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Camilo Castelo Branco
Camilo Castelo Branco. Foto DR

[Saborear os clássicos – XVIII]

Camilo Castelo Branco, um génio na literatura portuguesa

 

«As raízes da cultura estão naquelas obras chamadas clássicas, obras cuja mensagem se não esgotou e permanecem fontes vivas do progresso humano»
(edições da Fundação Calouste Gulbenkian)

Camilo Castelo Branco (1825-1890) é um infatigável e apaixonado narrador de histórias que nos fazem rir e chorar simultaneamente, acrescentando comentários e outras histórias em longas notas de rodapé.

Em Portugal, é o primeiro profissional das letras. Vivia para contar, dia e noite, tal como Sherazade, a heroína das Mil e Uma Noites.

Em São Miguel de Seide, pedia muitas vezes a Ana Plácido, que falava com o mulherio, que contasse casos passados nas aldeias circunvizinhas; possivelmente já alteradas pelas comadres. O narrador afeiçoava-os a seu modo, alterando. Reinventando, tal como um artífice modela um objecto.

Escreve continuamente, de sol a sol, como um cavador antigo dava a jornada (Aquilino Ribeiro). E continua durante a noite, à luz das velas.

 

Quem era, afinal, Camilo Castelo Branco?

Camilo-locomotiva, caricatura no Museu Bordalo Pinheiro: “escrever a todo o vapor…”. Direitos reservados.

 Um pobre rapaz sem eira nem beira nem ramo de oliveira. (Aquilino Ribeiro)

A mãe de Camilo faleceu quando ele tinha dois anos. (…) Há 35 anos que o meu pai morreu. Então já não brincava eu. Abri-lhe o caixão para dar o último beijo… (Carta de Camilo a Feliciano de Castilho). Tinha Camilo nove ou dez anos.

A orfandade despertou em Camilo a ânsia de procurar afectos fortes; reconhecer que tinha de se bastar a si mesmo; oscilar entre a brandura escondida e a violência; a zombaria e a confiança.

Extrovertido, encontrando e desencontrando variadíssimos amores, com uma sensibilidade exacerbada, faminto de carinhos femininos, vagueando por aqui e por ali; absolutista, cartista, constitucionalista, liberal… Enfim: inconstante, instável, contraditório, sempre em busca de algo inacessível.

 

Contra tudo e contra todos, à conquista da “cidade invicta”

 

Quando Camilo chega ao Porto, em 1843, vive na Rua Escura, bairro pobre e lamacento da cidade.

O Porto oitocentista vive um período fecundo nos planos político, cultural e jornalístico. Recordava ainda a heroica Resistência das tropas liberais ao Cerco dos miguelistas (1832-1833), liderada pelo rei D. Pedro IV, que doou o seu próprio coração à cidade, como eterno agradecimento aos seus cidadãos. A Resistência portuense foi fundamental para a vitória do constitucionalismo em Portugal. (1)

A mocidade ainda exibia, segundo Ramalho Ortigão, um aspecto marcial, um temperamento batalhador, bigode arqueado… muitos traziam revólveres no bolso, esporas a rigor.

Boémios, dândis, iconoclastas, movimentando-se nas tertúlias literárias na livraria Moré, em patuscadas, frequentando bordéis, envolvendo-se em distúrbios frequentes no Teatro de S. João e recebidos nos salões da melhor sociedade portuense. Suspirando por um amor idealizado, vivendo trágicas paixões, levando por vezes ao suicídio.

Camilo é dos mais aguerridos: é o modo de se impor através da ironia, sarcasmo ou até da força física: à mais leve provocação, puxava com ânsia pelo casse-tête… suspenso do pulso por uma correia, segundo António Cabral. Começava a pancadaria.

Inicia a sua escrita em diversos jornais, saindo aí também as suas primeiras obras, em folhetins, como Anátema (1851).

