Cantamos à mesa

| 9 Abr 2024

A pedra está poisada sobre si mesma
No tempo da indigência não pedirás outra abundância
Nenhum outro verso ou casa
Nenhuma outra firmeza

A semente rebenta ao peso da terra
A voz das cigarras ao peso do calor
Uma pedra pesa sobre a pedra
As mãos unidas não têm força assim
No caule a folha não tem esse equilíbrio

E tu baloiças pelos olhos dentro
Inundando de paisagens a ceguez

Daniel Faria in Poesia (2023)

Sábado da oitava da Páscoa

Manifestação antifascista

“No dia 8 de abril comemorou-se o Dia Internacional das Pessoas Ciganas, e essas sim, marcaram presença.” Foto: Manifestação 6 de abril 2024, Porto. © STOP

 

«Enquanto os membros do 1143 faziam saudações nazi e gritavam “Salazar, Salazar”, os contramanifestantes gritaram frases sobre o 25 de Abril. Além dos antifascistas, pessoas que passavam pelo local, um dos mais movimentados da cidade, juntaram-se ao coro. Cidadãos do Porto que acompanharam os atos afirmaram ao DN que “há muitos anos” não viam nada semelhante na Invicta.» DN, 6 de abril de 2024

Estes cidadãos que acompanharam os atos talvez tenham sido apanhados de surpresa, uma manifestação neonazi no centro da cidade não está, felizmente, no cardápio costumeiro de um sábado à tarde. Eram poucos. Felizmente.

Estes números reduzidos só se mantêm se houver uma resposta concreta da restante sociedade, marcando presença. Desta vez, a resposta bastante enérgica veio dos movimentos sociais que, por norma, se mobilizam perante este tipo de situações. “Contra o fascismo, mais e melhor habitação” foi o mote de uma contramanifestação que reuniu um milhar de pessoas, de modo a enchermos as ruas ao redor do Jardim de S. Lázaro num longo e sonoro desfile.

Mas falta o resto. Não quero acreditar que, para a restante sociedade, seja aceitável ter saudações nazis como cartão de visita. Vão chamar a isto liberdade de expressão?

Em fevereiro, o 7 Margens publicou um artigo de opinião de Helena Araújo, Como lutar contra a extrema-direita, que pode dar uma ajudinha aos mais alheados.

“(…) E esta é uma tarefa para toda a sociedade, e não apenas para os partidos: sempre que haja essa oportunidade, deixar bem claro que o apoio às posições dos populistas de extrema-direita é algo considerado recriminável pela sociedade.

(…) Por estes dias, penso com enorme admiração nos manifestantes dos Estados onde a extrema-direita está prestes a chegar ao poder. Coragem civil é isto: pessoas de cidades pequenas, onde se acaba por saber onde mora cada um, que vão para a rua participar em manifestações contra a extrema-direita, apesar de andarem por ali bandos de neonazis a rondar.”

Este sábado, os versos da “Grândola Vila Morena” voltaram a ser cantados por muitos que, em abril de 1974, estavam longe de nascer. Há uns quantos que se engasgam com as estrofes. Precisamos de mais prática e de mais vozes.

Já agora, no dia 8 de abril comemorou-se o Dia Internacional das Pessoas Ciganas, e essas sim, marcaram presença.

 

 Domingo II da Páscoa

Frenesim. Grupo Teatro Porto

Frenesim “Não se canta à mesa”. Foto do Instagram do grupo.

“Não se canta à mesa”, Frenesim + Ana Madureira e Vahan Kerovpyan

«Um concerto cantado à mesa, para grandes auditórios ou pequenos lugares, onde tudo e nada cabe (…) Não se canta à mesa, que é falta de educação… E declamar poesia, ou cantar de boca fechada? E se a mesa não tiver comida, ou estiver de pernas para o ar? E se quem inventou isto, estava a pensar de barriga vazia?»

De barriga vazia nunca se pensa bem, nem se consegue apreciar aquilo que se nos apresenta diante dos olhos.

O meu acompanhante pequeno começou a pedir tostas à segunda canção.

“Duas!!”
Uma para ele, outra para a avó.
À mesa come-se, pois, e o pão (ou a tosta) sabe melhor em movimento partilhado.
“Estou a ser torturada”, disse a avó.
Também não pode ser assim, atirar com o pão goela abaixo, as avós merecem o seu espaço de decisão. O problema é que se rendem facilmente aos encantos dos netos.
O comensal levou consigo uma maraca, para ir acompanhando o ritmo dos músicos.
Foi-se pondo confortável.
Saltaram meias, sapatilhas.
De pés descalços, de colo em colo (de barriga cheia…) foi-se aguentando às canções.

mesas de pedra
mesas de cartão
mesas no chão
mesas postas aqui
mesas vazias ali
mesas abandonadas em Gaza, na Ucrânia, e no Sudão
Juntava-se às salvas de palmas com alegria.
Gosta da mesa e gosta de festa.

Se mais motivos não houvesse, e ei-los ao desbarato, o futuro deste menino é razão de peso para ter saído à rua no sábado.

 

Sara Leão é mediadora educativa e formadora de Português Língua Estrangeira.

 

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Modos de envelhecer (19)

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