“Em virtude do Batismo, homens e mulheres gozam de igual dignidade no Povo de Deus. No entanto, as mulheres continuam a encontrar obstáculos na obtenção de um reconhecimento mais pleno dos seus carismas, da sua vocação e do seu lugar nos diversos âmbitos da vida da Igreja, em prejuízo do serviço à missão comum” (Documento final da Segunda Sessão da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, n.º 60).
Enquanto mulheres, oriundas de diferentes partes do mundo, participámos ativamente no processo sinodal, inclusive nos contextos em que era explícita a discordância do bispo local ou do pároco. Bispos e párocos eram aqueles que deveriam ter iniciado os grupos sinodais nas dioceses e paróquias mas, por várias razões, não o fizeram em todo o lado.
Ouvi histórias de mulheres que se reuniram às escondidas ou em casas particulares para poder enviar o seu contributo à Secretaria do Sínodo; algumas tornaram-se “facilitadoras” de círculos informais, para que todas pudessem tomar a palavra e fazer ouvir a sua voz enquanto mulheres. Algumas destas sentiram-se ouvidas pela primeira vez.
Estamos satisfeitas com os frutos deste caminho sinodal? De forma provocatória, escrevo “não” no título. Respondo assim, ciente, no entanto, de que não é uma perceção partilhada por todas. Nós, mulheres, não somos uma categoria especial, como frequentemente nos fizeram sentir na nossa Igreja; tal como não somos um bloco único que deseja as mesmas reformas eclesiais e partilha os mesmos desejos.
Há temas que, para algumas, são importantes e urgentes, como o acesso aos ministérios ordenados, e para outras não representam prioridades ou são contrários à sua própria visão de Igreja.
Provavelmente, represento uma minoria de mulheres que almeja uma participação eclesial plena e não condicionada pelo sexo, desejando as mesmas oportunidades para mulheres, homens e outros géneros no acesso aos lugares de decisão. A possibilidade de aceder ao diaconato, presbiterado e episcopado não deve significar uma obrigação para todas as mulheres: é uma oportunidade que se abre para quem sente amadurecer em si este chamamento (vocação) que pode colocar ao serviço de toda a comunidade com as suas nuances, particularidades e diferenças. Creio que, nunca como agora, as sociedades e as Igrejas precisam de um olhar complexo e articulado que apenas a multiplicidade de dons e talentos pode garantir. A diversidade de géneros insere-se nesta diferença geradora.
Espaços públicos para as mulheres na Igreja

“Quando não nos sentimos filhas de pleno direito da comunidade eclesial, pode acontecer que se opte por deixar a Igreja e viver a fé de modo pessoal.” Foto © Ricardo Perna
Algumas sociedades souberam superar as barreiras de género nos âmbitos cultural, social, político e económico. Porque teme a Igreja reconhecer que, também no seu seio, as mulheres podem ocupar posições de decisão e de governo?
Porque continuamos a justificar e a dar tempo e espaço à reserva masculina face a esta reforma que uma parte das mulheres deseja? Nestes anos, apercebemo-nos de que há muitos homens, leigos e ordenados, que se definem como feministas. Por isso, creio firmemente que “mulheres e Igreja” é uma questão eclesial e não apenas feminina. A inclusão das mulheres e das pessoas que vivem situações “particulares” é um desafio que diz respeito a todos e a todas. De uma Igreja aberta e acolhedora podemos beneficiar todos e todas, inclusive quem usufrui de privilégios dentro de um sistema declinado no masculino.
Quando não nos sentimos filhas de pleno direito da comunidade eclesial, pode acontecer que se opte por deixar a Igreja e viver a fé de modo pessoal. Podemo-nos sentir vulneráveis sem uma comunidade de referência e um caminho de fé partilhado. Vivo isto em primeira mão.
No caminho sinodal, por várias vezes, formal e informalmente, sentimo-nos balouçadas entre um passo em frente e dois atrás: uma frase de abertura do bispo de turno e uma declaração do Papa que fechava todas as possibilidades de diálogo. Os tempos não estão maduros para o diaconato: não estão maduros para quem? Que medos escondem estas resistências? Quem e o que temos de esperar? O consenso de todos e de todas? Se os tempos não estão maduros, quer dizer que apenas precisamos de criar condições para um diálogo aberto e franco; ou então, a ordenação é um tema que a Igreja não tem autoridade para mudar? E se não tem essa autoridade, porque se reconhece a autoridade para manter uma estrutura que não responde aos sinais dos tempos? Para que serve esta cegueira?
A questão masculina