 

“A tábua da lei das quatro operações aritméticas… em que dous e dous são cinco”

“(…) os burgueses abastados do Porto e alguns intelectuais odiavam esse pervertido gazetilheiro e folhetineiro.” Foto: Casa museu de Camilo Castelo Branco. Foto DR

A frase é do próprio Camilo Castelo Branco, que não poupava os comerciantes ricos, além dos brasileiros torna-viagem endinheirados. Por este motivo, os burgueses abastados do Porto e alguns intelectuais odiavam esse pervertido gazetilheiro e folhetineiro.

Era irreverente, companheiro dos filhos-família que conviviam com ele, para já não falar das filhas: sempre atrás do luzir de saias, rodando no Jardim de S. Lázaro, frequentando bailes dados por digníssimas famílias ou nas diversas associações culturais e recreativas, à saída das missas dominicais frequentadas pelas boas famílias – e nem as freiras escapavam.

Além do amor físico, Camilo precisava do lume central de bondade que irradiam a mãe, família e almas sinceras (Aquilino Ribeiro).

Ou odiado ou temido ou respeitado, Camilo era alguém que o Porto bem conhecia. Alguns jovens companheiros endinheirados das variadíssimas tertúlias apoiavam-no por vezes monetariamente, visto que Camilo era perdulário e ser jornalista e escritor era mal pago.

A pena parece correr-lhe mais rápido que a imaginação!, dizia Augusto Soromenho, jornalista e seu companheiro profissional. Outro amigo comentava: Impressão igual, só à boca de uma forja!

Camilo, o escritor, não parava: raras vezes emendava o que escrevia.  Continuava pela noite fora, pois teria de ser publicado no dia seguinte, de manhã cedo.

De 1845 a 1859, surgem 37 títulos. Alguns exemplos: Mistérios de Lisboa, A Filha do Arcediago, A Neta do Arcediago, Onde está a Felicidade, O Que Fazem Mulheres, Um Homem de Brios, Carlota Ângela, Vingança… além da colaboração na imprensa, traduções e escrita de prefácios.

Em 1959 está consolidada a sua fama. Camilo é também um grande leitor e procura livros por todos os meios, visitando antigas bibliotecas de conventos arruinados, antigas casas nobres, encontrando, em adegas de lavradores, pipas sustentadas com missais – assim chamados pelo povo a todos os livros grossos, relativos a escritores clássicos.

 

“Que lindos dias, meu Barbosa!”

A pergunta que o autor de Duas Horas de Leitura (1857) coloca aos leitores nas primeiras páginas exprime uma concepção moderna do acto de ler: «eu queria que me lessem… com o coração disposto para crer. Se crêem, sentirão. Se sentirem, hão-de pensar. Se pensarem, vêm comigo a um acordo…»

A leitura não é assim um mero acto sentimentalista; o leitor é activo: sente e pensa. É a formulação moderna pessoana: «… O que em mim sente está pensando…»

«… Que lindos dias, meu Barbosa! O sol e as mulheres não é o mais lindo que o mundo tem?…» (Carta do escritor ao amigo José César Machado).

Camilo escrevia para elas: as meninas e as senhoras costumavam ter dentro da caixa de costura, um «romance» passional de Eugène Sue ou Alexandre Dumas – ou uma novela de Camilo que as fazia cismar: sentir e pensar na situação da mulher na sociedade e por vezes o desejo de se libertar das amarras da condição feminina. São essas as heroínas camilianas; e talvez fosse o que acontecera a Ana Plácido que abandonou a casa do marido.

A novela passional exercia na mentalidade feminina – limitada a um circuito quase fechado – um atractivo sonhador: paixões arrebatadoras, oposição à autoridade familiar, destinos trágicos dos protagonistas. No caso de Camilo, o desejo de o ver em carne e osso.

 

«O que fazem Mulheres»

Ana Plácido e Camilo, em família, em São Miguel de Seide. Foto: Direitos reservados

A novela O que Fazem Mulheres (1859) é bem um exemplo da originalidade e da modernidade da novela camiliana. O escritor-narrador apresenta uma tese auto-irónica: a heroína desta novela é um anjo que desceu do céu à terra e por isso é incorruptível. Desenrola-se uma intriga tragicómica, cheia de peripécias tumultuosas, contrastando com a inabalável qualidade da protagonista. Finalmente, tudo parece acabar num convento, coroando a angélica criatura.

