Cardeal Pell admite ter sido vítima de acusação de pedofilia devido ao seu combate à corrupção no Vaticano

| 16 Abr 20

Entrevista do Cardeal Pell à Sky News Austrália

Imagem da entrevista do cardeal George Pell à Sky News Austrália

 

Em paz consigo mesmo, com a Igreja, com Deus, assim se a o cardeal George Pell na primeira grande entrevista depois de ter saído da prisão, onde esteve detido durante 405 dias por alegados crimes de pedofilia, dos quais acabou por ser absolvido no passado dia 7. Admitiu a hipótese de as acusações terem surgido para impedir que a sua luta contra a corrupção no Vaticano prosseguisse, mas assegurou que não guarda qualquer ressentimento. Não negou que este foi “um período difícil”, mas disse que o vê agora como “um longo retiro espiritual”.

A entrevista, transmitida na terça-feira, dia 14, pela cadeia de televisão australiana Sky News, foi conduzida pelo jornalista Andrew Bolt, autor de um documentário divulgado em dezembro de 2019, no qual denunciou inúmeras incongruências do caso e defendeu a tese de que Pell seria inocente.

O cardeal, que chegou a integrar o chamado C9 (conselho restrito dos cardeais consultores do Papa), tendo sido escolhido por Francisco para ficar responsável pelas finanças da Santa Sé, admitiu que a sua firmeza na luta por uma maior transparência financeira no Vaticano provocou incómodos em alguns elementos da hierarquia da Igreja. Questionado sobre que motivo teria levado a alegada vítima que o acusou a fazê-lo, disse: “Não sei qual era intenção deste pobre homem. Imagino que possa ter sido usado.”

Pell reconheceu também ter sido o “bode expiatório” de uma crescente “atitude anticatólica muito agressiva que critica os fundamentos judaico-cristãos da sociedade, nomeadamente sobre o casamento, a vida, a família e questões de género e de sexo”.

 

O apoio do Papa e dos opositores teológicos

Da parte do Papa, no entanto, George Pell afirma ter recebido sempre apoio “absoluto”. “As minhas posições teológicas não estão propriamente alinhadas com as de Francisco”, assumiu o cardeal. Mas, ainda assim, Pell acredita que Francisco sempre valorizou a sua honestidade e o facto de “lhe dizer coisas que outros não diriam”. “Creio que me respeita por isso”, sublinhou, afirmando que nem Francisco nem o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, são corruptos, mas dando a entender que existe corrupção em níveis elevados da hierarquia.

Quando, em 2017, Pell foi formalmente acusado pelas autoridades australianas por alegados abusos sexuais, abandonou temporariamente o cargo em Roma para regressar à Austrália e defender-se das acusações. Condenado por presumíveis crimes de pedofilia e após a segunda instância ter renovado a condenação, o cardeal foi então oficialmente afastado do cargo.

Esse foi, segundo Pell, “o momento mais difícil” de todo o processo. “Fui-me mais abaixo, mas tive de aguentar”, contou na entrevista à Sky News. “Confiei sempre na minha consciência e, sobretudo, no último juízo, pois o juízo de Deus não é o juízo dos homens”. O ex-conselheiro do Papa afirmou sempre estar inocente. “Nem os meus opositores teológicos em Roma acreditavam nas histórias” dos abusos, recordou.

A absolvição acabou por ser decidida pelo Supremo Tribunal da Austrália, no passado dia 7, por falta de provas. A sentença foi votada por unanimidade dos sete juízes.

 

“Fui respeitado na prisão”

No próprio dia, Pell deixou a prisão de Barwon, na cidade de Vitória, e rumou ao seminário do Bom Pastor, em Sidney, onde planeia ficar a residir, dedicando-se à escrita, leitura e jardinagem, visitando Roma ocasionalmente. Ao jornalista Andrew Bolton, confessou que, apesar de tudo, guarda memórias positivas do tempo que passou detido.

“Fui respeitado na prisão” e “muitos dos detidos acreditaram na minha inocência”, contou. Alguns presos terão até partilhado consigo que “foi a única vez que houve prisioneiros a tomar partido de um padre acusado de pedofilia”.

Ao longo dos 405 dias que permaneceu detido, George Pell garante que nunca se sentiu abandonado. Para isso contribuíram as 4.000 cartas, dezenas de livros, orações, palavras de conforto espiritual e sinais de amizade que foi recebendo na prisão.

Sobre o seu dia a dia na cadeia, Pell diz ter seguido os conselhos dados por padres amigos e estabeleceu uma rotina: “Rezar, levantar cedo, comer e dormir a horas certas, fazer um pouco de exercício físico, ler muito e escrever.”

Mas o fator determinante para nunca ter desanimado é muito claro para o cardeal: ser cristão. E é isso que lhe permite estar em paz, porque, como explicou ao jornalista Andrew Bolt, “um dos ensinamentos mais importantes do cristianismo é que podemos tirar sentido do sofrimento mais terrível”.

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