Sínodo católico alemão

Caminhos para a Igreja, respostas para a Alemanha

| 2 Out 21

Segunda Assembleia Sinodal do Caminho Sinodal em Frankfurt (1 de outubro de 2021). Foto © Synodaler Weg/Maximilian von Lachner

 

“Buscamos caminhos para a Igreja nos tempos de hoje e procuramos respostas aos desafios concretos no nosso país” – estas palavras da proposta de preâmbulo dos documentos sinodais resumem bem o horizonte e os parâmetros com que os responsáveis do Caminho Sinodal da Igreja Católica na Alemanha querem conduzir este processo. Os temas tratados dizem respeito a toda a Igreja, as respostas aos desafios concretos são para aplicar em primeiro na Igreja na Alemanha (na linha do Sínodo das dioceses alemãs de 1973). Nas entrelinhas dos documentos como nas intervenções durante os debates, é claro o interesse e a preocupação de reafirmar e assegurar o diálogo com Roma, sobretudo nas questões que dizem respeito à Igreja universal, ao contrário da mensagem que os sectores mais conservadores tentam passar quando acusam este processo da Igreja na Alemanha de se abeirar de situações cismáticas.

O preâmbulo foi um dos 13 textos que os mais de 200 participantes presentes – pela primeira vez depois do confinamento exigido pela pandemia – debateram e votaram nestes três dias de assembleia plenária, realizada em Frankfurt. Desta vez, não num espaço “eclesiástico” mas num dos pavilhões da feira internacional. A obrigatória distância física entre os participantes assim o exigia.

Votada foi a primeira redacção dos documentos fundamentais de três dos quatro grupos de trabalho (“forum”): poder e participação na Igreja; participação da mulher nos serviços e ministérios; moral sexual. Ficou ainda por votar o documento sobre o celibato e a vida dos padres. A assembleia avaliou um documento apresentado sobre este tema, de carácter pastoral, mas pediu ao respectivo grupo de trabalho a elaboração de uma reflexão fundamental e de uma análise da situação concreta da vida dos padres, antes de avançar com resoluções a nível concreto e pastoral.

Além dos três documentos fundamentais foram votados o preâmbulo e as orientações teológicas de base e uma séria de directivas concretas para aplicação dos princípios contidos nesses documentos fundamentais. Alguns exemplos: um texto com propostas concretas para a participação do povo de Deus na escolha dos seus bispos; um outro com a proposta de criação de conselhos sinodais diocesanos e paroquiais, eleitos pelos católicos da diocese, para aconselhar, acompanhar e colaborar com o bispo diocesano ou com o pároco na direcção da diocese ou da paróquia; ainda um sobre a abertura da possibilidade de os leigos com formação teológica poderem assumir a homilia nas celebrações dominicais da eucaristia; uma directiva sobre a necessidade de apoiar as mulheres que fazem doutoramentos e pretendem trabalhar como professoras nas faculdades de teologia, no sentido de ultrapassar as “desvantagens” criadas pela vida familiar. Finalmente, uma outra directiva votada propõe que se faça uso de todas as possibilidades que o actual Direito Canónico já dá no sentido de confiar aos leigos a direcção das comunidades, até que se abram na Igreja as portas de acesso aos ministérios para homens casados e para as mulheres…

Foram três dias intensos de trabalho, com a votação não só dos textos no seu conjunto, mas de inúmeras propostas de alteração no pormenor, remetidas aos grupos de trabalho para serem reapreciadas e lidas de novo na próxima assembleia plenária. As imúmeras votações puseram a descoberto a existência de uma considerável maioria de cerca de 75% dos participantes em sintonia com as linhas de fundo dos documentos sinodais e de uma minoria de uns 25-30 participantes (num conjunto de 240) claramente contra.

Essa minoria encontra na pessoa do bispo de Ratisbona, Rudolf Vorderholzer, o seu protagonista e porta-voz, e nela se inclui, entre outros, o arcebispo de Colónia, cardeal Rainer Maria Cardeal Woelki. Rudolf Vorderholzer publicou um texto alternativo ao documento mais discutido, e certamente o mais polémico e abrangente de todos os que estavam em discussão, o texto sobre o poder na Igreja. Numa das votações, a assembleia rejeitou essa alternativa por esmagadora maioria.

Cada participante tinha ao seu dispor uma aparelhagem técnica sofisticada: um pequeno aparelho electrónico para as votações e um microfone para poder intervir. Sendo votações anónimas, não é possível para já saber a posição dos bispos nas diferentes votações. Na votação final dos documentos vão com certeza realizar-se votações separadas, uma vez que os estatutos da assembleia exigem que um documento tem que receber uma maioria a favor de dois terços dos votos dos bispos para poder ser aprovado.

A assembleia abriu na quinta feira com uma sessão emocionalmente carregada, com uma longa lista de participantes a manifestar o seu descontentamento perante a decisão do Papa de não aceitar os pedidos de demissão do cardeal Woelki (Colónia) e do arcebispo Stefan Hess (Hamburgo), cujo papel em casos de ocultação de abusos sexuais tem sido objecto de polémica. A maior crítica veio, naturalmente, dos porta-vozes das vítimas de abuso sexual, que também estão a participar no caminho sinodal.

Apesar de alguns reparos à organização, como sejam a sobrecarga da ordem de trabalhos e o excesso de votações e de requerimentos, com um tempo muito limitado para tomadas de posição (1 minuto por intervenção!), a mesa da presidência, na conferência de imprensa no encerramento dos trabalhos, manifestou a sua satisfação com o decorrer desta sessão.

“Queremos uma Igreja que encontre o caminho das pessoas, e não uma Igreja que lhes queira impor caminhos. Queremos ser uma Igreja sinodal, com o Papa à frente, em que todos sejam ouvidos e possam participar activamente na procura do futuro. Não confiamos em receitas simples para a nossa Igreja, mas queremos construir um futuro aberto à surpresa e à novidade. E para isso confiamos na palavra de Jesus: que o Espírito de Deus nos há guiar para a verdade total (João 16,13)”. Estas palavras do “preâmbulo” bem podiam ser a conclusão da assembleia plenária: a confiança continua a animar a caminhada da maioria dos participantes, na procura de sendas novas e de consenso, apesar das resistências e mal-entendidos.

 

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Esta é a Igreja que eu amo!

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Fui um dos que, convictamente e pelo amor que tenho à Igreja Católica, subscrevi a carta que 276 católicas e católicos dirigiram ao episcopado português para que, em consonância e decididamente, tomassem “a iniciativa de organizar uma investigação independente sobre os crimes de abuso sexual na Igreja”.

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