Mas eis que no capítulo XIII, o escritor-narrador convoca alguns fiéis leitores das suas novelas e um critica-o: – nas tuas novelas, no meio da obra já se sabe o fim. O escritor recusa com veemência essa crítica e insiste que Ludovina, a mulher-anjo, não alterará a sua personalidade. E fazem uma aposta.

No momento em que o escritor-narrador entrega a novela ao tipógrafo, este insiste com o escritor que uma virtude em duzentas páginas por 500 réis, era pequena demais para o comprador que prefere um vício em 300.

Salta então para dentro da intriga o jovem leitor e crítico das suas novelas, que vive sempre sucessivas paixões.

Contou ao escritor-narrador que escreveu muitas cartas de amor à protagonista desta novela para o convento situado perto do seu solar. Esperou muito tempo até que ela finalmente lhe respondeu.

Resultará ou não a intenção deste fervoroso apaixonado que odeia a tristeza e deseja salvar Ludovina?… a ambiguidade toma conta do desenlace.

 

A novela de paixão amorosa mais intensa e profunda

Camilo Castelo Branco Amor de Perdição (1860-1), escrevia Unamuno, é “novela de paixão amorosa mais intensa e profunda que se tenha escrito na Península”. A novela não é sentimentalista. É uma obra-prima que pode ter lugar entre outras obras-primas europeias.

O próprio escritor reconhece que é mais elaborada, comentando a sua estrutura em Vinte Horas de Liteira: a rapidez das peripécias, os diálogos concisos, a ausência de divagações filosóficas, a lhaneza da linguagem…

Mariana é uma personagem viva, a mais humana e complexa da obra (Jacinto Prado Coelho) sacrificando-se por Simão até à morte. Tal como o seu pai, um simpático almocreve que não esquece os favores que deve à família dos Botelhos. O perfil da protagonista surge em pinceladas mais esbatidas. Exceptuando as cartas escritas de Teresa a Simão e certas cenas: a despedida dos dois amantes, por exemplo, no Porto: Teresa, apoiada por uma freira, no alto do Convento de Monchique, junto ao rio Douro, já moribunda, acena com o lenço a Simão, condenado ao desterro, já embarcado na nau que se esfuma para o mar alto.

Os fados, o destino, orientam as paixões de Teresa, Simão e Mariana para a morte, ao encontro infinito da honra e do amor, impossíveis neste mundo.

Diz Simão a Mariana, estando ele já moribundo, na viagem que os levaria ao desterro:

Tu virás ter connosco, ser-te-emos irmãos no céu. O mais puro anjo, serás tu… se és deste mundo, irmã, se és deste mundo, Mariana… «o triângulo» amoroso transformar-se-á, na outra vida, numa eterna harmonia.

Jacinto Prado Coelho considera esta novela no âmbito de outras grandes obras do Ocidente, desde tempos imemoriais.

 

Do riso e da ironia à novela satírica

O riso e a fina ironia camiliana resvalam, por vezes, para a novela satírica de costumes.

É o caso, por exemplo, de Sorte em Preto, enquadrada em Cenas da Foz (1857): dois jovens estão apaixonadíssimos – mas há neste caso um interesse por dinheiro, por parte do homem que deseja casar com Hermenegilda. Ele tem de se ausentar e no regresso ela dá-lhe a alegre notícia da sua gravidez. O noivo sente-se realizado. No entanto, nasce um mulatinho, fruto das brincadeiras de Hermenegilda com o seu jovem escudeiro preto…

A Queda dum Anjo é a degeneração de um fidalgo provinciano que chega à capital para ser deputado; é também uma sátira à oratória parlamentar e à indiferença governamental, na época do constitucionalismo.

Muitas vezes o narrador transforma a idealização do amor numa crítica e troça de costumes, na mesma obra.

