
Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, em Port Gentil, com o autor do texto ao centro. Foto: Direitos reservados.
Os Missionários Espiritanos chegaram ao Gabão há 180 anos. São os pais desta Igreja local, hoje maioritária e com créditos reconhecidos. Visitei três das áreas ‘quentes’ onde trabalham missionários desta Congregação: Port Gentil, Franceville e a capital Libreville, sobretudo nos bairros mais periféricos.
Port Gentil dos petróleos
Port Gentil, cidade à beira-mar plantada, é a capital económica do Gabão. A razão é simples: nasceu e cresceu à sombra dos poços de petróleo que constituem uma das grandes riquezas do país. É uma cidade pequena, mas cheia de vibração típica das terras onde chegam e donde partem muitas pessoas, por razões laborais e comerciais.
Quando ali aterrei era noite, mas notei o ambiente tenso no aeroporto e no bar onde jantei. O tema era a explosão e incêndio numa plataforma petrolífera, onde morreram várias pessoas. Nem tudo são rosas nestas explorações e, de vez em quando, estes acidentes mostram que a segurança dos trabalhadores nem sempre é cuidada.

Centro de Reinserção dos Espiritanos em Port Gentil, para acolher crianças e jovens de rua. Foto © Tony Neves.
Em Port Gentil, os Espiritanos chegaram há muitos anos. Fundaram todas as paróquias, incluindo a que hoje é catedral. Mantêm-se em duas delas, a de S. Paulo e a do Sagrado Coração de Jesus, onde participam milhares de pessoas. Mas, nas periferias da cidade, os Espiritanos dirigem e tentam fortalecer o Centro Esperança e Missão de Inserção (CIME), instituição que acolhe e acompanha crianças e jovens de rua, ou recolhidos de famílias com grandes dificuldades. Encontrei lá uma vintena, coordenados pelo jovem padre gabonês Juvenal Biyeghe (director) e pelo ancião P. Guy Boulbin, francês, em Port Gentil há 35 anos. Ali percebi como um país tão rico pode ter franjas da população tão excluídas. Lá vivi um Domingo de Ramos muito festivo, com pessoas dos bairros vizinhos a juntar-se à festa destes jovens, garantindo uma celebração muito viva e participada.
Magnésio e madeiras preciosas

Em plena zona de floresta tropical, todos os dias há derrubes de árvores enormes, sobretudo com o objetivo de exportar. Foto © Tony Neves.
Mvengue é o nome do aeroporto que serve toda a província do Alto Ogooué, com sede em Franceville. Os Espiritanos ali estão há muitas décadas, tendo fundado todas as paróquias e missões da actual Diocese. Por isso, impunha-se visitar a cidade, a catedral e o paço episcopal. Pelo caminho, impressiona ver comboios e camiões com magnésio, pois ali se encontram grandes jazidas deste minério, que faz do Gabão o segundo maior produtor do mundo. Uma centena de quilómetros à frente, na velha estrada para Libreville, aparece a cidade de Moanda, que cresceu muito com as minas e se prepara para desalojar centenas de pessoas, pois pretende-se fazer exploração a céu aberto, após descobertas de novas jazidas deste minério muito procurado. Pena é que as pessoas contem pouco, quando se trata de extrair riquezas… Lá também, os Espiritanos vivem e caminham com estas pobres populações…
Continuando caminho, chega-se a Lastoursville, cidade conhecida pela exploração de madeiras preciosas. Em plena zona de floresta tropical, todos os dias há derrubes de árvores enormes, sobretudo com o objetivo de exportar. Embora as autoridades locais garantam que as empresas estão controladas e que a floresta está protegida, é muito difícil convencer disso as populações locais, como me contaram os Padres Espiritanos que ali vivem.
Em tempos políticos conturbados, fomos surpreendidos em Lastourville pelo anúncio da visita oficial de Paulette Missango, atual Presidente do Senado, nesta era de Transição. Já há muito que não via um aparato de segurança tão grande, a mostrar como ali são considerados de risco os tempos que correm…
Paixão em Nkembo

