Contributos para o Sínodo (25)

Capelania da Univ. Coimbra: Promover o encontro entre ciência e espiritualidade, entre crentes e não-crentes

| 1 Jul 2022

Organizar iniciativas de diálogo com não-crentes e crentes de outras religiões, abrindo a Igreja à sociedade e fazendo dela um motor do progresso social e da comunhão humana; assumir a dimensão da Sinodalidade como verdadeira abertura ao século XXI; e promover o encontro entre a ciência e a espiritualidade, sempre possível, cria pontes da Igreja com as instituições de Ensino Superior – estas são algumas das propostas da comunidade da Capelania da Universidade de Coimbra, em resposta à maior auscultação alguma vez feita à escala planetária, lançada pelo Papa Francisco, para preparar a assembleia do Sínodo dos Bispos de 2023. Esse coro imenso de vozes não pode ser silenciado, reduzido, esquecido, maltratado. O Espírito sopra onde quer e os contributos dos grupos que se formaram para ouvir o que o Espírito lhes quis dizer são o fruto maduro da sinodalidade. O 7MARGENS publica alguns desses contributos que nos têm sido enviados, estando aberto a considerar a publicação de outros mais.

 

“A síntese deve ser fiel às vozes do povo e a tudo o que emergiu do seu discernimento e diálogo, mais do que uma série de afirmações generalizadas ou doutrinalmente corretas.”
Vademecum
 do Sínodo, apêndice D

 

Capela da Univ Coimbra. Foto © Sayuri Goda.

Capela da Universidade de Coimbra: “A evolução da Igreja tem que ser mais rápida para ultrapassar a exclusão.” Foto © Sayuri Goda

 

1.
OS COMPANHEIROS DE VIAGEM

1.1. Sendo companheiros de viagem, como é que o “caminhar em conjunto” está a acontecer hoje na nossa Igreja local?

Não obstante a evolução lenta, a Igreja ainda exclui os divorciados, recasados, unidos de facto, LGBTQ, as mulheres. A hierarquia conservadora, por vezes julgadora, impede que todos sejamos parte da Igreja. A Capelania e o IUJP acolhem todos.

CD [as siglas estão decifradas no final do texto] Caminham na vida com Jesus, mas longe de outros cristãos. Quem precisa e sofre fica, muitas vezes, por acolher. Há generosidade, mas também hierarquias sociais e interesses privados transpostos para dentro da Igreja. A Igreja não vive sempre os valores que professa: trabalha, em simultâneo, para a libertação dos desfavorecidos e a manutenção dos instalados. Na família, é difícil caminhar com os filhos nos valores cristãos.

CT – No ES não é visível a Igreja, os cristãos e a religião; só pequenos grupos. O ES não caminha com a Igreja (pior com a pandemia), que é olhada com desconsideração em setores do ES.

Relação com a Igreja alterna afastamento com aproximação, esta favorecida por Francisco. Um participante referiu que «quem assume posições sobre a sua religiosidade poderá ser sujeito a represálias no seu ambiente laboral».

 

1.2. A propósito deste tema, que passos é que o Espírito nos convida a dar para crescermos no nosso “caminhar juntos”?

Capela – Deus convida-nos e legitima-nos a remexer nas estruturas, o que tem sido a atitude do IUJP. Promover maior integração dos estudantes, CD e CT na Capelania, assistir todos, criar maior ligação à Diocese. Um estudante muçulmano defendeu que a Capela deve abrir-se a todas as religiões.

CT e CD A evolução da Igreja tem que ser mais rápida para ultrapassar a exclusão. Fomentar a responsabilidade e os bons atos próprios de cada crente. Dar a conhecer os grupos da Igreja. Gerar espaços de convívio, conhecimento e apoio. Identificar instituições católicas, como o IUJP, onde a caminhada em conjunto aconteça e reproduzir noutras instituições.

CT – A Igreja deve «ser exemplo de vida baseado no amor, mas também um questionamento das injustiças, dentro das próprias IES, na denúncia e na proposta de correção». Solidariedade material, escolar e religiosa, missões humanitárias, caminhadas e eventos solidários. Redes sociais da comunidade, com linguagem simples, apelativa aos jovens. Trazer a sociedade para a igreja, ex. através de música e arte.