“Quando o poder está na posse de um homem, lembram-nos que é serviço; quando o reclama uma mulher, dizem-nos que não devemos clericalizar os papéis.” © Foto © WOC
Na linguagem dos documentos sinodais das diversas fases, sente-se o eco de uma visão das mulheres, e hoje também das comunidades Lgbtqia+, como uma questão/categoria à parte. Será o tempo oportuno (Kairós) para nomear, em vez disso, uma questão masculina? Podemos afirmar que existe uma questão masculina na Igreja católica?
Estas perguntas dizem que Igreja queremos ser e representar: uma Igreja fundada em medos, fechamentos, distinções morais? Ou uma Igreja que celebra todos, filhos e filhas, que acolhe e ajuda a nutrir uma relação com o mistério?
A questão masculina existe pelo menos por duas razões.
A primeira: no sistema patriarcal, também os homens podem viver desconforto, solidão e sobrecarga de responsabilidades; sentido de inadequação perante os desafios e dificuldades em integrar a sua afetividade dentro de um sistema que faz das emoções e da sexualidade um tabu. Também na Igreja se esperam dos homens performances e respostas ligadas, de forma preconceituosa, ao seu género. Um sistema patriarcal é excludente e injusto: isto gera em quem se sente excluído/a sentimentos de raiva, de revanche ou de rigidez e polarizações.
A segunda razão é que os homens falam das mulheres, mas nunca de si mesmos. Como vivem a sua própria masculinidade dentro deste contexto patriarcal? Como vivem a posição de poder? Como integram o privilégio dentro de uma visão evangélica?
Desejo que, como nós mulheres frequentemente fazemos, também os homens aprendam a partilhar os seus medos, fragilidades e dificuldades: isto abriria caminho a uma maior empatia para com quem sofre o poder e o privilégio.
Quando o poder está na posse de um homem, lembram-nos que é serviço; quando o reclama uma mulher, dizem-nos que não devemos clericalizar os papéis. Não compreendo a conexão lógica entre os dois temas: quem tem poder é forçosamente clerical? O que entendemos por poder? Desclericalizemos a Igreja e abramos os espaços de decisão também às mulheres: talvez os dois movimentos se possam reforçar mutuamente.
Igreja desmasculinizada? Talvez

“Nas assembleias sobre a sinodalidade, o número de mulheres aumentou e foi também reconhecido o direito de voto.” Foto © Vatican Media
Reconhecemos os passos dados pelo Papa Francisco: foi um crescendo de novidades e aberturas. Refiro-me aos sínodos sobre a Família e sobre os Jovens, que contaram com a participação de mulheres e homens leigos, ainda que sem direito a voto. Nas assembleias sobre a sinodalidade, o número de mulheres aumentou e foi também reconhecido o direito de voto. Além disso, a abertura dos leitorados e acolitatos e a nomeação de muitas mulheres, leigas e consagradas, em lugares-chave do governo da Cúria romana.
Mas… é isto que queremos? Umas “migalhas”, sem que se ponha em causa o processo e a autoridade para chegar a estas mudanças? Não queremos exceções e favores, mas uma reforma que torne estes passos normais e não decisões voluntaristas de quem tem o poder. Porque esta é uma forma ainda mais patriarcal de gerir a Igreja, que não se baseia no direito mas na concessão: o poder permanece nas mãos de poucos, ou de um só (o Papa), e tudo depende da sua disposição pessoal. Pedimos uma reforma que inclua um percurso transparente de nomeações, acesso das mulheres aos ministérios e revisão do Direito Canónico.
Rumo ao futuro
Muitas de nós não esperavam nada do caminho sinodal: cínicas? Talvez. Quem tinha expetativas ficou desiludida. Agora, enquanto mulheres feministas, interrogamo-nos: que passos é necessário dar para não perder o que construímos? Que estratégia para amadurecer os tempos e desmascarar reservas e medos? Como continuar a desconstruir o patriarcado, o sexismo e o abuso de poder?
Nós, feministas, precisamos de deixar para trás algumas resistências preconceituosas entre quem defende o feminismo interseccional e quem se sente mais ligada ao feminismo da diferença: é necessário trabalhar em rede, sem eludir as diversidades, numa dinâmica de escuta e respeito pelas histórias, biografias e narrativas de cada uma.
Francamente, não sei até que ponto Leão XIV será sensível a estas exigências, e até que ponto será justo esperar que ele dê passos. A mudança não virá de quem vive o privilégio que deriva do status quo: o impulso pode vir de quem, no alto e em baixo, sente a inquietude por algo que falta, que não está completo. No banquete, tal como está, não estamos todos e todas.
Este artigo foi originalmente publicado na revista Adista e é republicado pelo 7MARGENS com a devida autorização.
Patrizia Morgante é presidente da associação Donne per la Chiesa (Mulheres pela Igreja). Especialista em comunicação e formação. Escreve em diversas revistas sobre vida religiosa feminina, espiritualidade, questões de género e metodologia sinodal.