Via Sacra em Nkembo (Libreville): cinco horas de celebração, na rua e na igreja, a rezar e cantar em muitas línguas. Foto © Tony Neves
A Sexta-feira Santa tem grandes tradições celebrativas em todo o mundo cristão e o Gabão não é excepção. Fui até ao Bairro Nkembo, nas periferias de Libreville, para a celebração da Paixão e Morte de Cristo, presidida pelo padre Paul Tounou, espiritano, pároco de S. Michel. Uma multidão enorme encheu as ruas deste grande bairro para a Via-Sacra ao vivo. Foram mais de duas horas de oração, encenações e cânticos a evocar este momento maior da vida de Jesus. O calor era insuportável e voltei a transformar o meu corpo numa contínua nascente de água. Na véspera, a temperatura desceu bastante, após uma tempestade que levou pelo ar muitos tectos de casas e inundou a cidade e os seus bairros, como evocou o presidente da celebração, logo no início. As encenações foram protagonizadas pelos jovens da paróquia, com um realismo que impressionava: as chicotadas no Cristo eram a valer e o vibrante choro na hora da morte fazia recordar os óbitos africanos!
A última parte desta Via-Sacra aconteceu dentro do pátio do Hospital de Nkembo, após a representação, muito impressionante, da crucifixão e Morte de Cristo, ali à porta do hospital e da igreja.
Seguiu-se a Celebração da Paixão e Morte de Cristo, já dentro da enorme igreja de S. Miguel, com mais de um milhar de pessoas presentes. A igreja lembra as construções das missões dos jesuítas na América Latina, feita de madeira e com pilares enormes, todos esculpidos com cenas da vida de Cristo. Na grande oração universal, foi lida uma prece especial, distribuída pelo arcebispo de Libreville na missa crismal, para rezar pelo sucesso do fórum do Diálogo Nacional Inclusivo, momento que quer ajudar a construir um Gabão melhor, após mais de 50 anos de governo da família Bongo.
Foram cinco horas de celebração, na rua e na igreja, a rezar e cantar em muitas línguas, tal a riqueza da diversidade dos povos que vivem e trabalham em Libreville. E impressiona ouvir começar todas as intervenções (do arcebispo, dos padres, dos leigos…) por um slogan: La paix du Christ! a que todos respondem em coro gritante: ‘Amen!’.
Tempos difíceis de esperança

Aeroporto de Mvengue: a foto do Presidente, general Oligui Nguema, está em todo o lado. Foto © Tony Neves
O general Oligui Nguema, da Guarda Republicana, é o Presidente da Transição, após o golpe de estado de 30 de Agosto de 2023. Ele tem investido numa imagem de bom governante, valorizando o serviço às populações, apostando em programas simples como refazer estradas, alcatroar bairros ou recolher diariamente o lixo na capital. O abandono a que as populações foram votadas durante a era Bongo é hoje um dado reconhecido por todos, excepto pela elite que ele enriqueceu.
A Igreja Católica apoiou o golpe e reza, diariamente, pelo sucesso do Diálogo Nacional Inclusivo, iniciado dia 3 de Abril, em Brazzaville. Quando na Missa Crismal, na terça-feira santa, o animador da celebração disse que o arcebispo Jean Patrick Iba-Ba era o presidente deste Fórum, a catedral quase vinha abaixo com a enorme ovação da multidão que ali participava na eucaristia.
O Gabão tem muito pouca população (dois milhões) e uma riqueza enorme ainda por explorar: petróleo, madeiras, magnésio, urânio… Como me dizia um político local, “só falta mesmo ter governantes à altura, para enriquecer o povo e não apenas uma família ou uma elite de gente envolvida nos grandes negócios”. Muitas pessoas me mostraram estar confiantes nos tempos que aí vêm e contam muito com a sabedoria e a força da Igreja Católica, que é maioritária neste país da África Central.
Tony Neves é padre católico e trabalha em Roma como assistente geral dos Missionários do Espírito Santo (CSSp, Espiritanos), congregação de que é membro.