 

  1. OUVIR

2.1. Chamados a ouvir, como é que o “caminhar em conjunto” está a acontecer hoje na nossa Igreja local?

Somos ouvidos e acolhidos pelo Capelão, mas é uma excepção. Os menos ouvidos: divorciados, homossexuais, mulheres, pessoas com doença mental, os que sofrem, pessoas de outras religiões. A Igreja parece ser permeável a alguns interesses, na seleção das pessoas que escuta. Há uma dívida de existência para com as minorias: tendo poder para fazer toda a diferença, recorre-se à auscultação dos já constituídos grupos, por vezes marcados pelo proselitismo.

CT e CD As pessoas não se sentem escutadas com aceitação incondicional. Escasseiam interlocutores na Igreja, sentido de comunhão de vivências. Há dificuldade em ouvir, que não pode ser dissociada do individualismo no mundo académico. A escuta é reduzida à confissão, muitas vezes centrada na culpa. A sociedade atual tem dificuldade em aceitar o pecado.

CT – Os cristãos não se sentem escutados pela hierarquia da Igreja, é difícil fazerem-se ouvir. Alguns entendem o ambiente científico como uma barreira à religião.

 

2.2. A propósito deste tema, que passos é que o Espírito nos convida a dar para crescermos no nosso “caminhar juntos”?

Capela – «A Igreja é chamada a ouvir o grito de tristeza e desespero do seu povo, sem discriminação». Deve converter-se ao Evangelho e aderir à DUDH. Há um monopólio da verdade, um clericalismo e formalismo que devem ser ultrapassados para que a Igreja não esteja desfasada da realidade. Tem de ser respeitada a liberdade de expressão e de pensamento na reflexão teológica.

CD – Uma docente afirmou: «a igreja católica é uma religião que nos dá muitos graus de liberdade». Valorizar este processo sinodal, sem ficar limitado e pontual, e promover práticas constantes de escuta construtiva que reconheçam valor a uma diferença que não põe em causa a comunhão.

CT – Ouvir sem julgamentos colocando-nos no lugar do outro. O Capelão e o IUJP poderão fazer maior aproximação aos colaboradores da UC, passando pelos serviços e propondo algumas atividades mostrando presença e disponibilidade para a escuta e partilha. Abrir espaço para conversas sobre a Igreja, esbatendo preconceitos. Promover a paz e a entreajuda.

 

  1. TOMAR A PALAVRA

3.1. Na nossa comunicação, como é que o “caminhar em conjunto” está a acontecer hoje na Igreja local?

Capela – Um elemento partilhou que a Santa Igreja é uma Instituição hierárquica que possui Tradição, Magistério e Sagrada Escritura e logo não precisa de adaptações.

CD – Existem poucos espaços de comunicação entre cristãos. Há canais relevantes, como diversas publicações, mas para quem não está num movimento católico a caminhada pode tornar-se muito solitária. Não somos convidados a ir ao encontro do outro e a não nos limitarmos ao nosso círculo cómodo de relações fechadas.

CT – As pessoas procuram novas formas de comunicação. A comunicação na Igreja não é representativa de todos os grupos, principalmente dos não católicos. Mas na nossa comunidade também há uma casa aberta (IUJP), onde se pode ter um conselheiro, e bons grupos que fazem boa comunicação com a comunidade académica.

As pessoas receiam falar e serem julgadas, pois os estereótipos impedem a expressão livre. O preço a pagar – bullying, calúnias, processos disciplinares – pela liberdade de dizer e praticar aquilo em que se acredita não é suportável por todos.

 

3.2. A propósito deste tema, que passos é que o Espírito nos convida a dar para crescermos no nosso “caminhar juntos”?

Capela e CT – Formar em Psicologia os Padres e Catequistas para melhor adequação aos tempos. Mudar a linguagem da Igreja, estar presente nas redes sociais, onde o clero e os leigos possam estar acessíveis, para apoiar os mais necessitados. Tornar a linguagem mais acessível e não demasiado teológica.