 

Novelas do Minho

 

Sobre Novelas do Minho (1875-76) escreveram António José Saraiva e Óscar Lopes que este conjunto de novelas inicia uma acentuada transformação na maneira camiliana de construir a ficção romanesca.

Nesta obra, o autor, passada já a agitação da juventude, vivendo em S. Miguel de Ceide, vai dar menos peso à análise sentimental. A ironia, a sátira e o riso com intenção crítica são relevantes. Os apartes do narrador ao leitor quase inexistentes.

A novela Maria Moisés, inserida neste conjunto, termina com um reconhecimento emotivo muito belo entre o pai e a filha encontrada. Entre eles, e ligando-os profundamente, está o gesto sublime da amante e mãe: embora morra tragicamente no rio Tâmega, conseguiu salvar a filha recém-nascida.

Releva-se nesta novela, o constante embrutecimento de alguns aldeões pelo vício do vinho, como João da Lage, indiferente à morte da filha afogada no rio; as mulheres, em geral, vítimas dos maridos, mas supersticiosas e ignorantes. Ao ver que a filha solteira está prestes a dar à luz, a mãe grita-lhe, quase selvagem:

– … morta te veja eu antes da noite!   

Há também o grupo dos doutores e prelados superiores com as suas conversas vazias, descritas ironicamente pelo narrador.

É criticado o sentido da honra, vazia e quase obscena de uma decrépita fidalguia, opondo-se à vontade dos filhos, nos casamentos por amor.

 

Comédia de costumes

Camilo Castelo Branco, visto por Bordalo Pinheiro. Caricatura do Álbum das Glórias e do Museu Bordalo Pinheiro. Direitos reservados.

Posteriormente, nas novelas Eusébio Macário, A Brasileira de Prazins e A Corja, o escritor pretende adaptar mais a sua obra às novas tendências da literatura.

Eusébio Macário e A Corja (1879-80) constituem, segundo o autor, a «História Natural e Social no tempo dos Cabrais». É uma novela em dois volumes em que a sátira resvala para a comédia de costumes.

Impressiona pela linguagem exacerbada de neologismos, diversidade de níveis de língua, sobretudo popular, o uso do discurso indirecto livre, pelo riso e escárnio, pela profusão e rapidez das peripécias e a desenvoltura das personagens.

No primeiro volume, passada a acção numa aldeia minhota, apresentam-se as personagens: Eusébio, viúvo e ervanário, é contra a medicina moderna; o filho José Fístula, femeeiro e bêbado; a filha Custódia é toda gaiteira e namoradeira. Há também o abade, amigado com a Felícia. Todos vão ao encontro do Bento, brasileiro rico torna-viagem, irmão da Felícia, feito barão. O objectivo é casar Custódia com o barão.

Após o casamento, todos vão viver para o palacete do Bento e Custódia, no Porto. Felícia substitui o abade pelo José Fístula, casando com ele. O segundo volume, A Corja, ainda é mais cómico, mais rápido em peripécias. Na cidade são recebidos pela melhor sociedade portuense, a baronesa é do maior recato. Mas a vaidade, a lisonja, as más companhias… tudo em pouco tempo se destrói: casamentos, amizades, riqueza… que «corja»!

Não fica atrás, mas num andamento aparentemente moderato, A Brasileira de Prazins (1882). Intercala-se a novela de uma jovem aldeã, transformada em brasileira por ter casado contra a sua vontade com o tio rico, proveniente do Brasil – e o seu encarecido, eterno e místico amor pelo seu apaixonado José, falecido tísico, levando-a à loucura.

Simultaneamente, narra-se a farsa de um impostor que se identifica como D. Miguel, regressando à Pátria para implantar de novo o absolutismo.

Toda a tramoia é passada numa aldeia do Minho, perto de Braga, juntando à sua volta, em grande segredo, os seus vassalos. O rei enche-os de prebendas e altos graus militares – padres, fidalgos fiéis ao miguelismo e elementos populares, sendo o mais encarniçado, o Zeferino, – cheios de basófia, do tempo da Patuleia e da Maria da Fonte (1846-47), movimentos populares retrógrados, escarnecidos por Camilo noutros passos da sua obra.

