“Canta Aleluia ao Senhor”, um canto cristão na resistência de Hong Kong

| 6 Jul 19 | Estado, Política e Religiões, Liberdade religiosa, Sociedade - homepage, Últimas

 

As manifestações que, desde 9 de Junho, se realizam em Hong Kong, em protesto contra a governadora Carrie Lam, considerada próximo do regime de Pequim, e o projecto de uma lei de extradição, têm sido marcadas por um canto cristão: Sing Hallelujah to the Lord, em português Canta Aleluia ao Senhor.  

Para este domingo, 7 de Julho, há novas manifestações previstas e de novo, o mesmo cântico religioso será entoado.Há uma razão para que as multidões se sentem na rua ou marchem cantando este refrão, muitas vezes na presença da polícia.

No La Vie, Henrik Lindell, explicou que, em primeiro lugar, elas são de ordem pragmática: encontros de oração, mesmo que espontâneos, são legais no território independente do sudeste da China, e não constam da definição de reuniões que o Governo poderia ser tentado a proibir.

As forças de segurança reprimiram inicialmente os manifestantes que gritavam palavras de ordem políticas, alegando que estariam a conter “motins”. No momento em que as pessoas cantam um canto religioso, em forma de oração, já não há esse argumento. Além disso, os vídeos das manifestações mostrados pelas televisões ou disponíveis na Internet atraem cada vez mais jornalistas de todo o mundo, exercendo uma pressão adicional sobre o Governo.

 

Mas a escolha de uma música cristã também está ligada à identificação do cristianismo com valores positivos, como a liberdade de expressão. A reivindicação de fundo dos manifestantes é preservar o Estado de direito e o estatuto semi-autónomo da ex-colônia britânica, que regressou à soberania da China em 1997. Muitos dos manifestantes são cristãos (10% dos habitantes de Hogn Kong declaram-se como tal) e, conta a mesma reportagem, estão preocupados com a reaproximação à China.

As igrejas cristãs de Hong Kong, incluindo a diocese católica local, têm-se envolvido nos protestos. O cardeal Joseph Zen, conhecido pelas suas posições críticas para com o regime chinês, também já apelou a que todos se juntem ao movimento, tal como muitas igrejas evangélicas. O pastor da Igreja Baptista, Chu Yiu-ming, que já participara num movimento pelo direito de voto em 2017, é um dos líderes religiosos conhecidos que se manifestam diariamente.

O hino usado ilustra também uma forma de globalização do cristianismo. Em Hong Kong, vários grupos de estudantes católicos foram os primeiros a cantá-lo. Mas Canta Aleluia ao Senhor, que é cantado em eucaristias católicas e celebrações e cultos protestantes em todo o mundo, tem origens protestantes, nos Estados Unidos.

Trata-se de um canto de louvor, próprio do tempo da Páscoa, que evoca, pela sua melodia sóbria e um texto que se sustenta numa só frase, o estilo litúrgico de Taizé. O cântico foi escrito em 1974 por Linda Stassen, que integrava os Jesus People, um movimento hippie evangélico.  Inspirada pela liturgia dos primeiros cristãos, ela teria encontrado a melodia no duche, explicou ela.

Inicialmente popularizada nos círculos evangélicos, a canção foi traduzida para outros idiomas nos anos 1980, na altura em que também começa a ser adoptada em paróquias e liturgias católicas. Em França, é registada pela primeira vez, em 1986, nos cadernos da Juventude em Missãouma organização missionária evangélica. No campo católico, a Comunidade Emanuel é a primeira a incorporá-la aos seus livros de canto, antes de se tornar uma música popular. Hoje, é o hino da resistência em Hong Kong, o que se torna um destino diferente para um canto nascido na Califórnia, no contexto de um grupo pentecostal de zelosos convertidos.

 

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