A abordagem da sexualidade não deve ser tabu e deve ter em conta a investigação científica.

Um elemento partilhou que o que falta mudar é colocar em prática amar a Deus e ao próximo e a nossa falta de busca pelo Evangelho e pelos documentos papais, e não a mudança dos mesmos.

CD – Gerar espaços e oportunidades de comunicação franca nas comunidades da Igreja.

CT – É imprescindível que a Igreja encontre novas formas de comunicação com todos. Dar a conhecer a Igreja, a sua missão e como está a ser levada às pessoas. Tornar claro para jovens que iniciam o seu percurso na UC que é possível unir vida académica e fé. Manifestar solidariedade com os mais desfavorecidos. Expor as nossas convicções de forma assertiva, respeitando os ideais, opiniões e crenças dos outros.

 

  1. CELEBRAR
Capela da Univ Coimbra. Foto © Sayuri Goda

Celebração na Capela da Universidade: “Abandonar a Igreja não significa não ter sede de espiritualidade.” Foto © Sayuri Goda

 

4.1. Na oração e na celebração, como é que o “caminhar em conjunto” está a acontecer hoje na nossa Igreja local? 

Capela – Abandonar a Igreja não significa não ter sede de espiritualidade. Há rituais que não se compreendem, não alimentam e não atraem os jovens. Na Igreja a linguagem verbal e os gestos não correspondem, muitas vezes, à cultura atual. A comunhão não deve ser disciplina ou prémio, mas alimento e graça. A celebração não é um acontecimento social, mas crescimento individual e partilha. Há falta de tempo.

Uma minoria, na UC, tenta banir o culto da Capela de S. Miguel.

CD – Ter fé é uma bênção e a vida é um dom — os sacramentos têm de ser transformadores e criadores. As celebrações são, por vezes, amorfas, frias e rotineiras. É preciso humanizar as celebrações. As pessoas sentem que não constituem uma comunidade nos meios urbanos, sentindo-se abandonadas. Não somos solidariedade ativa e contínua. Restam impulsos, ativados em grande parte pelos media.

CT – A celebração nas IES é desconhecida. As homilias não chegam aos corações porque não são assertivas, claras e promotoras do pensamento crítico em relação a nós e às nossas ações. A música na Capela ajuda a viver a espiritualidade.

 

4.2. A propósito deste tema, que passos é que o Espírito nos convida a dar para crescermos no nosso “caminhar juntos”?

Capela – É necessário integrar as pessoas nas celebrações, de uma forma mais esclarecida e consciente. As igrejas devem ser mais acolhedoras. As eucaristias do IUJP/Capela pautam-se por eloquentes homilias, porém é necessário o esforço, quer do celebrante, quer dos fiéis para transpor as palavras e os ensinamentos para a sua realidade. Para isso, os fiéis precisam participar ativamente nas celebrações.

CD – Renovar no seio das comunidades católicas a importância dos sacramentos, em especial a Eucaristia, como expressão e fortificação da fé, revendo práticas excludentes, que lhe retiram o valor de comunhão misericordiosa com Cristo. As pessoas devem sentir que “participam” na missa. Celebrar a fé pode acontecer de múltiplas formas.

CT – Celebrar pressupõe uma Igreja aberta, livre e caritativa, onde todos podem participar, com consciência da não perfeição, porém com a determinação da mudança de vida. A tecnologia pode ser uma boa ferramenta para levar à escuta e à oração. Reforçar a participação da UC nas celebrações da Capela.

 

  1. CORRESPONSÁVEIS NA MISSÃO

5.1. Porque todos somos missionários, como é que o “caminhar em conjunto” está a acontecer hoje na nossa Igreja local?

Capela – Todos somos chamados a ser testemunhas de Cristo no mundo. Isso faz-nos participar na missão da Igreja e em grupos de oração e formação. A justiça na Igreja não se pode limitar à caridade, mas deve criticar as estruturas económicas geradoras de injustiça.