São esses os espaços de eleição das suas novelas – Minho e Trás-os-Montes, contactando ou até vivendo por vezes com o povo, muito pobre e simples e outras classes e grupos sociais.

Há, por exemplo, bastantes referências aos padres, em geral considerados pouco instruídos e sensuais.

 

“Memórias do Cárcere”

Camilo Castelo Branco

“Camilo, numa carta a Teófilo Braga: Nunca senti o meu espírito tão lúcido, a fantasia tão fecunda, o esforço tão inquebrantável.” Gravura: Memórias do Cárcere (pormenor de capa do livro editado pela Europa América)

Sobre Memórias do Cárcere (1860-61), dizia Camilo, numa carta a Teófilo Braga: Nunca senti o meu espírito tão lúcido, a fantasia tão fecunda, o esforço tão inquebrantável.

Esta obra foi escrita durante a prisão do escritor e Ana Plácido, na Cadeia da Relação do Porto, no processo judicial colocado por Manuel Pinheiro Alves à sua mulher, Ana Plácido, e àquele.

Camilo é já uma figura reconhecida como escritor. Extrovertido, fala com os presos, acolhe os seus desabafos, as suas vidas, comove-se, no ambiente hostil e tenebroso da cadeia.

Surgem, assim, muitos relatos plenos de humanidade e emoção, admiravelmente descritos, acerca das vicissitudes dos seres humanos.

Conclui o narrador que, embora não acredite em utopias e ache que há naturezas perversas, descobriu uma porção incorrupta em cada uma das almas que deixei bosquejadas… quem lá está preso, fica naturalmente pior… é aos presos matar-lhes a alma… é roubar a Deus o que é de Deus… visto que o Criador há-de chamar a si o que deu da sua imagem ao homem, quer este seja santo quer demónio.

Além desses relatos, o escritor-narrador desvenda-se de várias formas. Escreve novelas: Romance de um Homem Rico, baseado na personalidade do primeiro preso que relatou a sua vida, António José Coutinho; Amor de Perdição, como se sabe, baseado nas memórias da família relativas a um seu parente que seguiu para o exílio, mas a obra vale, sobretudo, pela imaginação prodigiosa do escritor; Doze Casamentos Felizes; Coração, Cabeça e Estomago.

Recorda os lugares por onde andou, nessas novelas. O interior esquecido, povoações dispersas do Minho, Trás-os-Montes e até Alto Douro; descreve a personalidade do povo, vivendo em condições miseráveis; os fidalgos; os padres – lembrando ao leitor que na maior parte das suas obras cria padres idealizados; os brasileiros torna-viagem…

Recorda em especial – era ele pré-adolescente, acompanhando a irmã que casara – a paisagem agreste da aldeia Vilarinho de Samardã, os penedos escarpados, os lobos famintos descendo ao povoado e comendo um burro transviado…

 

A visita de um rei que queria arrasar a cadeia

Alberto Aires de Gouveia, Camilo Castelo Branco (1918), pintura no Museu de Lamego. Direitos reservados.

Até na cadeia, Ana Plácido inicia a escrita do livro Luz Coada por Ferros, para não ficar atrás. Mas Camilo nunca se esquece que estão os dois presos e simultaneamente põe-se a escrever para amigos e «inimigos» bem colocados no sistema governativo, que «os salvem» do degredo. Alguns excertos de diversas cartas:

«… a D. Ana passa muito mal…aqui faz muito frio. Estou gravemente doente…escrevi ao Fontes…a generosa alma do Fontes…»; «(…) O Sampaio prometeu-me tudo que estivesse ao seu alcance…o Avelino mostrou-se muito empenhado… (…) «Acuda-me o meu amigo com as suas relações em Lisboa. Acuda que salva de África um seu amigo de 15 anos e a desgraçada senhora que lentamente agoniza numa tísica a poucos passos de mim sem que eu lho possa dizer: «Coragem, mártir…». (2)

Uma verdadeira tragicomédia, estas cartas, tal como a obra camiliana.

