Caminho Sinodal alemão propõe mais poder para todos

| 11 Fev 21

Análise

Caminho Sinodal, Sínodo, Alemanha, , Georg Bätzing, Thomas Sternberg

Georg Bätzing, bispo de Limburgo e actual presidente da Conferência Episcopal, e Thomas Sternberg, presidente do Comité Central dos Católicos Alemães, na sessão da semana passada. Foto: Der Sinodale Weg.

 

A assembleia do Caminho Sinodal (que teve lugar por vídeo-conferência a 4 e 5 deste mês) terminou, mas a discussão dos seus temas continua, nas mais diferentes comunidades e instâncias, assim na opinião pública alemã. Os documentos de trabalho que nela foram apresentados pelos diferentes grupos de trabalho (“forum”) são demasiado extensos para se resumirem em curtas notícias. Não houve ainda decisões, uma vez que não foi possível a participação presencial, mas foram colocados nas mãos dos delegados sinodais documentos fundamentais com teses e posições a ser sujeitas a votação.

O Caminho Sinodal, a ver pelos documentos já apresentados, constitui, sem dúvida, a maior reflexão pastoral da Igreja alemã no seu conjunto depois do Sínodo das Dioceses Alemãs, também conhecido pelo nome de “Sínodo de Würzburg” (1971-1975).

O primeiro texto a ser apresentado e que, em si, dá a impressão de concluído, foi o relativo ao poder e participação na Igreja: “Poder e separação de poderes na Igreja. Participação comum e colaboração na missão da Igreja”. Desenvolve-se ao longo de 42 páginas uma vasta proposta de reformas eclesiais a partir da reflexão do modo como o poder é assumido, reconhecido e exercido na Igreja.

O senso comum do Povo de Deus (expressão do Concílio Vaticano II no nº 8 da Constituição Lumen Gentium) “exige maior corresponsabilidade, mais cooperação e direitos de participação”, diz o texto. “Se a Igreja pretende ter autoridade espiritual e moral para dentro e para fora dela, então tem que ser criticamente revista e eventualmente re-ordenada a imagem do poder e do seu uso. É mesmo um poder ao serviço do anúncio do Evangelho e das pessoas? E quando o poder se autonomiza? Onde é que o poder apoia ou impede experiências da força criadora de Deus, que é sem limites?”

No documento, colocam-se questões impertinentes ao status quo da Igreja actual, no que diz respeito ao tema do poder: “Criou-se uma eclesiologia, uma espiritualidade da obediência e uma prática do ministério, que liga unilateralmente o poder à ordenação e o declara sacrossanto. Um poder assim sente-se protegido de toda a crítica, isento de controlo e colocado acima da necessidade de ser compartilhado.”

 

Um diagnóstico, uma tripla crise
Caminho Sinodal. Sínodo, Alemanha. Cruz

A Cruz do Caminho Sinodal na sessão de abertura, na catedral de Frankfurt, em 30 de Janeiro 2020: há uma crise de fé, de confiança e do sistema que a Igreja deve afrontar. Foto: Der Sinodale Weg.

 

O texto faz uma longa análise da situação actual, começando pelo diagnóstico de uma tripla crise: a plausibilidade da fé cristã nas sociedades modernas (o facto de ela ser cada vez mais uma proposta entre outras e de modo nenhum considerada “indispensável”) – crise da fé; a perda da confiança e de credibilidade da Igreja junto das pessoas, agravada de forma dramática pelos escândalos de abuso sexualizado do poder por parte de responsáveis de Igreja, que têm vindo a público nos últimos tempos – crise de confiança; o facto de estarmos perante uma crise que é institucional, estrutural e não apenas uma soma de falhas individuais – crise do sistema.

No meio da crise, é importante que, com este Caminho Sinodal, a Igreja dê de si mesma e passe à sociedade a imagem de uma comunidade que aceita as críticas, está pronta a reformar-se, a “aprender” e a mostrar que entendeu e quer responder aos desafios que a crise coloca. O actual Caminho Sinodal não é outra coisa senão uma afirmação: “Nós já entendemos! Queremos que esta Igreja seja de novo um lugar em que as pessoas encontrem a sua relação com Jesus Cristo.”

Nas propostas concretas de mudança, o documento defende a necessidade de aplicar a sério o actual Direito Canónico, que, no fundo, atribui muito mais valor à participação na Igreja e permite muito mais do que na prática se verifica. O poder na Igreja, a todos os níveis e em todos os campos (litúrgico, diaconal, institucional, caritativo) já agora pode e deve ser partilhado e delegado, a partir já do estatuto fundamental que o baptismo e o crisma conferem a todos os seus membros. Mas, onde o actual Direito Canónico não é explícito, exige-se que se trabalhe para a sua alteração, no sentido de mais partilha do poder, maior participação de todos nas decisões daquilo a que todos diz respeito, maior controlo do poder. A Igreja deve abrir-se sem medo a princípios democráticos fundamentais, isto é, tem de tornar-se realmente uma Igreja sinodal.

Nesta perspectiva da partilha do poder, fala-se também na necessidade de repor na agenda dos trabalhos questões como a ordenação de homens casados (os viri probati) ou o acesso das mulheres aos ministérios ordenados, em si temas específicos de outros grupos de trabalho. “A vocação pessoal dos fiéis deve em Igreja ser descoberta e apoiada.”

Assim, a partir da questão do poder na Igreja, o documento faz uma leitura da situação actual e aponta caminhos de renovação e de futuro a todos os níveis da Igreja e em todos os sectores da pastoral. A longa lista de propostas concretas ou uma ou outra mais ousada, pode assustar alguns mas a larga maioria dos delegados sinodais já compreendeu que há muito por andar neste processo sinodal (previsto para durar dois anos) e depois dele…

 

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