Toda a Igreja Católica, e em particular a portuguesa, é chamada a “sintonizar-se” com a “atitude de esperança ativa e sinodal” que caracterizou o pontificado de Francisco e a dar continuidade ao percurso de “transformação renovadora” que o falecido Papa começou a trilhar, apelou o bispo José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), no discurso de abertura da assembleia plenária daquele organismo, a decorrer em Fátima desde esta segunda-feira, 28 de abril, e até quinta, 1 de maio.
“É grande e mobilizador o legado que o Papa Francisco nos deixa, como caminho iniciado que precisa de ser continuado, como ele mesmo repetia”, afirmou o presidente da CEP, assinalando que a assembleia plenária dos bispos portugueses se realiza “ainda em ambiente de luto pela partida do Papa Francisco para o Pai”, naquela que caracterizou como “uma ocasião de dor e de saudade, pela partida de um irmão e de um pai apreciado e querido, na Igreja e no mundo, pela sua palavra inspirada no Evangelho e pelos gestos carinhosos e corajosos, que marcaram os 12 anos do seu ministério”.
No seu discurso, o bispo de Leiria-Fátima deu especial destaque ao facto de, “já perto do final da sua vida terrena, e mesmo atravessando um período de doença”, o Papa Francisco ter aprovado o processo de acompanhamento e avaliação da fase de implementação do Sínodo sobre a Sinodalidade e convocado “uma inédita Assembleia Eclesial para outubro de 2028, dando sinais claros de um caminho que se desejava irreversível para a renovação eclesial”.
Entre os temas a abordar nesta assembleia plenária da CEP estarão – além da “implementação concreta do documento sinodal” em Portugal – o processo de proteção de menores e adultos vulneráveis na Igreja e a atribuição de compensações às vítimas que as solicitaram, a situação dos seminários, e a situação política e social do país, e os “desafios internacionais”, nomeadamente a guerra na Ucrânia, no Médio Oriente e noutros pontos do globo, “com as tensões económicas e geopolíticas que se fazem sentir”.
José Ornelas sublinhou ainda que, neste momento, todos os católicos são chamados a unir-se “em comunhão fraterna e orante, com os cardeais eleitores em Roma, pedindo que Deus dê à sua Igreja um novo sucessor de Pedro, que continue a ser expressão da presença do Espírito que a une, conduz e envia, como fermento e semente de transformação do mundo na fraternidade, na justiça e na Paz, para ‘todos, todos, todos'”.
E recordou que, precisamente em Fátima, onde decorre a assembleia plenária da CEP, “o Santo Padre nos lembrou que a Igreja deve ser como a Capelinha das Aparições, sem portas para poder estar disponível para acolher todos”.
Uma oração por (e para) Francisco
Mais tarde, na homilia da missa que celebrou na Basílica da Santíssima Trindade em “memória, ação de graças e sufrágio pelo Papa Francisco”, o bispo José Ornelas sublinhou que a “atitude de viver” do falecido pontífice “marcou a Igreja, incomodou mentes agarradas à comodidade do passado, acordou corações sedentos de maior autenticidade, justiça, fraternidade”.
Quando se completavam sete dias da morte do Papa, o presidente da CEP fez questão de recordar “duas visitas marcantes” que “delimitam e dão sentido ao seu percurso como sucessor de Pedro na orientação da vida e missão da Igreja: a visita inicial a Lampedusa, o porto de chegada dos migrantes sobreviventes da travessia do mar Mediterrâneo, e, poucos dias antes de morrer, a visita ao cárcere de Regina Coeli, que visitara várias vezes durante o seu ministério em Roma”.
“Desde o início do seu ministério, o Papa Francisco acolheu as periferias da humanidade e manifestou a necessidade de uma Igreja em saída, como ‘hospital de campanha’, ao encontro dos mais pobres, dos doentes, dos presos, dos migrantes e demais marginalizados da sociedade. Propôs também à Igreja um caminho de misericórdia, acolhimento e acompanhamento de todos, porque são amados por Deus independentemente da sua condição, num permanente chamamento à conversão do coração”, assinalou José Ornelas.
O impulso que deu ao diálogo ecuménico e inter-religioso e a importância que atribuiu ao cuidado com a Casa Comum, ao papel das mulheres na Igreja , e ao combate aos abusos sexuais contra crianças e adultos vulneráveis, bem como aos abusos de poder e consciência foram outros dos “temas da agenda do Papa Francisco” destacados pelo bispo português, os quais – considera – “continuarão a desafiar a Igreja”.
E terminou, em jeito de oração:
Caro irmão-amigo e Papa Francisco,
Obrigado pelo teu percurso de vida que nos deixas,
tão rico, inspirador e desafiador,
a começar pela “Alegria do Evangelho”, que pregaste e testemunhaste.
Obrigado pela tua palavra e gestos de Igreja renovada e missionária
junto dos mais pobres e desfavorecidos.
Respondeste à derradeira chamada de Jesus na manhã do dia a seguir à ressurreição,
quando os apóstolos e demais discípulos começavam a imitar o Senhor
de modo novo a partir da Sua morte e ressurreição.
Também tu foste um homem novo a partir da Páscoa do Senhor.
De junto do Bom Pastor, continua a orar por esta Igreja que busca caminhos mais evangélicos e missionários.
Intercede diante do Senhor pelos teus irmãos cardeais que estão a escolher quem vai continuar a missão que desempenhaste de modo tão transparente de Evangelho.
Que Maria, a Mãe da Igreja, à sombra de cuja basílica em Roma quiseste que o teu corpo repousasse, ajude a Igreja a ser sempre Mãe carinhosa, que leve Cristo a este mundo.










