Cameron Doody, ex-director do “Novena”: “O jornalismo independente e profissional é necessário na Igreja, hoje mais do que nunca”

e | 10 Dez 20

Novena News. Jornalismo e religião

Os quatro principais redactores do Novena: Angele Bucyte, Cameron Doody, Mada Jurado e Matt Kappadakunnel. A equipa de colaboradores incluía ainda outros jornalistas e os académicos Michael G. Lawler e Todd A. Salzman.

 

Foi uma experiência curta de 18 meses, mas intensa e positiva, diz o seu principal responsável: o Novena, jornal digital de informação sobre o catolicismo e os seus interfaces com a política, economia e cultura, pôs fim à sua publicação no passado dia 30 de Novembro. Publicado em inglês, o Novena foi várias vezes fonte de informação para o 7MARGENS (e o nosso jornal também foi várias vezes citado no Novena).

“Como em tantas outras questões, o Papa Francisco vem mostrando o caminho a seguir também no jornalismo”, diz, nesta entrevista ao 7MARGENS, o editor do Novena, Cameron Doody, explicando as razões de sucesso e insucesso da publicação. “O Papa também encoraja os jornalistas a serem ‘uma voz para os que não têm voz’”, frase a que “os comunicadores católicos deveriam prestar mais atenção: Quem são esses que não têm voz, não só na sociedade, mas também na Igreja? Os media católicos estão realmente a reflectir a amplitude e a profundidade das suas histórias?”

Australiano, mas a residir em Madrid, doutorado em História e Filosofia Antiga Judaico-Cristã, docente universitário de Ética e jornalista em religião, Doody colaborou em várias publicações internacionais – entre as quais o espanhol Religión Digital, parceiro do 7MARGENS.

 

7MARGENS – Porquê o nome Novena?

CAMERON DOODY – Os nossos critérios para decidir sobre o nome foram três: algo conciso, algo católico e algo, se não compreensível entre as várias línguas europeias, pelo menos pronunciável entre elas, com sílabas simples. Esses três critérios – substância da informação, identidade católica e construção de pontes entre culturas – eram a essência de todo o nosso projeto. Então quisemos que o nosso nome refletisse isso.

7M – O que o levou a lançar Novena, do ponto de vista do projeto editorial e do contexto eclesial?

C.D. – Tínhamos dois objetivos com Novena. Em primeiro lugar, fazer a cobertura do que estava a acontecer na multiplicidade de interfaces entre a Igreja e a sociedade em geral – na política, na economia, na cultura, etc.; em segundo lugar, informar sobre questões mais “intraeclesiais”, se é que se pode separar essas duas vertentes.

A nossa perspectiva editorial orientadora foi olhar para ambos os aspectos através de uma lente “secular”, fazendo perguntas como: o que é que um não católico acharia interessante no que a Igreja está a dizer e a fazer? Como é que os não católicos esperam que cubramos a história?

7M – Mas isso era feito com uma linguagem jornalística…

C.D. – Procurámos colocar em prática os melhores padrões do jornalismo secular: clareza, veracidade, exatidão, justiça, imparcialidade, responsabilidade, etc.. Acreditamos no poder da profissão jornalística e sabemos que as pessoas hoje têm a expectativa de encontrar esses valores nas organizações em que confiam para as informar, incluindo no campo das notícias sobre religião.

Estávamos também convencidos de que, ao identificar o ângulo “secular” da história, prestávamos também um serviço à Igreja em termos de comunicação de sua mensagem – ampliando os pontos de contacto com a sociedade em geral em que ela já estava a apostar, mas mostrando, ao mesmo tempo, implicitamente, onde ela poderia ter um impacto maior.

 

Jornalistas devem ser a voz dos que não têm voz

7M – Que razões vê para o fim do projecto 18 meses depois de iniciado? E que balanço a equipa faz do caminho percorrido?

C.D. – Tomámos a difícil decisão de fechar o Novena por motivos puramente práticos. Depois de termos lutado durante vários meses com os efeitos sociais do coronavírus, os efeitos económicos atingiram-nos: eu próprio perdi o emprego a meio tempo que tinha noutro lado e com o qual contávamos para manter Novena a funcionar financeiramente.

Isto foi a gota de água. Menciono tudo isto para deixar claro que a decisão de terminar a publicação não foi de forma alguma por termos perdido a fé no projecto ou no poder dos media ou na Igreja. Nunca pretendemos transformar o Novena num empreendimento com fins lucrativos, pois estou firmemente convencido de que esse não é o caminho a seguir para os meios de comunicação, sejam católicos ou não. Mas precisávamos de uma almofada financeira que, infelizmente, a covid-19 tirou.

