Caminho Sinodal católico na Alemanha: avançar por águas profundas

| 1 Fev 20

Sessão final da primeira assembleia do Caminho Sinodal da Igreja Católica na Alemanha. Foto: Direitos reservados

 

Na sala, 230 participantes: bispos, delegados das dioceses, dos movimentos e comunidades religiosas. Além disso, 18 observadores de 11 países estrangeiros. Via internet, a participação de muitos milhares de católicas e católicos, a acompanhar os debates com possibilidade de enviar também o seu depoimento.

Depois da sessão de abertura, com tomadas de posição sobre a importância deste Caminho Sinodal, e de um exaustivo debate sobre o regulamento interno da assembleia, a tarde de sexta, 31 de Janeiro, e o dia de sábado, 1 de Fevereiro, foram dedicados aos quatro blocos temáticos. Os grupos de trabalho – designados “forum” – apresentaram à aprovação da assembleia os métodos de trabalho e os parâmetros temáticos em que se propõem reflectir até à próxima assembleia sinodal, em Setembro próximo.

Um dos moderadores formulou o objectivo desta primeira fase numa fórmula que poderia ser um denominador comum a todos: mais que encontrar respostas, trata-se de identificar e formular as questões que a Igreja Católica, na Alemanha, tem de trabalhar e aprofundar para poder levar o Evangelho às pessoas numa sociedade secularizada e para recuperar a sua credibilidade. E concluía que, no fundo, as questões que serão tratadas “já cá estavam”, antes mesmo da publicação do relatório sobre os abusos sexuais. São questões que todos os baptizados e crismados têm de enfrentar. São questões que, no fundo, concernem não só a Igreja na Alemanha, mas a Igreja universal no seu conjunto.

 

“Na Igreja, ninguém tem o poder todo”

O grupo de trabalho sobre “poder e participação na Igreja” propõe-se reflectir e pôr em causa “a estética, a retórica e a pragmática do poder na Igreja”. A “estética do poder” que se mostra por exemplo na liturgia; a “retórica do poder” que se demonstra no uso da palavra, na pregação e catequese; a “pragmática do poder” que se reflecte na organização e nas estruturas da Igreja.

“Ninguém na Igreja tem o poder todo e todos os fiéis são sujeitos de direitos e deveres; assumem responsabilidades em conjunto; corrigem-se uns aos outros”, lê-se no instrumentum laboris deste forum.

 

Celibato? Perguntas, não respostas!

É a este nível das questões fundamentais que também os outros grupos se propõem reflectir nesta primeira fase do caminho sinodal: procurar identificar as perguntas sem se apressar a encontrar respostas.

“Que significa ser Igreja hoje, numa sociedade cada vez mais secularizada, em que nós cristãos somos já uma minoria? Que significa ser Igreja em conjunto? Que significa ser baptizado? Que queremos dizer quando falamos da Igreja como povo sacerdotal?” – interrogam os participantes de outro fórum dedicado às formas de vida do padre e, concretamente, ao celibato. “Será que o celibato é a unica forma de vida compatível com a vocação sacerdotal?” Ou será que está a acontecer aquilo que um delegado sinodal testemunhava de um amigo seu que dizia: eu queria ser padre, e tive de aceitar o celibato?

 

Uma “Igreja de mulheres” sem mulheres nos ministérios?

Um outro fórum propõe-se tratar o tema do acesso das mulheres aos ministérios. Um tema bem mais polémico e difícil que os dois anteriores. Para isso propõe-se revisitar e fazer a recepção de grandes estudos bíblicos e teológicos já feitos, mas nunca levados a sério. Propõe-se consultar outras tradições, como por exemplo a da Igreja oriental, no que diz respeito ao diaconato da mulher.

Dorothea Sattler, professora de Direito Canónico, propunha que já seria bom se na Igreja actual se esgotassem as possibibilidades “permitidas” pelo Código de Direito Canónico no acesso das mulheres a lugares de direcção e de responsbilidade na Igreja. Mas não se pode deixar de lado questões como a do acesso da mulher a todos os ministérios ordenados.

 

Sexualidade e moral sexual: a vala separa a doutrina e a vida

No que diz respeito à questão da sexualidade e moral sexual da Igreja, os participantes propõem-se reflectir formas de superar a dicotomia existente entre a moral sexual da Igreja e a vida relacional dos seus fiéis. Também neste ponto a dimensão dos abusos sexuais no seio da Igreja é, para muitos, um sinal de que “a moral sexual da Igreja tem de ser posta na balança, questionada e reformulada”. Mas não faltam também, entre os delegados, posições a favor da actual moral sexual. “A Igreja tem de continuar a defender a dignidade da sexualidade humana”, numa sociedade que a banaliza. A Igreja não teria de mudar a sua posição doutrinal, mas apelar à conversão.

Esta primeira assembleia sinodal, realizada em Frankfurt, tendo de recorrer por falta de espaços apropriados às salas da Igreja Evangélica, veio mostrar a seriedade, a abertura e a radicalidade com que a Igreja alemã se propõe trabalhar estes temas nos próximos dois anos. Interrogado sobre a pretensão e a qualidade das resoluções a tomar no final deste processo, Thomas Sternberg, presidente do Comité Central dos Leigos alemães que, em conjunto com o cardeal Marx, é presidente da assembleia sinodal, respondia que haverá resoluções que serão para aplicar na Igreja na Alemanha, de diocese para diocese, sob a jurisdição de cada um dos bispos; haverá decisões que terão mais o carácter de propostas a enviar ao Papa, porque dizem respeito à Igreja universal; e haverá resoluções que nem o Papa quererá realizar sozinho mas terá de encaminhar para um novo concílio.

No início desta aventura sinodal, a Igreja alemã dá de si a imagem corajosa de um barco que quer avançar por águas profundas.

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