CD – O Sermão da Montanha deve ser um guia. O desafio é demonstrar que os valores da mensagem cristã continuam atuais e opor-se à sua subversão. O bem feito na Igreja, não é notícia; o mal é. A mancha dos crimes sexuais poderá atrair pessoas com perturbação desse foro. Ambientes profissionais muito laicizados. Não ordenação de mulheres e celibato são incompreendidos e insustentáveis.

CT – Os protagonistas na Igreja são os sacerdotes e os leigos mais ativos. Sobressai uma elite, preterindo os mais pobres. As mulheres são discriminadas. Duas classes: clero e “povo”. A Igreja poderia apoiar as causas em que os jovens acreditam e assim caminhar com eles. Conjugar pertença eclesial na UC e na paróquia não é fácil. Alguns católicos que têm voz tornam impenetrável o círculo de participantes.

 

5.2. A propósito deste tema, que passos é que o Espírito nos convida a dar para crescermos no nosso “caminhar juntos”?

Capela – Sentirmos a missão de Cristo como nossa e vivê-la na nossa vida. Acabar o celibato obrigatório dos sacerdotes e permitir a ordenação das mulheres. Deixar de discriminar os homossexuais, ofendendo a sua dignidade humana ao considerá-los pessoas “intrinsecamente desordenadas”. Rever a Encíclica Humanae Vitae.

CD – Dar mais atenção pastoral ao ser cristão nos locais de trabalho e no exercício profissional, numa dinâmica real de aliança.

CT – Promover a participação. Deus convida-nos a sermos mais ativos na missão da Igreja. «A Igreja pode e deve estar no ES». O Corpo Técnico das IES é um dos grupos menos ouvidos e envolvidos: a Capelania tem muito de dar-se a conhecer, assim como à comunidade académica em geral. Apesar de não ser aceite por alguns, pode ser muito reconhecida e apreciada por muitos. A visita do Senhor Bispo à UC foi um bom exemplo.

Infelizmente estamos a atravessar uma fase em que a ajuda humanitária é fundamental. Devemos estar atentos, pois também junto de nós essa ajuda é essencial.

 

  1. DIALOGAR NA IGREJA E NA SOCIEDADE
equipa sinodo espanha, foto conferencia episcopal espanhola

“A Igreja fechou-se nos seus costumes limitando o diálogo aos mais praticantes, o que leva à divisão e fragmentação mesmo dentro da Igreja.” Foto: Conferência Episcopal Espanhola.

 

6.1. Na construção do diálogo, como é que o “caminhar em conjunto” está a acontecer hoje na nossa Igreja local?

A Capelania integra a APECER da UC que dinamiza cursos sobre religiões e atividades de intercâmbio cultural.

Capela – Muitos jovens abandonam a Igreja porque a veem desligada da vida das pessoas, incapaz de ler os sinais dos tempos, sem liberdade de pensamento. A ciência confirma os benefícios da fé e quão prejudicial é o fundamentalismo e o exagero na autocrítica.

CD – Igreja e mundo contemporâneo têm uma difícil relação. A família é desvalorizada e esta é a célula da igreja. Há desejo de dinheiro, não de Deus. A Igreja tem influência social, mas os valores sociais não são cristãos. O CD escuta os estudantes e seus problemas e percebe a desadequação das respostas da Igreja. No ES público, laico, os docentes crentes, diluídos e isolados, devem manifestar os seus valores sem propaganda. A ética cristã é hostilizada se vier associada à Igreja.

CT – A Igreja fechou-se nos seus costumes limitando o diálogo aos mais praticantes, o que leva à divisão e fragmentação mesmo dentro da Igreja. Resistência em setores como a política e a cultura.

 

6.2. A propósito deste tema, que passos é que o Espírito nos convida a dar para crescermos no nosso “caminhar juntos”?

Capela – O pecado não se pode concentrar nas faltas pessoais, mas incluir as grandes estruturas pecaminosas. Praticar o diálogo inter-religioso com verdade.

