Alegre, Cão como Nós, um texto em que o autor relata a forte ligação afetiva entre o escritor, a sua família e o seu cão, relatando a sua relação e a observação do modo como animal é protetor, consola os donos e percebe as suas emoções.
Faço alusão ao mesmo a propósito de um acontecimento que chocou a maior parte da nossa sociedade, não só pelo ato em si, mas também devido a alguns dos comentários e explicações que se sucederam. Falo de um ato de violação em grupo, e de algumas justificações arvoradas, em que a “adrenalina” se teria apoderado daqueles jovens, impotentes perante os seus instintos.
Em resposta a toda esta situação, e a outras infelizmente similares, já tenho visto, por diversas vezes, vídeos partilhados em que um cão aguarda, imóvel e paciente, perante o seu biscoito favorito, até receber autorização da dona ou do dono para o pegar. Parece-me que conseguem ilustrar o seu ponto de forma muito eficaz.

“(…) será que um cão recebe um treino que faltará a muitos seres humanos? E dei por mim a concluir que sim. Que, porventura, esses cães aprendem a controlar os seus impulsos, a gerir o seu instinto, e a conter a sua vontade de forma mais eficiente que muitos de nós.” Foto © Laura Villela | Pixels
Mas dei por mim a pensar mais um pouco sobre o assunto. E questionei-me: será que um cão recebe um treino que faltará a muitos seres humanos? E dei por mim a concluir que sim. Que, porventura, esses cães aprendem a controlar os seus impulsos, a gerir o seu instinto, e a conter a sua vontade de forma mais eficiente que muitos de nós.
Com o(s) séculos do iluminismo, os avanços da ciência, a explosão da tecnologia, sentimo-nos a espécie mais avançada nesta terra que habitamos, mas, a verdade, é que a capacidade para observar, notar, discernir e controlar as nossas próprias emoções e instintos tem, muitas vezes, ficado aquém. O que nos leva, por mais paradoxal que possa parecer, a sermos, com os meios tecnológicos mais avançados, escravizados através das nossas próprias emoções pelo algoritmo.
É aqui que surgem – e surgiram na minha vida – os ensinamentos de Siddhartha Gautama, a quem chamámos o Buda, por ter atingido esse patamar mais elevado a que chamámos de iluminação – é aqui, dizia eu, que surgem os ensinamentos do Buda, como uma verdadeira bíblia (perdoem-me a metáfora) sobre a condição humana, e as emoções e moções que nos escravizam, oferecendo um treino, quase científico na sua aproximação, para dotar o ser humano da capacidade para gerir as suas emoções e sensações e através desta mestria, poder, verdadeiramente, ser dono da sua vontade, tanto quanto esta esteja dependente da nossa ação direta.
Ao contrário de alegorias e metáforas, os ensinamentos que encontramos nos Suttas são de uma precisão analítica notória e os seus ensinamentos de um pragmatismo e praticabilidade espantosos.
No Satipatthana Sutta, por exemplo, encontramos delineados os quatro fundamentos da meditação (ou mindfulness, como lhe chamam em termos mais mainstream). Eles servem como quatro áreas de observação para treinar a mente, desenvolver a clareza e viver o presente. São eles Corpo (Kaya), Sensações/Sentimentos (Vedana), Mente (Citta), e Fenômenos/Objetos Mentais (Dhamma).
Não desejaria impor o estudo dos Suttas a todos, mas penso que seria de considerar, com toda a honestidade intelectual, o ensino da prática da meditação nas escolas e universidades, sob pena de, ao não o realizarmos, estarmos a deixar, cada vez mais, que os seres humanos se entreguem a um de dois extremos – emoções pré-históricas desgarradas e a escravatura de um algoritmo que no-las governa. Esta prática poderia ter, aliás, efeitos na sociedade no seu todo, pois, inerente a esta prática, encontra-se a vivência da ética delineada nos cinco preceitos, a saber: abstermo-nos de mentir, de tirar o que não é nosso, de ingerir substâncias intoxicantes, de manter uma conduta sexual imprópria e de matarmos seres vivos. E mantermo-nos, tanto quanto possível, a desenvolver qualidades como a paciência e a generosidade.
Talvez aí, sim, os cães pudessem aspirar a ser como nós.
Margarida Rocha e Melo é jornalista agora dedicada ao ensino; budista, mantém o respeito pela sua herança cristã, esperando poder contribuir para o encontro de religiões, de mentes e de seres humanos.
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