
Bispos alemães na visita ad limina a Roma, em novembro de 2022. Foto © Deutsche Bischofskonferenz/Daniela Elpers.
Quando a Conferência Episcopal da Alemanha (CEA) se preparava para iniciar esta segunda-feira, 19, em Augsburgo, uma reunião decisiva para começar a concretizar o “Caminho sinodal”, decidido há cerca de um ano, três organismos do Vaticano mandaram travar o processo. A presidente do Comité Central dos Católicos alemães (ZdK), em comunicado, expressou irritação e manifestou confiança em que o caminho iniciado prosseguirá.
Ainda que a ordem de trabalhos da assembleia plenária da primavera da CEA não tivesse sido divulgada, aguardava-se que nela fossem aprovados os estatutos do Comité Sinodal que, ao longo dos próximos dois anos, iria preparar o lançamento de um Conselho Sinodal, órgão com poderes de direção da Igreja Católica alemã, composto de representantes de bispos, padres, religiosos e leigos.
Apesar das advertências de vários departamentos do Vaticano e do próprio Papa, a porta nunca foi fechada e o processo foi avançando. A dois dias do início da concretização do aprovado no Caminho Sinodal, o presidente dos bispos alemães, Georg Bätzing, recebeu uma carta urgente assinada pelo secretário de Estado do Vaticano e pelos prefeitos dos dicastérios para a Doutrina da Fé e para os Bispos, respetivamente cardeais Parolin, Fernandez e Prevost. A carta traz ainda o ‘selo’ da concordância de Francisco.
O que diz a missiva? Em resumo, em termos suaves mas que não deixam dúvidas, diz que o diálogo entre o Vaticano e os bispos alemães sobre esta matéria, que se iniciou no outono passado e que ficou previsto continuar, ainda não ocorreu, pelo que não é oportuno avançar com a criação do Comité Sinodal sem finalizar esse diálogo. A conclusão lógica é suspender o processo e retirar o assunto da agenda da reunião.
Quais os fundamentos invocados pelo Vaticano? Em primeiro lugar, que tal órgão não está previsto no Código de Direito Canónico, pelo que uma eventual decisão dos bispos se tornaria automaticamente inválida. Por outro lado, segundo o Vaticano, a Igreja na Alemanha não está autorizada a estabelecer um órgão de governo conjunto de membros leigos e clérigos, o que lhe terá sido repetido várias vezes por instâncias do governo central da Igreja, incluindo o Papa. Assim sendo, avançar seria desobedecer a indicações expressas recebidas e abrir caminho para uma via de confrontação.
Fechando as várias portas eventualmente utilizáveis, a carta de Roma afirma: “O projeto de estatutos também estipula que ‘a Conferência Episcopal Alemã e o Comité Central dos Católicos Alemães (ZdK) assumem a responsabilidade pelo comité sinodal’ (art. 1). Uma vez que a CEA não pode atuar como entidade legal no domínio secular, o máximo que poderia fazer era assumir o patrocínio do Comité Sinodal através da Associação das Dioceses Alemãs (VDD, na sigla em alemão). No entanto, a necessária decisão unânime sobre o Comité Sinodal não foi alcançada no seio da VDD”.
A carta recebida este sábado acena com a perspetiva de rutura, caso se viesse a aprovar agora o Estatuto do Comité Sinodal, antes da reunião entre as partes que, no entanto, não se encontra ainda marcada: nesse caso, colocar-se-ia “a questão do objetivo desta reunião e, de um modo mais geral, do processo de diálogo em curso”.
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Georg Bätzing e Irme Stetter-Karp. Foto © Synodaler Weg Maximilian von Lachner
Comentando a situação, a presidente do Comité Central dos Católicos Alemães (ZdK), Irme Stetter-Karp, que – recorde-se – foi co-presidente do Caminho Sinodal juntamente com o presidente dos bispos, escreveu em comunicado, este domingo: “Roma pediu à Conferência Episcopal Alemã por correio expresso, por assim dizer, que não votasse os estatutos do Comité Sinodal na sua assembleia plenária da primavera e que esperasse primeiro pelas conversações em Roma. O ponto da ordem de trabalhos foi cancelado desde ontem à noite. Isto significa um novo atraso nas reformas urgentemente necessárias na Igreja”, disse Stetter-Karp.
Recordando os passos já dados, a líder católica fez notar que a resolução da Assembleia Sinodal sobre esta matéria, no outono de 2022, recebeu a necessária maioria de dois terços dos bispos que participavam na Assembleia; os estatutos do Comité Sinodal “foram adotados por unanimidade” na reunião constitutiva desse Comité, em Essen, em novembro de 2023; a ZdK confirmou aqueles estatutos na sua reunião plenária no final de novembro. O único passo que falta dar para que o Comité Sinodal avance na preparação de um Conselho Sinodal para a Igreja Católica na Alemanha é a ratificação pela Conferência Episcopal Alemã.
“O ZdK espera que o Comité Sinodal esteja totalmente operacional na sua próxima reunião, em junho”, disse Stetter-Karp, que lembra ainda que “o ZdK foi unanimemente solicitado pelos bispos alemães em 2019 para se juntar a eles no caminho sinodal”.
“Esperamos que Roma não prejudique a boa cooperação entre os bispos alemães e a representação dos leigos, mas que a valorize e a reconheça como um recurso. A Igreja Católica na Alemanha não terá uma segunda oportunidade se interromper agora o caminho sinodal”, avisou Stetter-Karp.
Por sua vez, o vice-presidente do ZdK, Thomas Söding, que foi um dos participantes na Assembleia do Sínodo em Roma, em outubro passado, lamentou ser uma “contradição quando Roma promove e exige processos sinodais, mas depois coloca um sinal de paragem”. “Parto do princípio de que os bispos alemães vão manter de forma fiável as suas próprias decisões (…). Nas conversações com Roma, os bispos alemães terão de sublinhar a urgência de prosseguir o trabalho”, adiantou.