CD – Atualizar a mensagem de Cristo. Fomentar oportunidades de diálogo entre todos, integrados ou não na Igreja. Balizar a sexualidade pelo amor e pela temperança, revendo a posição sobre os divorciados, os juntos em união de facto, o namoro, a masturbação e a orientação sexual. Simplificar o que se espera do testemunho cristão, sem deixar de aprofundar o conhecimento de Deus e da sua vontade. Ajudar estudantes do ES que se afastam da Igreja e precisam de conselhos e orientação. Continuar o caminho para a plena participação das mulheres na Igreja.

CT – Atender à cultura do século XXI, para ser possível promover a igualdade entre homens e mulheres, independente das suas escolhas. Deverá haver um diálogo aberto, sem julgamentos ou preconceitos e sem competições individuais. O encontro entre a ciência e a espiritualidade, sempre possível, cria pontes da Igreja com as IES.

 

  1. COM OUTRAS CONFISSÕES CRISTÃS

7.1. Na relação com as outras confissões cristãs, como é que o “caminhar em conjunto” está a acontecer hoje na nossa Igreja local?

Capela – Há falta de cooperação entre as diferentes igrejas. Um grupo universitário evangélico tem realizado alguns eventos no IUJP. Alguns realçam que a Igreja tem dado passos de abertura ao diálogo com outras confissões.

CD – Há alguns passos tímidos da Igreja, no sentido de dialogar com não-crentes e crentes de outras religiões. Deus convida-nos a reconhecer e valorizar tudo o que as diversas vias de fé, caridade, caminhada no sentido do bem comum, têm de louvável, sem preconceitos de superioridade e discriminação religiosa.

CT – A Igreja local depara-se com uma variedade de estudantes vindos de vários países criando uma diversidade de tradições, que quando se reúnem partilham a mesma missão de ajudar o próximo, de celebrar a vida, ouvir a palavra de Deus. O diálogo pode ser um meio para compreender o que ainda nos é desconhecido. A Capelania está em diálogo com outras culturas e religiões e apoia qualquer pessoa, independentemente da sua religião ou de não ser crente.

 

7.2. A propósito deste tema, que passos é que o Espírito nos convida a dar para crescermos no nosso “caminhar juntos”?

A Igreja Católica poderá potenciar a JMJ Lisboa 2023 para ser agregadora de milhares de jovens e oportunidade de comunhão entre os cristãos.

Capela e CD – O “caminhar juntos” convida-nos a um verdadeiro ecumenismo e não apenas a algo que alimente livros e palestras. Aprender com a prática sinodal de outras Igrejas cristãs, construindo a união e não a discórdia. Fomentar a colaboração entre teólogos das várias confissões cristãs. Organizar iniciativas de contacto/diálogo com não-crentes e crentes de outras religiões, abrindo a Igreja à sociedade e fazendo dela um motor do progresso social e da comunhão humana.

CT – Deus convida-nos a aceitar, respeitar as nossas diferenças. Devemos estar dispostos a ser missionários e levar ajuda aos mais necessitados, passando das palavras aos atos e participar ativamente para criar uma Igreja mais coesa e assertiva. A possibilidade de criar encontros entre as várias confissões religiosas, aceitando os outros, permite a nossa própria aceitação.

 

  1. AUTORIDADE E PARTICIPAÇÃO
Capelania-D. Armando no Lançamento do Caminho Sinodal na Capela da Universidade. Foto Direitos reservados

Armando Esteves, bispo auxiliar do Porto, no lançamento do Caminho Sinodal na Capela da Universidade de Coimbra: “Este momento de escuta sinodal é sentido como novo, colocando todos a dialogar.” Foto: Direitos reservados.

 

8.1. No exercício da corresponsabilidade e da participação, como é que o “caminhar em conjunto” está a acontecer hoje na nossa Igreja local?

Capela – Sentimos que há partilha, confiança e corresponsabilidade na nossa comunidade. Mas esta não é regra. É preciso valorizar as virtudes bem como a hierarquia eclesial, sem esquecer que esta também precisa de se aproximar mais do laicado.

