“Calem-se as armas!” Dignidade, justiça, fraternidade e direitos, os caminhos do Papa no primeiro dia no Iraque

| 6 Mar 21

Não houve banhos de multidão, porque a situação pandémica e o programa não o permitem, mas, em alguns lugares, muitos iraquianos não resistiram e quiseram ver o Papa ao vivo. Os dois discursos iniciais de Francisco em terras do Iraque marcaram o dia da sua chegada: apelos dramáticos aos políticos para que se ponha fim à violência, se pacifique a sociedade, e se permita uma vida digna para todos; e pedidos aos responsáveis católicos de que sejam exemplo de serviço, respeito e unidade nas diferenças. E não faltou um tapete das Mil e Uma Noites num dos discursos…

O Papa Francisco no Palácio Presidencial de Bagdad, ao ser recebido pelo Presidente Barham Salih. Foto captada da transmissão vídeo do Vatican Media.

 

Foi quase no final do seu primeiro discurso no Iraque – perante as autoridades políticas, representantes da sociedade civil e Corpo Diplomático – que o Papa Francisco resumiu, num longo parágrafo, as razões que confirmam a importância da sua viagem ao país, iniciada nesta sexta-feira, 5 de Março: “Calem-se as armas! Limite-se a sua difusão, aqui e em toda a parte! Cessem os interesses de grupo, os interesses externos que se desinteressam da população local. Dê-se voz aos construtores, aos artífices da paz; aos humildes, aos pobres, ao povo simples que quer viver, trabalhar, rezar em paz! Chega de violências, extremismos, fações, intolerâncias!”

No Palácio Presidencial de Bagdad, cerca das 4 da tarde (menos três horas em Lisboa), depois de acolhido pelo Presidente Barham Salih, o Papa sublinhou que, no entanto, é preciso também “espaço a todos os cidadãos que querem construir juntos este país”, continuar a “lançar as bases para uma sociedade democrática”, “assegurar a participação de todos os grupos políticos, sociais e religiosos e garantir os direitos fundamentais de todos os cidadãos” e não considerar ninguém como “cidadão de segunda classe.”

O Papa foi recebido no aeroporto por crianças com trajes tradicionais e, em alguns pontos dos curtos percursos, era possível ver algumas centenas de iraquianos a querer espreitar Francisco mais de perto, aos quais o Papa acenava com o braço fora da janela do carro.

Na sua intervenção, Francisco começou por recordar o desejo de visitar o país, “berço duma civilização estreitamente ligada, através do patriarca Abraão e de numerosos profetas, à história da salvação e às grandes tradições religiosas do judaísmo, cristianismo e islão”. E não deixou de assinalar o contexto limitado em que a viagem decorre: a crise pandémica atingiu a saúde de muitos, mas também provocou “o deterioramento das condições sociais e económicas” já marcadas pela “fragilidade e instabilidade”. Por isso são necessários “esforços conjuntos” em tudo o que é necessário para enfrentar a situação, “incluindo uma justa distribuição das vacinas para todos”, mas também o “repensar os nossos estilos de vida” e “o sentido da nossa existência”.

Sobre “os infortúnios das guerras, o flagelo do terrorismo e conflitos sectários”, o Papa deteve-se longamente: recordou a “morte, destruição” e as “ruínas ainda visíveis”, mas também as “feridas dos corações de tantas pessoas e comunidades que precisarão de anos para se curar”. Não é fora de tempo esta alusão, já que, nas últimas semanas registaram-se vários ataques suicidas e com rockets, para recordar que a violência ainda não foi erradicada do país.

 

Os yazidis, vítimas inocentes da barbárie
criança yazidi iraque Foto: © Adam Ferguson/Amnistia Internacional

Uma criança yazidi num campo: está em risco a própria identidade e sobrevivência deste povo, alertou o Papa. Foto: © Adam Ferguson/Amnistia Internacional

 

Francisco referiu explicitamente “os yazidis, vítimas inocentes duma barbárie insensata e desumana, perseguidos e mortos por causa da sua filiação religiosa, estando em risco a sua própria identidade e sobrevivência”. Os que perderam familiares, casas ou que ainda “lutam diariamente à procura de segurança e dos meios necessários para sobreviver, enquanto aumentam desemprego e pobreza” também foram recordados.

Pouco depois, no discurso perante bispos, clero, religiosas e catequistas, uma outra referência aos 48 cristãos que, em 2010, foram massacrados na Catedral de Nossa Senhora da Salvação – a mesma onde Francisco falou. “A sua morte lembra-nos fortemente que o incitamento à guerra, os comportamentos de ódio, a violência e o derramamento de sangue são incompatíveis com os ensinamentos religiosos.” A memória desse “sacrifício” deve levar, aliás, ao “perdão, reconciliação e renascimento”.

“Depois duma crise, não basta reconstruir; é preciso fazê-lo bem, de modo que todos possam ter uma vida digna”, acrescentou o Papa. E, repetindo uma expressão que usou ao longo deste ano, em diferentes ocasiões, disse: “Duma crise, não se sai igual ao que se era antes: sai-se ou melhor ou pior.”