Dezoito meses depois, o balanço que faço da nossa aventura é extremamente positivo. Sinto-me imensamente privilegiado por ter trabalhado com os meus colegas neste projecto, e também por ter visto, experimentado e compreendido mais sobre a incrível riqueza de história, ideias, debates e personalidades da Igreja na Europa.

 

7M – Como vê o papel do jornalismo independente e profissional na Igreja e no fenómeno religioso hoje?

Cópia de papa francisco Foto Vatican Media

“O Papa quer que os jornalistas perguntem também: ‘Quem são esses que não têm voz, não só na sociedade, mas também na Igreja?’.” Foto: Vatican Media

 

C.D. – O jornalismo independente e profissional é necessário na Igreja, hoje mais do que nunca, pelas mesmas razões que é necessário em todos os campos da sociedade. Precisamos do maior número possível de vozes dizendo a verdade ao poder, e isso inclui não ter medo de expor as injustiças e de fazer todo o tipo de perguntas difíceis.

Como em tantas outras questões, o Papa Francisco vem mostrando o caminho a seguir também no jornalismo. Juntamente com os avisos para não esconder a verdade e não espalhar desinformação, o Papa também encoraja os jornalistas a serem “uma voz para os que não têm voz”. Essa frase, em toda a sua riqueza, é algo a que os comunicadores católicos deveriam prestar mais atenção: quem são esses que não têm voz, não só na sociedade, mas também na Igreja? Os media católicos estão realmente a reflectir a amplitude e a profundidade das suas histórias?

Aqui poderiam estar as sementes de um futuro projeto de media católico, na minha opinião: em paralelo com os veículos de notícias hiperlocais emergentes no mundo secular, talvez precisemos de um canal católico microlocal voltado para os praticantes habituais e/ou para as pessoas que se sentem expulsas da Igreja. Muitas vezes também tendemos a pensar na “Igreja” apenas como homens ordenados, quando a verdade é que há leigos e religiosos que têm histórias tão ou mais interessantes para contar.

 

Diversificar informação e formar consciências

7M – Acredita que há hoje uma oferta diversificada de informação, que permita alimentar uma opinião pública informada e participativa no espaço eclesial católico?

C.D. – Acho que a diversificação e também uma melhor formação de consciências e opiniões e mais participação são aspectos que devemos trabalhar mais na Igreja como um todo, e não apenas nos media eclesiais.

A diversificação de informações é construída no próprio coração da nossa fé – o Novo Testamento tem quatro Evangelhos e não apenas um, por exemplo. A formação das consciências é também essencial, pois de que outra forma daremos assentimento – sentir e pensar com ela, pois é isso que significa assentimento – à Igreja e ao que ela ensina? E quanto à participação? Se não reconhecemos, valorizamos e promovemos os dons de todo o povo de Deus, não somos Igreja, como ensinou o Concílio Vaticano II.

 

7M – Mas há problemas entre os dois campos?

C.D. – Os problemas que vejo para os media da Igreja são pelo menos três. Em primeiro lugar, o da perspectiva – a Igreja ainda não está a falar de forma suficientemente audível e relevante para aqueles espaços que poderiam ser de interesse para o público secular, fornecendo orientação real sobre questões sociais do dia-a-dia, por exemplo.

Em segundo lugar, há o problema de a Igreja ainda operar com base no princípio da submissão cega e da obediência, que muitos católicos ainda confundem com piedade. E em terceiro lugar, muitos titulares de cargos da Igreja ainda têm medo dos media, ou não entendem o seu poder, ou ambos – de forma que escondem a luz da Igreja sob o alqueire, por assim dizer, por não comunicar a mensagem em tempo oportuno e de forma eficaz, ou, o que é pior, acabam a atrapalhar o trabalho dos jornalistas.

“Muitos responsáveis da Igreja ainda têm medo dos media, ou não entendem o seu poder, ou ambos – de forma que escondem a luz da Igreja sob o alqueire.” Foto © António Marujo

 

7M – Perante isso, há esperança?

C.D. – Há pelo menos uma nota esperançosa! Vejo o futuro do jornalismo – e o jornalismo religioso não é exceção – no melhor uso da tecnologia. A tecnologia não está apenas a fornecer maneiras cada vez mais eficientes de reunir e apresentar informações, mas também fornece mais e mais maneiras de permitir a participação e de exigir transparência e responsabilidade.

Certamente a tecnologia tem as suas desvantagens, mas é uma questão de conhecê-las e utilizar alternativas éticas, que são muitas. A Igreja e os media da Igreja ainda tendem a ver a tecnologia como um mal necessário, quando na verdade são uma oportunidade tremenda.

 

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O Supremo Tribunal de Justiça (STJ) confirmou a condenação de um homem ao pagamento de mais de 60 mil euros à ex-companheira pelo trabalho doméstico que esta desenvolveu ao longo de quase 30 anos de união de facto. (Público, 24-2-2021)
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