Cardeal George Pell condenado a seis anos de prisão por abusos sexuais

| 13 Mar 19 | Destaques, Igreja Católica, Últimas

Fonte © Vídeo ABC News Australia.

O cardeal australiano George Pell foi condenado a seis anos de prisão, depois de ter sido acusado de, em 1996, abusar sexualmente de dois rapazes do coro da catedral de S. Patrício, em Melbourne, onde era arcebispo.

O antigo conselheiro económico do Vaticano, 77 anos, foi condenado a um período de prisão efetiva de três anos e oito meses. Na leitura da sentença, o juiz Peter Kidd, do tribunal de Victoria, na Austrália, descreveu a atitude do prelado como “pautada pela arrogância” por achar que as vítimas nunca se queixariam: “No meu ponto de vista, o primeiro episódio na sacristia envolveu atos sexuais forçados com ambas as vítimas. Os atos foram sexualmente gráficos. Ambas as vítimas ficaram traumatizadas.”

No julgamento, um dos queixosos, agora com 35 anos, contou que ele e a segunda vítima tinham entrado na sacristia às escondidas para beber vinho sacramental. Quando Pell os encontrou obrigou ambos a fazer-lhe sexo oral. Em comunicado, a vítima expressou: “Como muitos sobreviventes experimentei vergonha, solidão, depressão. Como muitos sobreviventes demorei anos a perceber o impacto deste episódio na minha vida.”

O outro rapaz envolvido nos abusos morreu em 2014 de overdose de heroína, sem nunca chegar a relatar o sucedido à polícia.

George Pell foi considerado culpado de quatro acusações de ato indecente e um de penetração sexual no final de fevereiro mas só agora é conhecida a sua sentença. Durante a sua leitura, o juiz mostrou-se desagradado com o abuso de poder de que George Pell se aproveitou: “Como arcebispo, tinha uma relação de autoridade com os rapazes do coro. Eles estavam em parte a actuar para lhe agradar. Eram os indivíduos mais frágeis e mais subordinados na catedral.”

O cardeal George Pell continua a reclamar inocência dos crimes pelos quais foi agora condenado, como tem feito desde que surgiram as acusações, em 2016. Foi entrevistado por um detetive australiano em Roma, em outubro de 2016, e o vídeo dessa entrevista foi visto em tribunal. Na conversa, Pell descrevia as alegações como “um monte de lixo e falsidades.” Os seus advogados apresentaram um recurso, que será analisado em junho.

Esta não é a primeira acusação feita ao cardeal. Em 2002, tinha sido acusado por um antigo acólito que dizia que George Pell o tinha molestado durante um campo de férias em 1961. Na altura, um juiz do Supremo Tribunal de Vitória considerou que a acusação não tinha qualquer fundamento.

Nascido a 8 de junho de 1941 na aldeia de Ballarat, no Estado de Vitória, George Pell sempre foi considerado um conservador, como recorda um texto biográfico publicado pela TSF. A mesma fonte diz que defendia benefícios fiscais para os casais divorciados com filhos menores que ficassem juntos e um imposto especial para os que se separavam, para compensar os danos sociais causados. E era fonte frequente de declarações polémicas como “o aborto é um mal moral mais grave que o abuso sexual de menores”. Ficou também conhecido por defender veementemente o celibato.

Foi nomeado em 1996 para arcebispo de Melbourne. Nos cinco anos em que esteve no cargo, George Pell afastou 20 padres suspeitos de terem abusado de menores. Em 2001, o Papa João Paulo II nomeou-o arcebispo de Sidney e também aí teve de gerir um escândalo de abusos sexuais, com acusações feitas a 50 padres.

Antes de voltar de Roma à Austrália por causa das acusações, em 2018, o arcebispo foi durante três anos um dos membros do C-9, o organismo de cardeais escolhidos pelo Papa Francisco, com a missão de vigiar as finanças e impedir a corrupção no Vaticano. Na altura, comentou-se que o Papa queria, com isso, anular a oposição que, no início, Pell lhe faria. A sua condenação traz mais um problema ao Papa, depois da condenação, na semana passada, do cardeal Philippe Barbarin, de Lyon (França) e depois da redução ao estado laical do ex-cardeal Theodore McCarrick, dos Estados Unidos. 

 

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