Cardeal Barbarin apresenta demissão ao Papa depois de condenado por encobrimento de abusos sexuais

| 7 Mar 19

Fã de Tintin, ia de bicicleta para as reuniões preparatórias do conclave e condena com firmeza a homossexualidade e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. O cardeal Barbarin, arcebispo de Lyon, foi sentenciado por encobrir casos de abusos sexuais e irá dentro de dias apresentar ao Papa a sua demissão. 

Ilustração publicada no “Público” de 24 de Fevereiro © Cristina Sampaio

 

O arcebispo de Lyon, cardeal Philippe Barbarin, foi condenado em tribunal, nesta quinta-feira, 7 de Março, por ter silenciado abusos sexuais cometidos pelo padre Bernard Preynat sobre menores. Na sequência da sentença de seis meses de prisão com pena suspensa, o cardeal anunciou que irá entregar a sua demissão ao Papa, já dentro de poucos dias.

“Independentemente do meu destino pessoal, quero reiterar toda a minha compaixão pelas vítimas”, afirmou o cardeal, citado no Libération.

Na mesma sentença, o tribunal inocentou os restantes acusados: o arcebispo de Auch, Maurice Gardès; o bispo de Nevers, Thierry Brac de La Perrière; o padre Xavier Grillo; e ainda Pierre Durieux, ex-director do gabinete do cardeal; e Régine Maire, encarregue por Barbarin de receber as vítimas de pedofilia. O facto de o único condenado ser o cardeal, como nota Le Monde, não deixa de ser simbólico, pois pode significar que o tribunal quis sublinhar a responsabilidade de um dos mais importantes membros da hierarquia católica francesa (que tem mesmo o título de “primaz das Gálias”) no encobrimento intencional dos crimes e na colocação de entraves à justiça, não denunciando os factos de que tomara conhecimento.

Citada no La Croix, a presidente do tribunal, Brigitte Vernay, declarou Barbarin culpado de não-denúncia de maus tratos infligidos em 2014 e 2015 a um menor, depois de ter recebido Alexandre Hezez, a primeira vítima que o procurou. Na sua deliberação, o tribunal assinala a “inércia” e as contradições do arcebispo, cita ainda o mesmo jornal. As suas funções davam-lhe acesso a todas as informações e o cardeal tinha capacidade de as analisar e comunicar de forma útil às autoridades. Mas “fez uma escolha em consciência, para preservar a instituição a que pertence, de não as transmitir à justiça”, preferindo desse modo “impedir a descoberta de numerosas vítimas de abusos sexuais pela justiça e de interditar a expressão da sua dor”, dizia a sentença.

 

Fã de Tintin, de bicicleta para o conclave

Nascido em Rabat (Marrocos), Barbarin foi nomeado cardeal aos 53 anos, em 2002, ainda pelo Papa João Paulo II. Condena com veemência a homossexualidade e foi opositor firme da lei francesa que permitiu o casamento de pessoas do mesmo sexo. Ao mesmo tempo, Philippe Barbarin é fã da banda desenhada de Tintin e era o cardeal que, nas reuniões pré-conclave que elegeram os papas Bento XVI (2005) e Francisco (2013), aparecia de bicicleta.

Os advogados do cardeal anunciaram já que irão recorrer da sentença. “A motivação do tribunal não me convence”, afirmou Jean-Félix Liciani. Citado no Monde, o advogado acrescentou que “era difícil para o tribunal resistir a uma tal pressão, com documentários, um filme… Isso põe questões reais sobre o respeito da justiça.”

Ao contrário, as vítimas do padre Preynat consideraram a sentença “uma grande vitória para a protecção da infância”. Em declarações à AFP, François Devaux, presidente da associação La Parole Liberée (A palavra libertada), considerou a sentença como um “forte sinal” que indica que “os tempos mudaram” para a Igreja e que a decisão de demissão já deveria ter sido tomada “há muito tempo”. E acrescentava: “Ninguém está acima das leis. Não há lugar a qualquer triunfalismo, que seria deslocado, mas creio que podemos todos ficar satisfeitos.” A sentença, disse ainda, é “o ponto de chegada de um longo caminho para que surja uma consciência global sobre a relação com o poder, o lugar da religião na nossa sociedade e a importância da protecção da infância.”

“Não estou surpreendido, estava persuadido de que teríamos este resultado, tendo em conta o que se passou na audiência”, acrescentou outro dos denunciantes, Pierre-Emmanuel Germain-Thill. “Isto mostra que tudo o que denunciamos há quatro anos existia realmente.”

O processo de Barbarin foi muito acompanhado em termos mediáticos, tendo em conta que as acusações contra o cardeal traduzem, desde há três anos, a crise em que a hierarquia católica francesa se tem visto envolvida por causa da questão dos abusos sexuais – além de Barbarin, o La Croix recorda que outros dois bispos tinham sido condenados pelas mesmas razões: Pierre Pican, então bispo de Évreux, em 2001, e André Fort, antigo bispo de Orleães, em Novembro de 2018.

A Conferência dos Bispos de França coloca na “consciência pessoal” do cardeal as suas próprias decisões, acrescentando que aguardarão os resultados do recurso. Do Vaticano, não há para já qualquer reacção. O La Croixcita fontes da Santa Sé para dizer que só depois da audiência com o Papa poderá haver um comentário oficial.

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