Remédios para as feridas? Francisco também os enumerou. Desde logo, “conseguirmos olhar-nos uns aos outros, com as respectivas diferenças, como membros da mesma família humana”; a “diversidade religiosa, cultural e étnica, que há milénios carateriza a sociedade iraquiana, é um recurso precioso de que lançar mão, e não um obstáculo a ser eliminado”. Aliás, “o Iraque é chamado a mostrar a todos, especialmente no Médio Oriente, que as diferenças, em vez de gerar conflitos, devem cooperar harmoniosamente na vida civil”.

Como que num crescendo sobre os caminhos que a pacificação exige, o Papa acrescentou referências ao “diálogo paciente e sincero, tutelado pela justiça e o respeito do direito”. O que significa reconhecer “todas as comunidades religiosas” de forma igual”. E ainda: “enfrentar o flagelo da corrupção, os abusos de poder e a ilegalidade (…), edificar a justiça, aumentar a honestidade, a transparência e reforçar as instituições que a isso presidem.”

Ao lado, na Síria, começou há 10 anos uma guerra também ela fratricida (e qual delas não o é?…) E estas situações colocam desafios que “interpelam cada vez mais toda a família humana” e “exigem uma cooperação à escala global, para enfrentar também as desigualdades económicas e as tensões regionais que ameaçam a estabilidade” do Médio Oriente.

A religião vincou ainda o Papa, pela sua natureza “deve estar ao serviço da paz e da fraternidade” e não “justificar actos de homicídio, de exílio, de terrorismo e de opressão”. E, de novo, de forma implícita, o apelo a que o papel das diferentes religiões seja reconhecido em pé de igualdade e possa contribuir para a pacificação das sociedades: “A presença muito antiga dos cristãos nesta terra e o seu contributo para a vida do país constituem um rico legado que pretende continuar a servir a todos. A sua participação na vida pública, como cidadãos que gozam plenamente de direitos, liberdades e responsabilidades, testemunhará que um são pluralismo religioso, étnico e cultural pode contribuir para a prosperidade e a harmonia do país.

 

Um belíssimo tapete, do qual Deus é o artista

Um grupo de iraquianos aclamando Francisco à entrada da Catedral de Nossa Senhora da Salvação, em Bagdad: a diversidade é uma riqueza, insistiu o Papa. Foto da transmissão vídeo do Vatican Media.

 

Esta mesma ideia do respeito pela diversidade seria repetida pelo Papa no discurso aos responsáveis católicos, que representam uma minoria no país – cerca de 1%, uns 250 mil, quando há 20 anos, antes da invasão do país pelos EUA e aliados ocidentais, eram cerca de 1,5 milhões.

Nem sempre as diferentes confissões cristãs que coexistem no Iraque – católicos latinos, caldeus, siríacos… – são sinal da unidade e por isso o Papa foi buscar uma imagem própria do país das Mil e Uma Noites: “As diversas Igrejas presentes no Iraque, cada qual com o seu secular património histórico, litúrgico e espiritual, são como tantos fios de variegadas cores que, entrelaçados conjuntamente, compõem um único belíssimo tapete, que não só atesta a nossa fraternidade, mas remete também para a sua fonte, pois o próprio Deus é o artista que idealizou este tapete, que o tece com paciência e prende cuidadosamente querendo-nos sempre bem entrelaçados entre nós, como seus filhos e filhas.”

Recebido pelo patriarca Ignace Youssif Younan e pelo cardeal Louis Sako, Franicsoc insistiu no necessário testemunho da unidade numa região e num mundo por vezes estilhaçados em pedaços: “Como é importante este testemunho de união fraterna num mundo que se vê frequentemente fragmentado e dilacerado pelas divisões! Todo o esforço feito para construir pontes entre comunidades e instituições eclesiais, paroquiais e diocesanas aparecerá como gesto profético da Igreja no Iraque e como resposta fecunda à oração de Jesus para que todos sejam um só.”

Para os que tinha diante de si na catedral, Francisco dirigiu algumas mensagens concretas: anunciar Cristo só é possível “com o testemunho de vidas transformadas pela alegria do Evangelho”, porque só uma fé viva pode “contagiar” o mundo; a esperança é a “vacina” contra o vírus do desânimo; é importante perseverar na atitude de apoiar as vítimas das guerras, da pobreza e das perseguições; os bispos devem estar próximos das pessoas; e todos – bispos, padres, religiosas, catequistas e seminaristas – devem servir quem precisa e não passar o tempo em reuniões e sentados à secretária: “É importante sair para o meio do nosso rebanho e oferecer a nossa presença e acompanhamento aos fiéis nas cidades e nas aldeias.”

Neste sábado, quando em Portugal forem seis da manhã, Francisco estará com o ayatollah Ali al-Sistani, líder espiritual dos muçulmanos xiitas; depois, às 8 da manhã em Lisboa, preside a um encontro inter-religioso; às 3 da tarde (hora portuguesa) celebra missa na catedral caldeia de São José, em Badgad; no domingo, o programa também é madrugador, para os horários portugueses: encontro com o Presidente e primeiro-ministro da região autónoma do Curdistão (5h30); oração pelas vítimas da guerra em Mossul (7h); visita à comunidade cristã de Qaraqosh, a maior do país (8h30) e missa em Erbil às 13.

Para o encontro desta manhã, em Ur, a região de onde saiu Abraão, o Papa tem uma ideia clara: proclamar “mais uma vez” a convicção dos líderes de diferentes credos “de que a religião deve servir a causa da paz e da unidade entre todos os filhos de Deus”.

 

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