Cardeal Marto não quer ser presidente da CEP, bispo de Setúbal pode ser a escolha

| 16 Jun 20

Boletins de voto para as eleições no episcopado. Foto © Paulo Rocha/Agência Ecclesia.

 

Eleições dos novos titulares da Conferência Episcopal decorrem nesta terça, dia 16; patriarca fez o seu último discurso como presidente e elogiou “heroísmo” na pandemia. Desafio principal da CEP mantém-se o mesmo há anos: criar uma dinâmica colectiva com prioridades bem definidas. Alinhamento com o Papa Francisco também terá de ser mais claro nas opções colectivas.

 

O cardeal António Marto, bispo de Leiria-Fátima, e José Ornelas, bispo de Setúbal, são as duas hipóteses mais fortes para suceder nesta terça-feira, 16 de Junho, ao patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, como novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP).

Essa é, pelo menos, a expectativa de várias fontes consultadas pelo 7MARGENS. Mas o cardeal Marto já terá feito saber a várias pessoas próximas e a vários colegas de episcopado que não está disponível para aceitar a presidência. O facto de ter completado 73 anos em Maio faz com que lhe restem dois anos até ao pedido de resignação obrigatório. Em alguns casos (como os cardeais), o Papa costuma pedir mais um ano ou dois em funções, o que significa que o cardeal poderia cumprir o mandato completo como presidente da CEP.

Se o bispo de Leiria-Fátima não entrar mesmo na equação para a escolha para a presidência, então a escolha pode recair no bispo sadino. Originário de Porto da Cruz (Madeira) e membro da congregação dos padres dehonianos, Ornelas, com 66 anos completados em Janeiro, estava em Roma como geral dos padres do Sagrado Coração de Jesus quando o Papa o nomeou para Setúbal, há quase cinco anos (nomeado em Agosto, tomou posse em Outubro). Há, no entanto, outros nomes que podem entrar na lista, como os bispos de Bragança e Coimbra, vistos como menos prováveis por razões diferentes: a idade no caso do bispo José Cordeiro, de Bragança (com 53 anos é um dos mais novos), o perfil demasiado discreto no caso de Virgílio Antunes, de Coimbra (quase com 59 anos).

Seja quem for o presidente eleito, há um desafio que se mantém desde há muito e nenhum presidente tem conseguido ou querido desbloquear: o de conseguir dar à conferência um dinamismo colectivo que passe pela definição e concretização de prioridades bem definidas, o que só aconteceu em momentos muito dispersos. E pode acrescentar-se, neste momento, também a perspectiva de colocar a CEP mais em sintonia com o Papa Francisco, não tanto em declarações de retórica – que não têm faltado nestes sete anos do actual pontificado, da parte de vários bispos portugueses, pelo menos na praça pública –, como, sobretudo, nas dinâmicas conjuntas promovidas pelo episcopado.

A escolha da nova liderança será feita pelos 28 bispos com direito a voto (21 diocesanos e sete auxiliares), em escolha uninominal (ou seja, não há listas) para cada um dos cargos. Mas o presidente e o vice-presidente só podem ser escolhidos entre os 21 titulares das dioceses. O cardeal Clemente já não pode ser reeleito por ter cumprido dois mandatos (e ainda mais um ano como interino, depois da resignação do cardeal José Policarpo). Qualquer cargo da CEP só pode ser exercido pela mesma pessoa durante dois mandatos seguidos.

 

Pandemia adiou votações

O processo eleitoral estava previsto para a assembleia plenária de Abril, cancelada devido à pandemia e à quarentena que vigorava nessa altura. Esta assembleia decorre, assim, num formato atípico: não participam, desta vez, os bispos eméritos e haverá apenas dois tempos. O primeiro começou na tarde de segunda-feira com uma reflexão dedicada ao tema da sociedade pós-pandemia, nos âmbitos económico, social e eclesial, iniciada com o discurso de abertura do actual presidente. O segundo momento serão as votações. Se estas se concluírem ainda na terça-feira, a assembleia é dada por terminada.

As eleições iniciam-se pela escolha dos membros do conselho permanente: presidente e vice-presidente (têm de ser bispos diocesanos); o secretário, que pode ser um bispo ou um padre; e os cinco vogais (podem ser diocesanos ou auxiliares), como esclarece o actual secretário, padre Manuel Barbosa, em entrevista à agência Ecclesia. No caso de não ser presidente ou vice-presidente, o patriarca de Lisboa é, por inerência, membro do conselho permanente.

Depois dessas votações iniciais, são escolhidos os sete presidentes das comissões episcopais sectoriais: Educação Cristã e Doutrina da Fé; Pastoral Social e Mobilidade Humana; Laicado e Família; Vocações e Ministérios; Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais; Liturgia e Espiritualidade; Missão e Nova Evangelização.

Após as eleições, os bispos irão debater se será oportuno estabelecer novas orientações sobre o culto público católico no contexto da pandemia covid-19. Recorde-se que os bispos, com destaque para D. Manuel Clemente e D. António Marto, assumiram a responsabilidade pela decisão de suspender o culto público antes de decretado o estado de emergência nacional, bem como de prolongar essa suspensão para lá das primeiras medidas de alívio decididas pelo Governo.

Perante os pedidos de grupos católicos para permitir a comunhão na boca, o cardeal Marto foi especialmente assertivo. Numa entrevista no final de Maio, afirmou mesmo: “Jesus disse ‘tomai e comei’, não disse ‘abri a boca’.”

 

“Um momento especial”

No discurso com que abriu os trabalhos da CEP O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), D. Manuel Clemente, elogiou o esforço coletivo do país para enfrentar a crise provocada pela pandemia.

“Reconheço e louvo tudo quanto se fez para minorar os efeitos da pandemia, nos âmbitos da saúde, da segurança social e do ensino, como na continuação de tudo o que é necessário à vida das populações”, afirmou, citado pela Ecclesia.

Este foi um “momento especial da sociedade e da Igreja”, que interrompeu, “mas também despertou muita solidariedade nos vários sectores e muita criatividade”, acrescentou o patriarca. Saudando o “heroísmo” nos hospitais e lares de idosos, o cardeal referiu também o empenho de comunidades eclesiais e instituições sociais, “que souberam estar presentes e activas junto dos seus fiéis e dos mais necessitados, tanto no apoio especificamente religioso como em várias formas de prática solidária”.

Manuel Clemente referiu ainda a importância da ideia da “ecologia integral” proposta na encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco, que completou em Maio cinco anos: “Oxalá tanto bem que emergiu, face a um grande mal, recresça para o futuro, quer superando a pandemia que persiste, quer para nos retomarmos melhor do que estávamos antes”, afirmou, neste que foi o seu último discurso como presidente da Conferência Episcopal.

Tema ausente da agenda, desta vez, é o da protecção de menores. Nas declarações já referidas à Ecclesia, o padre Manuel Barbosa explica que todas as comissões diocesanas foram constituídas até aos primeiros dias deste mês – o prazo era dia 1, mas algumas só ficaram prontas depois por causa da pandemia, “que dificultou os contactos pessoais para a respetiva constituição”. Agora, a CEP e o grupo de trabalho do Vaticano que acompanha a elaboração das normas sobre protecção de menores nas várias conferências episcopais estão a trabalhar em conjunto para aprovar este ano as normas para Portugal.

Entre 9 a 12 de novembro “esperando-se que dentro da normalidade possível, se a situação assim o permitir”, decorrerá a próxima assembleia plenária da CEP, já com o novo presidente em funções.

 

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