Relatório independente sobre a diocese de Munique

Cardeais Ratzinger e Marx envolvidos no encobrimento de abusos por omissão

| 20 Jan 2022

Joseph Ratzinger, em 2001. Foto © Manfredo Ferrari, CC BY-SA 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/4.0>, via Wikimedia Commons

Cerca de 500 crianças foram abusadas por membros da Igreja Católica na arquidiocese de Munique e Freising, na Alemanha, entre 1945 e 2018, segundo um estudo independente encomendado pela Igreja há cerca de dois anos e divulgado esta quinta-feira, 20. Três cardeais ainda vivos, que estiveram à frente da arquidiocese, com destaque para Joseph Ratzinger, depois Papa Bento XVI, surgem aí acusados de encobrimento.

Segundo os autores do estudo, o escritório de advogados Westpfahl Spilker Wastl, das 497 vítimas, 247 são do sexo masculino e 182 do sexo feminino, sendo que em 68 casos não foi possível definir esta variável. Cerca de 60 por cento dos rapazes tinham entre 8 e 14 anos na altura dos abusos, enquanto das raparigas um terço eram menores. Foram analisados 261 casos de pessoas acusadas de abusos, tendo-se chegado ao número de 235 perpetradores. Destes, 173 são padres, nove diáconos, cinco agentes de pastoral e os restantes 48 de grupos profissionais diversos, entre os quais agentes educativos.

Martin Pusch, um dos advogados que apresentou o estudo, disse na sessão que o número de 497 vítimas não reflete a realidade. Para ele, o número de casos não notificados é maior.

Os investigadores analisaram os arquivos das dioceses para conhecer o modo como os responsáveis lidaram com os casos de pedofilia e abuso.

No caso do então arcebispo, cardeal Ratzinger, que viria a ser eleito Papa em 2005 com o nome de Bento XVI, os advogados que conduziram a investigação concluíram que, em quatro casos, ele não agiu corretamente, por omissão.

Dois casos referem-se a padres judicialmente acusados ​​de abuso infantil e que foram autorizados a continuar o seu trabalho na Igreja como pastores, sem que tenha havido nem ação disciplinar dos responsáveis eclesiásticos nem qualquer gesto relativamente às vítimas.  

Ratzinger enviou agora um memorando de 82 páginas no qual nega qualquer acusação. “Ele alega que não sabia de certos factos, embora acreditemos que não fosse o caso, pelo que sabemos”, observou um dos investigadores na sessão de apresentação.

Na sessão desta quinta-feira, a advogada Marion Westphal, uma das fundadoras do escritório que fez o estudo, disse que os advogados corrigiram o teor de uma avaliação feita em 2010, também encomendada pela arquidiocese, acerca do comportamento de Joseph Ratzinger – principalmente “graças às novas declarações das vítimas”.

No caso do cardeal Reinhard Marx, atual arcebispo, o estudo aponta dois casos de abusadores, com os quais o arcebispo não atuou como devia. Este nome de primeiro plano na Igreja e no episcopado alemães e na Cúria Romana já tinha assumido responsabilidades pessoais pelo modo “desastroso” como a Igreja Católica da Alemanha tinha lidado durante décadas com o problema dos abusos sexuais. Na sequência disso apresentou uma carta de demissão ao Papa Francisco, o qual acabou por decidir não aceitar o pedido.

O terceiro hierarca que surge identificado como tendo encoberto ou lidado incorretamente com nada menos de 21 casos de abusos foi o do cardeal Friedrich Vetter, que sucedeu a Raztinger em 1982, mantendo-se à frente da arquidiocese de Munique e Freising até 2007. Hoje com 94 anos, Vetter respondeu aos investigadores, negando a matéria de que é acusado com exceção de um dos casos.

Dos visados neste estudo, apenas o cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique desde 2007 e responsável primeiro pela encomenda deste trabalho, se pronunciou sobre a informação revelada.

Marx, que esteve ausente na sessão de apresentação, ao contrário do que era esperado, disse-se “chocado e envergonhado”. Enquanto arcebispo atual, pediu desculpas em nome da Arquidiocese e assumiu as responsabilidades que decorrem das conclusões apuradas. Recordou uma primeira avaliação do problema feita em 2010 e o que, em função dela, mudou desde então em Munique. “Aconselharemos e implementaremos outras mudanças com base nas recomendações deste relatório”, observou, citado na agência católica italiana SIR.

“Sabemos há anos que o abuso sexual não foi levado a sério na Igreja, que os perpetradores muitas vezes não foram adequadamente responsabilizados, que houve um distanciamento dos responsáveis”, acrescentou o cardeal.

A Arquidiocese anunciou, entretanto, que irá analisar o relatório e anunciará, no dia 27 deste mês, como o lê e assume e quais as medidas que vai tomar.

Ratzinger comentou esta situação em que aparece visado através de seu secretário particular, o arcebispo Georg Gänswein, citado no jornal Corriere della Sera: “Até esta tarde [dia 20, quinta], Bento XVI não conhecia o relatório, que tem mais de mil páginas. Nos próximos dias ele examinará o texto com a atenção necessária. O Papa emérito, como já repetiu várias vezes durante os anos do seu pontificado, expressa a sua perturbação e vergonha pelos abusos contra menores cometidos pelos clérigos, e exprime a sua proximidade pessoal e a sua oração por todas as vítimas, algumas das quais encontrou por ocasião das suas viagens apostólicas.”

Entretanto, o chefe da Sala de Imprensa do Vaticano disse desconhecer ainda o teor do estudo sobre os abusos na diocese de Munique e prometeu uma análise circunstanciada do seu teor. Adiantou que a Santa Sé “reitera a sua vergonha e profundo pesar pelo abuso de menores por parte dos clérigos, assegura a todas as vítimas de sua proximidade e reafirma o caminho percorrido para proteger as crianças, a fim de garantir-lhes um ambiente seguro”.

O relatório sobre a Arquidiocese de Munique e Freising tem quase 1900 páginas e está disponível, em alemão, numa versão em livro digital

 

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