Caminhar juntos, lado a lado, na mesma direcção

| 16 Set 21

“O nosso caminhar juntos é o que mais implementa e manifesta a natureza da Igreja como Povo de Deus peregrino e missionário”.

 

Vem aí o Sínodo, cuja assembleia geral será em outubro de 2023, já depois da Jornada Mundial da Juventude, a realizar em Lisboa, no verão anterior. O tema é desafiante: Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão. O documento preparatório veio a público a 7 de setembro e lança as bases de um caminho a percorrer juntos. Basta, apenas a título estatístico, notar que a palavra “sinodalidade” aparece 26 vezes, para concluir que a focagem no tema é evidente. Diz o texto que “o caminho da sinodalidade é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do Terceiro Milénio”, pois, “o nosso caminhar juntos é o que mais implementa e manifesta a natureza da Igreja como Povo de Deus peregrino e missionário”.

 

Objectivos…

A urgência vai para a escuta do Espírito que implica abertura às surpresas do caminho. Há muitos objectivos de evangelização a atingir: “fazer memória do modo como o Espírito orientou o caminho da Igreja ao longo da história e como hoje nos chama a ser, juntos, testemunhas do amor de Deus; viver um processo eclesial participativo e inclusivo; reconhecer e apreciar a riqueza e a variedade dos dons e dos carismas que o Espírito concede; experimentar formas participativas de exercer a responsabilidade no anúncio do Evangelho e no compromisso para construir um  mundo mais belo e mais habitável; examinar como são vividos na Igreja a responsabilidade e o poder, e as estruturas mediante as quais são geridos, destacando e procurando converter preconceitos e práticas distorcidas que não estão enraizadas no Evangelho; credenciar a comunidade cristã como sujeito credível e parceiro fiável em percursos de diálogo social, cura, reconciliação, inclusão e participação, reconstrução da democracia, promoção da fraternidade e da amizade social; regenerar as relações entre os membros das comunidades cristãs e entre estes e todos os outros crentes e organizações da sociedade civil; favorecer a valorização e a apropriação dos frutos das recentes experiências sinodais nos planos universal, regional, nacional e local.”

 

Tempo de escuta

Começa agora o tempo da escuta e consulta do Povo de Deus nas igrejas particulares, uma fase que irá até abril de 2022. Há que “investigar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho”.

O mundo vive ainda em choque com as consequências da pandemia que ajudou a perceber que ninguém se salva sozinho, mas também acentuou o fosso entre ricos e pobres e complicou ainda mais a fragilidade das condições de vida de muitos migrantes. É urgente a escuta do clamor dos pobres e da terra e podemos ser ajudados pelas encíclicas Laudato Si e Fratelli Tutti. Também há que olhar para as minorias perseguidas, em alguns países: “nalguns deles, os católicos, em conjunto com outros cristãos, experimentam formas de perseguição até muito violentas, e não raro o martírio.”

O clericalismo está muito presente na vida da Igreja e, por isso, há que o ultrapassar, pois “é impensável uma conversão do agir eclesial sem a participação ativa de todos os membros do Povo de Deus”.

Voltando ao tema, “a sinodalidade representa a via mestra para a Igreja, chamada a renovar-se sob a acção do Espírito Santo e graças à escuta da Palavra”. Por isso – lembra o documento – “uma Igreja capaz de comunhão e de fraternidade, de participação e de subsidiariedade, em fidelidade ao que anuncia, poderia colocar-se ao lado dos pobres e dos últimos, emprestando-lhes a própria voz”.

Já que estamos juntos, a caminho, na mesma direção, demos tempo ao tempo, façamos a digestão da primeira parte deste documento preparatório. Para a semana haverá mais caminho a percorrer. Somos Igreja em saída, estamos juntos, claro.

 

Companheiros na viagem sinodal
Grupo por do sol

“Comunhão, Participação, Missão” são as três palavras-chave para a caminhada sinodal que o Papa Francisco propôs à Igreja.” Foto © Tyler Nix / Unsplash

 

“Comunhão, Participação, Missão” são as três palavras-chave para a caminhada sinodal que o Papa Francisco propôs à Igreja. Temos de nos pôr à escuta do Espírito e arranjar calçado leve para caminharmos juntos, lado a lado, atentos às propostas de Deus.

A fidelidade ao Evangelho obriga-nos a seguir Cristo que, durante a sua missão, “aceitou como interlocutores todos aqueles que sobressaem da multidão”: atendeu a lamentação da mulher cananeia; abandonou-se ao diálogo com a samaritana, solicitou o ato livre e reconhecido do cego de nascença. Assim fica claro que, nos Evangelhos, há três atores: Jesus, os Apóstolos e a multidão. A estes três, junta-se, por vezes, o antagonista, ou seja, aquele que impede o caminho em comum, enganando tudo e todos: “para evitar os enganos deste ‘quarto ator’ é necessária uma conversão contínua”.

