Caminhar juntos com S. Óscar Romero

| 26 Mar 2022

Fr. Rutilio Grande (right) served as master of ceremonies for the installation of St. Oscar Romero (center), as archbishop of San Salvador in 1977. (Creative Commons)

Óscar Romero (ao centro), já como arcebispo de San Salvador, em 1977, com Rutílio Grande a seu lado. Foto © Creative Commons.

 

A Igreja Católica fez, no passado dia 24, memória litúrgica de S. Óscar Romero. Não conheço algum lugar de culto, em Portugal, que tenha este santo mártir como patrono. Talvez muito poucos católicos saibam quem foi este santo arcebispo da Diocese de San Salvador, entre 1977 e 1980, capital do mais pequeno país da América Central, que é El Salvador. Os seus diocesanos eram gente pobre e oprimida, boa parte dela a viver em bairros com condições infra-humanas. Eram poucos os padres que se interessavam pela situação de miséria em que viviam essas famílias. Um desses padres, Rutílio Grande, foi assassinado pelo regime ditatorial, o que 

foi para Monsenhor Romero um problema. Era, por um lado, um sacerdote virtuoso, zeloso, verdadeiramente crente; e, por outro, a sua missão pastoral parecia-lhe incorreta e equivocada. 

Óscar Romero era um clérigo de pendor mais espiritualista e com uma visão assistencialista quanto à pobreza. Direitos humanos, caridade libertadora, justiça social e defesa dos “esquecidos” não eram vistos como assuntos que considerasse relevantes para o seu ministério sacerdotal e de bispo da Diocese de Santiago de Maria. Despertou para as suas responsabilidades como cristão-bispo, depois do assassínio do seu amigo Rutílio. A morte deste padre amigo dos pobres esteve na origem da significativa conversão de Romero. Há quem se refira a esta metanoia como “milagre de Rutílio”. Estou plenamente ciente de que a caminhada que está a ser feita no âmbito do Sínodo da Igreja Católica 2021-23 sem a concretização das orientações que dele surgirem poderão ser inúteis, se não houver primeiro uma conversão pessoal, pelo menos dos que têm maiores responsabilidades no cumprimento da missão primordial da Igreja. A referência para a transformação interior será, inequivocamente, o testemunho e os ensinamentos de Jesus. Ele não fez qualquer aceção de pessoas e foi perentório ao avisar que “os doutores da Lei e os fariseus instalaram-se na cátedra de Moisés” (Mateus 23, 2) e recomendou que não se procedesse como eles “pois, eles dizem e não fazem” (Mt 23,3); colocam fardos (digo eu, normas, práticas rigorosas, moralismos…) “mas eles não põem nem um dedo para os deslocar” (Mt 23, 4); querem-se fazer notar, por isso “alargam as filactérias e alongam as orlas dos seus mantos” (Mt 23, 5); que há um só Pai e somos todos irmãos (cfr. Mt 23, 8-9); que quem “se exaltar será humilhado” (Mt 23, 12); que são condenáveis as atitudes dos que fecham o Reino de Deus onde não entram nem deixam entrar (cfr. 23, 13). 

Tanto no caso de Romero, como no de Francisco ambos se afastam destes perfis. Antes de mais, são e sentem-se pastores e a sua espiritualidade transparece vida partilhada e percorrida entre as comunidades que serviram. São calcorreadores da fé e da vida no meio das pessoas sem se separarem delas. O próprio Romero resume esta semelhança com o seu sentimento: “Com este povo não custa ser bom pastor”. 

Esta é a opção clara por uma Igreja que se sente e vive como “Povo de Deus”. Esta tem de ser a grande conquista a esperar do Sínodo, que implica o passarmos a “caminhar juntos”. 

Outro fruto que desejaria que brotasse do Sínodo seria o de reconhecer a necessidade de a Igreja estar mais implicada com o mundo “em busca da verdade da realidade social”. Sem conhecer, com rigor, o que está a acontecer no Mundo, a Igreja corre o risco de responder a perguntas que já não se fazem ou a inquinar a sua missão. Como o Bom Samaritano que viu o fragilizado e aproximou-se dele, Romero passou a reconhecer:

Os pobres são quem nos diz o que é a pólis, a cidade, e o que significa para a Igreja viver realmente no mundo. Permitam-me que, a partir dos pobres do meu povo, a quem representa, explique a atuação da nossa Igreja no mundo em que vivemos. 

