Caminho sinodal e o instinto de autopreservação

| 29 Dez 2021

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“Como ser sinodal, como estar em comunhão com todos, como permitir a todos que participem, como enviar cada batizado à sua missão. Isso, sim, é o nosso propósito por ora.” Foto: Direitos reservados.

 

A Igreja Católica foi convocada a um caminho sinodal com o mote: “Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”. Este Sínodo contará com a participação das comunidades locais e é precisamente esse um dos seus pontos de ordem. Não se trata apenas de uma reunião da assembleia do Sínodo dos Bispos; ele partirá, primeiro, de uma reflexão das comunidades cristãs locais. Com as conclusões dessa reflexão, a assembleia do Sínodo dos Bispos vai reunir-se no Vaticano em 2023.

No que respeita a este Sínodo, muito se tem frisado a sua vocação participativa de escuta e caminho conjunto. Aliás, se dissecarmos o mote do Sínodo, encontramos o seu propósito – tornar a Igreja verdadeiramente sinodal – e as três vias para o alcançar. Ajuda, aqui, atentar à origem da palavra sínodo: etimologicamente significa “caminhar em conjunto”. Poderíamos, assim, traduzir o mote do Sínodo do seguinte modo: Para que a Igreja seja a casa daqueles que caminham em conjunto, é preciso que todos se sintam em comunhão, na partilha do mesmo e único propósito: viver como Cristo. É precisa a participação de todos, cada um com os seus carismas, a sua história e sensibilidade. Por fim, é preciso que a missão da construção do Reino de Deus seja assumida por todos como compromisso, cada um no concreto da sua vida no mundo.

Durante o seu pontificado, o Papa Francisco tem vindo a preparar o terreno da Igreja para este aggiornamento, dando assim continuidade ao caminho do Concílio Vaticano II. Neste ponto, a Igreja irá sempre encontrar um importante repto: responder aos desafios do mundo actual, mantendo-se fiel à sua essência. Sem se tornar obsoleta e desligada do mundo, mas ciente de que a exigência e a fidelidade são a sua marca distintiva, por muitas críticas e opositores que isso lhe possa criar.

Vai-se assistindo a várias segmentações no seio da Igreja, entre os ditos progressistas e os ditos conservadores. Uns e outros construindo os seus núcleos e opondo-se aos demais. Um Sínodo sobre a sinodalidade da Igreja tem, por paradoxal que pareça, desertado os instintos impositivos de ambos os lados. Um e outro lado, reivindicando ser detentor da verdade e único mensageiro da voz de Deus. Assim, ao invés de ir ao encontro uns dos outros, reconhecendo que em todos Deus se faz presente, cada qual se fecha no próprio núcleo e tenta que a sua voz seja a dominante.

Um princípio fundamental pelo qual nos temos de guiar neste caminho é o de que “o Espírito Santo sopra onde quer”. Assim sendo, não pode haver lugar a segmentações e clubismos; todos os seguidores de Cristo têm voz. Não pode haver cristãos de primeira e segunda. Isso é uma total contradição. Não podemos ter a presunção e desonestidade intelectual de querer preservar os interesses do nosso pequeno grupo. Este caminho tem de ser de comunhão.

O caminho sinodal também não pode ser uma ocasião para implodir e andar ao sabor dos nossos estados de alma mais imediatos, centrando o debate nos temas ditos fraturantes da Igreja. Todos esses temas têm lugar nesta conversa. Contudo, não podem ser encarados como fins em si mesmos.

O papel das mulheres, o celibato dos padres, os abusos sexuais, a inclusão dos homossexuais, a comunhão dos recasados, a gestão do património da Igreja, são temas que têm de ser seriamente pensados. Mas de forma inteira, indo às origens das questões. Não como problemas a resolver por decreto e com respostas simplistas de sim e não. Sobretudo, não as transformemos num terreno de a favor ou contra. Se o fizermos, outros e novas problemáticas vão acabar por se levantar. Temos de olhar de frente e enfrentar esses desafios. E, não tenhamos dúvidas, há muito caminho a fazer em qualquer das temáticas acima enunciadas e em muitas outras. Mas não tenhamos o impulso redutor de restringir o diálogo aos temas fraturantes. Nenhum deles pode ser visto como meta, antes como consequência de um determinado modo de ser Igreja. Sobre isso, sim, temos de pensar. Como ser sinodal, como estar em comunhão com todos, como permitir a todos que participem, como enviar cada batizado à sua missão. Isso, sim, é o nosso propósito por ora.

O que neste momento a Igreja está a viver é um tempo privilegiado da história, que pode marcar e definir o seu caminho para o futuro. Não o desperdicemos. Partamos para este caminho desarmados e confiantes.

 

Sofia Távora é jurista e voluntária no Serviço de Assistência Espiritual e Religiosa do Hospital Dona Estefânia.

 

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