CD – O clero coloca-se frequentemente num nível distante e a doutrina é vista como fechada. Deve prevalecer a misericórdia, porém há práticas de exclusão enraizadas na Igreja e os conflitos crescem. As lideranças estão envelhecidas. Existe uma crise de vocações. Celibato pode ser impeditivo de uma tomada de decisão para a vida.

CT – A Igreja está em evolução, mas ainda falta um longo caminho de convite à participação, principalmente dos leigos e dos jovens, o que exige a aceitação sem juízos de valor ou preconceitos.

Este momento de escuta sinodal, nomeadamente entre o CT das IES de Coimbra, é sentido como novo e a inovação na Igreja é colocar todos a falar e a dialogar, como nos tem pedido Francisco.

 

8.2. A propósito deste tema, que passos é que o Espírito nos convida a dar para crescermos no nosso “caminhar juntos”?

Capela – Investir na formação dos leigos, visto que há imensa fragilidade quanto à condução e liderança nas instituições internas: grupos de jovens, grupos de catequese, crisma e diversas pastorais. Apesar da dedicação do capelão, há ainda muito a fazer para haver sentido de comunidade na Capelania.

CD – Só podemos transformar a Igreja, aproximar do Evangelho, se estivermos dentro dela. Descobrir formas adequadas a cada realidade de a Igreja ser mais comunitária, solidária e pró-ativa e concretizá-las. Concretizar a universalidade da participação na comunidade eclesial. Clarificar os elementos perenes da doutrina católica, distinguindo-os de outros elementos que poderão eventualmente ser revistos.

CT – Deus chama-nos através do Espírito Santo à participação ativa na Igreja ajudando nos grupos, refletindo, comunicando aos outros o caminho que podemos fazer na Igreja. A participação deve ser livre e progressiva, conforme as possibilidades de cada um.

 

  1. DISCERNIR E DECIDIR

9.1. No processo de discernimento e busca de consenso, como é que o “caminhar em conjunto” está a acontecer hoje na nossa Igreja local?

CD – Este é um tempo pessimista. Ter esperança na reabilitação e capacidade transformadora das pessoas e da sociedade, é fundamental. A hierarquia da Igreja tem mudado pouco as suas estratégias de escuta de participação das comunidades de leigos, sobretudo mulheres, pessoas de outras confissões religiosas, pobres e carenciados, desempregados, entre outros.

CT – Quando as decisões são divulgadas, geralmente já estão preparadas para implementação, acabando por não haver uma grande participação por parte da comunidade no seu planeamento.

 

9.2. A propósito deste tema, que passos é que o Espírito nos convida a dar para crescermos no nosso “caminhar juntos”?

Capela – Praticamente, basta passar o Concílio Vaticano II para a prática. Poucos decidem na Igreja, apenas homens, celibatários, de idade avançada e numa Igreja hierarquizada. Queremos, tal como Francisco, uma Igreja em que todos participem: bispos, padres, religiosos, religiosas e leigos homens e mulheres.

CD – Chamar quem se afastou da Igreja para conversas individuais que partam do entendimento do percurso daquela pessoa. Integrar essas pessoas na vida da Igreja.

CT – Deus convida-nos a escutar, ponderar e decidir no sentido de ajudar o próximo. Uma decisão antes de ser tomada na Igreja, deverá ter um período de escuta ativa de todos os interessados, só assim será possível o consenso. A tomada de decisão deverá ser ponderada, e ir ao encontro das necessidades e dificuldades de cada um, para que as decisões finais sejam transparentes e correspondam verdadeiramente às necessidades. Fazer com as pessoas, se realmente se quer fazer alguma coisa, não é perda de tempo.

  1. FORMAR-SE NA SINODALIDADE

10.1. Com o objetivo de formar para a sinodalidade, como é que o “caminhar em conjunto” está a acontecer hoje na nossa Igreja local?

CD – Francisco convida-nos a encontrar espaços de escuta, diálogo construtivo, partilha real de caminhadas, com espírito fraterno e sem paternalismos, espírito de clã/estranheza ou fechamento defensivo à diferença. A Igreja não deve esquecer os esquecidos, por exemplo os que estão presos e nas malhas das doenças mentais. Deve também acolher a via mística, na qual a espiritualidade é mais uma das dimensões da vida. A Igreja é e tem de ser universal.