Que do Sínodo surjam indicações para que a Igreja seja a referência mais humanista a nível mundial, como Óscar Romero ansiou que dele surgisse um humanismo novo assente em quatro pilares: sólido apoio à causa dos direitos humanos; reconhecimento a todos os colaboradores desta causa; solidariedade, consolação e esperança para com todos os que sofrem o atropelo da sua liberdade e da sua dignidade; um eco da denúncia e da chamada à conversão.  É na intenção de demonstrar a viabilidade deste humanismo novo que Romero assume a sua missão pastoral. Assim, Evangelho e vida, vida e Evangelho dão as mãos com cordialidade e esta síntese de fé “historicizada” é especialmente compreendida pelo povo pobre. De facto, Romero declara:

não posso aceitar eu sozinho esta honra. Sinto que é de justiça partilhá-la em comunhão com toda a nossa Igreja particular. E também com quem, mesmo sem pertencer à Igreja, fez sua esta causa pela simpatia, apoio e colaboração.

Que do Sínodo surjam linhas mestras que balizem o exemplo dado pela Igreja no sentido da sua credibilidade em todas as suas ações, ritos e palavras com uma fidelidade ética. É com este modelo de Igreja que o arcebispo mártir se identifica ao afirmar:

Quero dar graças a Deus porque no meio de um mundo de mentiras, em que ninguém crê já em nada, ainda se crê na Igreja. Graças a Deus que se conserva o sentido da credibilidade, a capacidade de dialogar, porque sabem que a Igreja não engana. É dura, porque não sabe mentir.  

A todos os seres humanos é pedido o cuidado pela perseveração, respeito e conservação do mundo. Particularmente, os cristãos católicos estão convocados para este compromisso, desde várias recomendações da Sagrada Escritura, acentuadas e enquadradas nos tempos hodiernos com a publicação da magnífica carta encíclica do Papa Francisco, a Laudato Si’, extraordinariamente aceite por grande parte da população mundial. Todavia, 30 anos antes já Romero apelava a esta responsabilidade, ao escrever:

Vós sabeis que está contaminado o ar, as águas, tudo quando tocamos e vivemos; e, apesar de necessitarmos dessa natureza que vamos corrompendo cada vez mais, não nos damos conta de que há um compromisso com Deus: que essa natureza seja cuidada pelo homem. Abater uma árvore, desperdiçar água quando há tanta escassez de água, não ter cuidado com os escapes dos autocarros, envenenando o nosso ambiente com esses fundos pestilentos, não ter cuidado com os locais onde se queimam os lixos: tudo isso é parte da aliança com Deus. […] também por um sentido de religiosidade, procuremos que não continue a empobrecer-se e a morrer a nossa natureza. É compromisso de Deus que pede ao homem a colaboração.

Romero foi morto e ressuscitou no lugar de onde dimana a força do amor para que “fortalecidos com o Pão dos fortes”, se tenha a coragem de ir em defesa dos menos fortes. Foi morto no altar, no momento em que pronunciava as palavras da consagração. Essa graça de Deus, os seus algozes não tinham capacidade para a entender. Ele sabia que o seu modo de ser cristão, no limite, o levaria à morte. Por isso questionou:

Porque se mata? Mata-se porque se estorva. Para mim, porque são verdadeiros mártires no sentido popular. Não me estou obviamente a meter no sentido canónico, em que ser mártir supõe um processo da suprema autoridade da Igreja que o proclame mártir perante a Igreja Universal. Eu respeito essa lei e jamais direi que os nossos sacerdotes assassinados foram mártires ainda não canonizados. Porém, são mártires no sentido popular. São homens que pregaram precisamente esta incardinação da pobreza. São homens que verdadeiramente foram até aos limites do perigo, onde a UGB ameaça, onde se pode assassinar alguém e acabar por o matar, como mataram Cristo.”

Após longos anos de espera, o Papa Francisco canonizou-o no dia 14 de outubro de 2018, juntamente com outro “mártir”, apesar de com outra forma de martírio, que foi o grande Papa Paulo VI. Mesmo assim, foi tempo demais. Como está a ser o reconhecimento da santidade de D. Helder Câmara e como há-de ser a de D. Pedro Casaldáliga. Julgo que a maior dúvida nestas situações é a tensão que se gera entre motivações políticas e as de fé. No sentido verdadeiramente semântico da palavra política temos de a entender como um dever de cidadania e, muito mais quando esse cidadão é cristão. Já Pio XI o disse, e outros Papas o repetiram: a “política é a forma mais perfeita da caridade.” .

S. Romero vive e continua, noutra dimensão, a caminhar connosco na direção de uma Igreja mais Povo de Deus e anunciadora dos valores que podem transformar o Mundo. Que interceda junto de Deus-Libertador pelos bons frutos do Sínodo.

Eugénio Fonseca é presidente da Confederação Portuguesa do Voluntariado

 

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