Na verdade, a situação dos dois presos alterou-se passado uma semana e meia, com um novo guarda prisional. Saiu uma portaria do rei D. Pedro V, em que era concedida a Camilo a licença de sair por algumas horas da cadeia – problemas agravados na vista e outros males…; Ana Plácido, ensaiando uma pose à George Sand, fuma charutos à janela, irritando os moralistas da cidade; toca piano na sua cela/sala; recebe as visitas à tarde… até Camilo tem uma cópia da chave da cela onde ela estava, entrando à hora que desejasse.

É o comentário do rei D. Pedro V após visitar as Cadeias de Relação, incluindo as enxovias, criticando as condições sub-humanas dos presos.

Cumprimenta com deferência Camilo:

– Estimarei que se livre cedo!

O Porto fica embasbacado com as honras do rei a Camilo e este exclama:

– O Rei D. Pedro V é um anjo…

Por tudo isto, o escritor confessa ao seu amigo Ouguela, quando ele e Ana Plácido saíram ilibados do julgamento: Já sabes que eu, quando estive preso, por fim não me dava mal no conforto do quarto e fui intimado para sair pelo Procurador régio.

 

A sua arte era a sua própria vida

Mesa do escritório na Casa Camilo, em São Miguel de Seide. Foto: Direitos reservados.

Finalmente, Camilo tem uma família, um poiso estável: Ana Plácido é média proprietária, mas a vida dramática de Camilo não se esgotou. Que remédio se não escrever romances…

Exceptuando o Manuelzinho que Camilo não considera seu filho, embora o trate como seu (carta a Feliciano de Castilho a 28/9/1865): «…vou amanhã a Coimbra acompanhar o filho de Dona Plácido, garoto de 10 anos que fugiu do Colégio. Vai para o Seminário…»; teve dois filhos de Ana Plácido: Jorge, louco; Nuno: filho-família, estroina e amigo de meliantes.

Ultimamente, agravando-se a vista, cansado, repete com insistência aos amigos mais íntimos acerca do fatalismo que persegue a sua família, da possibilidade do seu suicídio, tendo já amadurecido anteriormente estas ideias.

Após ter sabido por um célebre oftalmologista que ficará cego, não hesita e dispara o revólver contra si próprio. Agonizou durante várias horas.

Está sepultado no jazigo do seu grande amigo, Freitas Fortuna, no Cemitério da Lapa, no Porto.

Por tudo isto – e pelo que não foi dito, porque este escritor nunca se esgota – a estátua de Camilo, no antigo Largo da Cadeia da Relação do Porto, é uma imagem falsa, indigna do escritor. Uma farsa sem imaginação sobre a personalidade do grande Camilo Castelo Branco.

 

Notas

  • Esta lembrança está patente na toponímia das ruas da cidade: Campo 24 de Agosto, Praça da Batalha, Rua 9 de Julho (entrada na cidade das tropas liberais), Rua dos Mártires da Pátria, Largo dos Mártires da Liberdade – onde os resistentes ao absolutismo foram enforcados – Bairro do Cerco, Rua do Duque da Terceira, Rua da Constituição, Rua Fernandes Tomás…
  • Excertos de variadas cartas referidas por Aquilino Ribeiro na obra «O Romance de Camilo».

 

Bibliografia consultada: (além de variadíssimas obras de Camilo Castelo Branco):

. António José Saraiva e Óscar Lopes: História da Literatura Portuguesa;
. Aquilino Ribeiro, O Romance de Camilo (3 volumes);
. Jacinto Prado Coelho: Introdução ao estudo da Novela Camiliana (1º vol.);
. Alexandre Cabral: Introdução à obra «Novelas de Camilo»;
. (idem) «Roteiro Dramático dum Profissional das Letras», in revista Ler, nº 173.

 

Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário; foi monja budista zen e integrou a Comunidade Mundial de Meditação Cristã.

 

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