Cardeal Barbarin entrega demissão ao Papa, apesar de absolvido da acusação de encobrimento

e | 30 Jan 20

O cardeal Barbarin no Ecclesia Campus 2012, em Rennes (França). Foto © Peter Potrowl/Wikimedia Commons

 

O cardeal Philippe Barbarin anunciou nesta quinta-feira, ao final da tarde, que irá colocar nas mãos do Papa a sua demissão do cargo de arcebispo de Lyon. Horas antes, Barbarin tinha sido absolvido da acusação de encobrimento de abusos sexuais por um tribunal de recurso.

Na curta declaração que fez à imprensa, o cardeal afirmou que se abre agora um novo capítulo na sua vida e que de novo dirigia o seu pensamento às vítimas do antigo padre Bernard Preynat, noticia o La Croix.

Condenado em primeira instância a um ano de prisão, convertido em seis meses de pena suspensa, pela não denúncia à justiça de actos pedófilos, o arcebispo de Lyon acabaria por ser absolvido pelo Tribunal de recurso. Mas esta sentença é passível ainda de novo recurso.

O Tribunal declarou não poder reprovar o cardeal por não ter participado às instâncias judiciais uma queixa que lhe foi comunicada por uma vítima de Bernard Preynat, uma vez que a própria vítima, sendo já adulta, poderia ter tomado a iniciativa da participação, tal como as outras vítimas.

Um dos advogados do cardeal, citado pela agência France Presse e pelo diário Le Monde, afirmou que foi reparada uma injustiça, acrescentando que “o cardeal Barbarin é inocente, ele nunca tentou obstruir o curso da justiça”. Segundo o advogado, “o tribunal reconheceu que o cardeal disse a verdade. Cometeu erros, teve falhas. Admitiu-o. A Igreja, com certeza, cometeu erros, teve falhas, mas ele não encarna a Igreja”.

A acusação pretendia a condenação do cardeal Philippe Barbarin por ele não ter denunciado à justiça os actos pedófilos do então padre Bernard Preynat, suspeito de abusar sexualmente de cerca de oito dezenas de jovens nas décadas de 70 a 90 do século passado.

Vítimas “decepcionadas”

De acordo ainda com o La Croix, o director da Sala de Imprensa da Santa Sé, Matteo Bruni, afirmou que o Vaticano exprime a sua “proximidade a todas as vítimas de abuso”, pelo sofrimento que enfrentam, bem como às famílias e a toda a comunidade. O Papa, acrescentou o mesmo responsável, continua a seguir de perto o desenvolvimento destes acontecimentos dolorosos” e tomará uma decisão sobre o futuro do cardeal quando entender necessário.

Em Abril de 2019, o Papa recusara a demissão do cardeal, dizendo que era necessário esperar pelo curso da justiça. Mas, em Junho, Barbarin preferiu retirar-se da liderança activa da diocese, tendo sido nomeado um administrador apostólico.

François Devaux, fundador da associação Parole Libérée (Palavra libertada) e um dos principais críticos da actuação do cardeal, manifestou-se “inevitavelmente decepcionado” com a decisão do tribunal. “Respeito a decisão, mesmo que ela esteja em oposição ao que julgou o tribunal de primeira instância”, afirmou, citado ainda no La Croix.

De acordo com a mesma fonte, esta caso – que serviu para uma forte tomada de consciência na Igreja Católica, em França, levou a que a Comissão independente sobre os abusos sexuais na Igreja esteja a trabalhar e recolheu já quatro mil testemunhos. Em 2020, escreve o jornal, começa já a ser possível “medir a gravidade das falhas e a amplitude das consequências das agressões sexuais sobre menores”.

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