Como é que os cristãos podem trilhar caminho nesta situação de conflito – político, militar, espiritual – que se teme que continue por muitos anos? Eis a pergunta que serve como ponto de partida para a extensa carta pastoral escrita pelo Patriarca Latino de Jerusalém, o cardeal Pierbattista Pizzaballa, que acaba de ser divulgada online e será publicada em livro a partir do dia 8 de maio.
Na longa missiva, intitulada “Voltaram a Jerusalém com grande alegria. Uma proposta para viver a vocação da Igreja na Terra Santa”, o cardeal Pizzaballa apresenta uma reflexão profunda sobre o papel dos cristãos num cenário de guerra e fragmentação.
Reconhecendo que o conflito é já “parte integrante da vida” da Igreja da Terra Santa e do seu quotidiano e que se tornou “parte da cultura desta terra”, o Patriarca Latino de Jerusalém começa por fazer uma afirmação que pode não ser facilmente compreendida numa primeira leitura: “o conflito não é algo a ser superado, mas sim o próprio lugar onde a nossa Igreja é chamada a cumprir a sua missão específica como comunidade de fiéis em Cristo”.
Para Pizzaballa, numa terra “onde os contornos da identidade são tão ferozmente defendidos”, os cristãos são, assim, chamados a “testemunhar um estilo de vida particular, mesmo no meio do conflito”.
“Nós — escreve o Patriarca — somos a Igreja de Jerusalém, e a Cidade Santa é o coração não apenas geográfico, mas também espiritual da nossa comunidade eclesial”. E esta Igreja tem um rosto multifacetado, “pela sua essência, plural, já que Jerusalém é mãe de todos os povos”, mas “há muitos séculos está imersa predominantemente num contexto árabe”.
É a partir desse quadro que o prelado lança o olhar sobre o presente, um olhar que “aspira a abraçar e incluir todos os seus habitantes”.
Um diagnóstico da crise: para além das armas

Pierbatista Pizzaballa abençoa Jerusalém, a partir da Igreja das Nações no Getsémani, a 29 de março de 2026. Foto © Patriarcado Latino de Jerusalém
Começando por descrever o atual estado de “desordem global”, onde a força militar substituiu o direito internacional e o diálogo, o Patriarca Latino de Jerusalém alerta para o “ódio profundo” que se instalou na região, onde o outro é desumanizado e o adversário deixou de ser pessoa para ser apenas “o inimigo”.
“É uma guerra que se conduz também com palavras e imagens”, em que “é cada vez mais difícil distinguir a notícia da propaganda, enquanto nos perguntamos quantas pessoas, nestas últimas guerras, morreram por ‘decisão de um algoritmo’”, continua o prelado.
A vida da diocese tem sofrido “as consequências desse caos”, como a dissolução de relações envenenadas pelo ódio e pela desconfiança, a fragmentação em enclaves e bolhas identitárias, amplificadas pelos algoritmos das redes sociais, a perda de sentido e o desgaste das palavras “convivência”, “diálogo”, “justiça”, “bem comum”.
Entre os efeitos negativos do conflito, Pierbatista Pizzaballa destaca também a crise do diálogo inter-religioso, “atingido por memórias opostas e instrumentalizações identitárias”. E até “os Lugares Santos, que deveriam ser espaços de oração, tornam-se campos de batalha identitários, e os textos sagrados são utilizados para justificar a violência, a ocupação e o terrorismo”, lamenta o Patriarca, considerando que “esse abuso do nome de Deus é o pecado mais grave do nosso tempo”.
Pizzaballa faz notar ainda que o sentimento de ser vítima, embora legítimo, tem muitas vezes impedido o reconhecimento do sofrimento alheio, criando “enclaves” sociais e mentais.
Quanto à Igreja de Jerusalém, “fez ouvir a sua voz, tentando pronunciar uma palavra de verdade mesmo no meio dessa confusão, muitas vezes à custa de incompreensões”, mas terá sido suficiente? “Ou, neste período tão difícil, privilegiámos por vezes a prudência e buscamos a sobrevivência institucional, sacrificando o nosso testemunho profético? É uma pergunta que me acompanha todos os dias, à qual nunca é fácil responder”, reconhece Pizzaballa.
A verdadeira vocação de Jerusalém e dos cristãos

Pierbatista Pizzaballa durante a visita a uma escola gerida pela Cáritas. As escolas católicas devem ser “laboratórios de uma nova humanidade”, defende. Foto © Patriarcado Latino de Jerusalém
O cardeal recorre então ao Livro do Apocalipse para ilustrar aquela que deve ser a identidade da Igreja Católica. Em primeiro lugar, um lugar de portas sempre abertas: tal como Jerusalém, que nas Escrituras é definida por não ter muros defensivos, mas sim portas abertas em todas as direções, a Igreja não deve ser uma fortaleza, mas um lugar de encontro, defende.
“Ignorar essa sua dimensão vertical, o primado de Deus, expresso na sensibilidade das diversas comunidades de fé, levou e levará ao fracasso de qualquer acordo de convivência”, adverte o Patriarca.
O verdadeiro “Templo”, explica, são as relações: na nova Jerusalém, não há templo físico porque Deus habita nas relações humanas. Pizzaballa aponta, assim, a obsessão pela posse de lugares e territórios como uma raiz da violência. E defende que é preciso trabalhar para que Jerusalém seja acessível a todos, pois “não pertence a ninguém de forma exclusiva, mas é património da humanidade”.
Mas como é que esta visão se deve traduzir no terreno? Pierbatista Pizzaballa considera que é fundamental o papel das famílias como laboratórios de educação para a convivência e o respeito, onde o passado pode ser narrado aos filhos com dor e verdade, mas sem transmitir sentimentos de ódio e vingança.
Também as escolas católicas têm aqui um papel determinante, pois devem ser “laboratórios de uma nova humanidade”, onde jovens de diferentes fés aprendem a discordar com respeito.
E os hospitais e instituições de solidariedade, lugares onde acolhimento, diálogo e cura já são realidades vividas, devem ser apoiados.
Quanto ao diálogo inter-religioso, não deve ser apenas para elites, mas um “diálogo de vida” nos bairros e paróquias, aponta. “Carregar a cruz das divisões entre as Igrejas faz parte da nossa missão — acrescenta Pizzaballa, referindo-se às relações com os outros cristãos — e é por isso importante promover oportunidades concretas de conhecimento mútuo e falar a uma só voz, pois o primeiro testemunho é a unidade entre as comunidades”.
Para o prelado, os cristãos na Terra Santa não podem ser “uma terceiras parte” ou mediadores externos, mas devem ser parte integrante das sociedades árabe e israelita. E a sua vocação é ser “sal, luz e fermento” que, a partir de dentro, propõe o perdão como a “única medicina capaz de trazer cura”.
“A vocação de Jerusalém — conclui o cardeal — é curar o mundo das suas feridas. Curar as lacerações com mansidão e com a coragem do perdão: esta é a missão sublime de Jerusalém, onde os cristãos são sal, luz e fermento no seio das sociedades às quais pertencem de pleno direito”.