CT – Questionar diretamente a comunidade sobre o papel que cada um pretende ter em determinada situação e de que forma estaria disponível para colaborar no caminho a construir. A Igreja deve integrar, e apelar à participação ativa, porém a escolha de pessoas com responsabilidades dentro da Igreja não deve ser descuidada. Isto porque essas pessoas serão a representação da Igreja, e se não forem capazes de ouvir e aceitar as diferenças será uma Igreja julgadora e que exclui, o que leva ao distanciamento das pessoas, e à divisão.

 

10.2. A propósito deste tema, que passos é que o Espírito nos convida a dar para crescermos no nosso “caminhar juntos”?

Capela – A Sinodalidade como verdadeira abertura ao século XXI. Que a dimensão sinodal faça parte da vida regular de toda a Igreja.

É urgente uniformizar a catequese, acabando com as imagens de um Deus castigador: Deus é Amor, é Pai e Mãe, infinitamente misericordioso. É preciso rever a linguagem.

A receção dos Sacramentos não deve ser imposta, mas ser uma opção livre e consciente. Deverá o IUJP/Capelania manter abertas as portas da liberdade de pensamento e de ações.

CD – Criar formas de chegar às pessoas esquecidas e refletir com elas.

CT – Valorização e promoção do papel de cada membro da Comunidade Católica. Investimento na formação teórica e prática dos futuros padres, para que, do contacto com a realidade, resulte uma maior capacidade para entender e ajudar a ultrapassar problemas e dúvidas das pessoas. Proliferação da figura dos diáconos, com participação ativa da comunidade na sua seleção, numa complementaridade com os que permanecem no caminho do celibato e do sacerdócio convencional.

 

Siglas utilizadas

APECER – Academia para o Encontro de Culturas e Religiões, Universidade de Coimbra
CUC – Capelania da Universidade de Coimbra
CD – Corpo Docente
CT – Corpo Técnico
DUDH – Declaração Universal dos Direitos Humanos
ES – Ensino Superior
IES – Instituição(ões) de Ensino Superior
PES – Pastoral do Ensino Superior
UC – Universidade de Coimbra

25 de março de 2022

 

Sida: 60% das crianças entre os 5 e os 14 anos sem acesso a tratamentos

Relatório da ONU alerta

Sida: 60% das crianças entre os 5 e os 14 anos sem acesso a tratamentos novidade

O mais recente relatório da ONUSIDA, divulgado esta terça-feira, 29 de novembro,  é perentório: “o mundo continua a falhar à infância” na resposta contra a doença. No final de 2021, 800 mil crianças com VIH não recebiam qualquer tratamento. Entre os cinco e os 14 anos, apenas 40% tiveram acesso a medicamentos para a supressão viral. A boa notícia é que as mortes por sida caíram 5,79% face a 2020, mas a taxa de mortalidade observada entre as crianças é particularmente alarmante.

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Breves

 

Bahrein

Descoberto mosteiro cristão sob as ruínas de uma mesquita

Há quem diga que este é o “primeiro fruto milagroso” da viagem apostólica que o Papa Francisco fez ao Bahrein, no início de novembro. Na verdade, resulta de três anos de trabalho de uma equipa de arqueólogos locais e britânicos, que acaba de descobrir, sob as ruínas de uma antiga mesquita, partes de um ainda mais antigo mosteiro cristão.

Gracia Nasi, judia e “marrana”

Documentário na RTP2

Gracia Nasi, judia e “marrana” novidade

Nascida em Portugal em 1510, com o nome cristão de Beatriz de Luna, Gracia Nasi pertencia a uma uma família de cristãos-novos expulsa de Castela. Viúva aos 25 anos, herdeira de um império cobiçado, Gracia revelar-se-ia exímia gestora de negócios. A sua personalidade e o destino de outros 100 mil judeus sefarditas, expulsos de Portugal, são o foco do documentário Sefarad: Gracia Nasi (RTP2, 30/11, 23h20).

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