A visita de Pedro à casa de Cornélio (Atos dos Apóstolos, 10) mostra como “a acção apostólica cumpre a vontade de Deus, criando comunidade, derrubando barreiras e promovendo encontro”. O chamado Concílio de Jerusalém, que decidiu pela não obrigação de circuncisão, apresenta “um processo de discernimento que é uma escuta em comum do Espírito”.

Este documento preparatório do próximo Sínodo defende que “iluminado pela Palavra e fundamentado na Tradição, o caminho sinodal enraíza-se na vida concreta do Povo de Deus”. Exige-se, então, a resposta a uma questão fundamental que vai orientar a fase de consulta ao Povo de Deus: “Anunciando o Evangelho, uma Igreja sinodal ‘caminha em conjunto’: como é que este ‘caminhar juntos’ se realiza hoje na vossa Igreja particular? Que passos o Espírito nos convida a dar para crescermos no nosso ‘caminhar juntos’?”

 

Grandes temáticas

Há dez grandes temas a refletir e aprofundar:

  1. Quem são os companheiros desta viagem sinodal?
  2. Ouvir. Quem está na nossa Igreja particular em “dívida de escuta”? Como ouvimos o contexto social e cultural onde vivemos?
  3. Tomar a palavra. Todos estão convidados a falar com coragem, integrando liberdade, verdade e caridade, usando um estilo comunicativo livre e autêntico.
  4. Celebrar. Caminhar juntos só é possível se nos basearmos na escuta comunitária da Palavra e na celebração da Eucaristia.
  5. Corresponsáveis na missão. Somos todos discípulos missionários. Como é que cada comunidade apoia os seus membros comprometidos num serviço na sociedade (na responsabilidade social e política, na investigação científica e no ensino, na promoção da justiça social, na salvaguarda dos direitos humanos e no cuidado da casa comum, etc.)?
  6. Dialogar na Igreja e na sociedade. Quais são os lugares e as modalidades de diálogo no seio da nossa Igreja particular? Que experiências de diálogo e de compromisso partilhado promovemos com crentes de outras religiões e com quem não crê?
  7. Dialogar com as outras confissões cristãs. O diálogo ecuménico ocupa um lugar particular nesta caminhada sinodal. Que relacionamentos mantemos com os irmãos e as irmãs das outras confissões cristãs? A que âmbitos se referem? Que frutos colhemos deste caminhar juntos? Quais são as dificuldades?
  8. Autoridade e participação. Uma Igreja sinodal é participativa e responsável. Quais são as práticas de trabalho em grupo e de corresponsabilidade?
  9. Discernir e decidir. Num estilo sinodal, decide-se por discernimento, com base num consenso que dimana da obediência comum ao Espírito.
  10. Formar-se na sinodalidade. Que formação oferecemos para o discernimento e o exercício da autoridade?

 

Nesta fase de consulta, é muito importante que a voz dos pobres e dos excluídos seja escutada. O objectivo final não é produzir documentos, mas “fazer germinar sonhos, suscitar profecias e visões, fazer florescer a esperança, estimular confiança, tratar feridas, entrançar relações, ressuscitar uma aurora de esperança, aprender uns com os outros e criar um imaginário positivo que ilumine mentes, aqueça corações, restitua força às mãos”.

Vamos a isso, que se faz tarde!

 

Tony Neves é padre católico e trabalha em Roma como responsável do Departamento da Justiça e Paz dos Missionários do Espírito Santo (CSSp, Espiritanos), de cuja congregação é membro.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

“Caminhada pela Vida” contra regresso do aborto e da eutanásia

Neste sábado, em dez cidades

“Caminhada pela Vida” contra regresso do aborto e da eutanásia novidade

Uma “caminhada pela vida” em dez cidades portuguesas é a proposta da Federação Portuguesa pela Vida e da Plataforma Caminhadas pela Vida para este sábado, 22, à tarde, com o objectivo de contrariar o regresso do debate da eutanásia e os projectos de lei de alargamento de prazos no aborto apresentados entretanto no Parlamento pelas duas deputadas não inscritas.

Sínodo em demanda de mudanças

Sínodo em demanda de mudanças novidade

Falo-vos da reflexão feita pelo Papa Francisco, como bispo de Roma, no início do Sínodo, cuja primeira etapa agora começa, de outubro de 2021 a abril de 2022, respeitando às dioceses individuais. Devemos lembrar que o “tema da sinodalidade não é o capítulo de um tratado de eclesiologia, muito menos uma moda, um slogan ou novo termo a ser usado ou instrumentalizado nos nossos encontros. Não! A sinodalidade exprime a natureza da Igreja, a sua forma, o seu estilo, a sua missão”.

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This