O Papa Francisco fortalece “a credibilidade da Igreja, que é missionária, reforçando junto de todas as pessoas uma mensagem de salvação”, disse esta sexta-feira de manhã o cardeal português José Tolentino Mendonça, prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação (DCE), do Vaticano, durante um encontro com jornalistas e outros profissionais da comunicação. Isso “faz com que as pessoas dêem à Igreja uma segunda oportunidade”, acrescentou, naquele que foi o primeiro acto do grupo de cerca de 40 portugueses que participam neste fim-de-semana no Jubileu do mundo das comunicações.
Dando um exemplo, Tolentino Mendonça referiu que “estávamos há muitos anos numa guerra religiosa” e o Papa Francisco, com vários documentos e iniciativas, “tem feito um trabalho de desarmamento dos corações”. Com ele, as pessoas perceberam que “as religiões estão ao serviço da paz”. O actual pontificado, acrescentou, “tem ajudado, com gestos proféticos, a criar alianças para esta transição de época que estamos a viver”. Admitindo que há “uma crise das democracias”, o cardeal português acrescentou que são forças transnacionais que estão a pôr em causa os regimes democráticos.
José Tolentino Mendonça acrescentou que é importante valorizar mais a dimensão religiosa na informação. “A religião continua a ser uma chave determinante para entender o presente. Não se entende a cultura removendo a dimensão religiosa e espiritual”, afirmou, alertando para o perigo da “terraplanagem” no jornalismo, se este se se restringir a “duas ou três agendas”.
O padre Antonio Spadaro, subsecretário do DCE, também presente no encontro, acrescentou que o Papa faz “uma experiência consciente das fracturas que existem” no mundo e mesmo entre as igrejas cristãs, mas que está “sempre disponível para o diálogo”. A outra participante no diálogo era a irmã Simona Brambilla, prefeita do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, e a primeira mulher a exercer um tal cargo na Cúria Romana.
Referindo casos de líderes com os quais o Papa não concorda, Spadaro afirmou que nem com Donald Trump, Nicolás Maduro ou Xi Jinping, Francisco corta as possibilidades de diálogo. “É o único líder religioso com quem todos podem falar”, afirmou, acrescentando que isso “faz dele um líder confiável, com quem todos podem dialogar; com simplicidade, é sempre uma porta aberta ao diálogo”.
Spadaro deu o exemplo recente da carta de saudação que o Papa enviou ao novo Presidente dos Estados Unidos, e na qual manifesta o desejo de que o povo americano “se esforce sempre por construir uma sociedade mais justa, onde não haja lugar para o ódio, a discriminação ou a exclusão”.
Era um telegrama curto, “desejando todo o contrário do que Trump quer fazer”, disse Spadaro, mas falando “em nome do Evangelho”.
Mesmo em questões como as guerras na Ucrânia ou em Gaza, ele não se coloca “como parte do conflito, mas como um pai que tem filhos que litigam” e que ele pretende reconciliar.
A aclamação dos presos

Aspecto da sala em que decorreu o diálogo do cardeal Tolentino Mendonça, o padre Spadaro e a irmã Simona Brambilla com 40 jornalistas e profissionais da comunicação portugueses. Foto © António Marujo/7MARGENS.
O padre jesuíta sublinhou também a forma como Francisco tem sabido usar “todas as formas de comunicação”, incluindo mais tradicionais como as encíclicas e mais contemporâneas como as entrevistas. Referiu o “impacto muito forte” que teve a encíclica Laudato Si’, sobre o cuidado da casa comum, contando que um dia entrou numa livraria laica e havia toda uma estante com exemplares daquele documento, enquanto numa livraria católica o texto estava “arrumado” na parte as encíclicas dos papas.
Respondendo a perguntas dos jornalistas e outros participantes na sessão, o cardeal Tolentino referiu-se ainda à “força” de algumas das “imagens novas” do pontificado de Francisco, que o próprio “produziu, transmitiu, coreografou”. E citou a oração pela humanidade, de Março de 2020, no início da pandemia da covid-19; e os círculos de debate nas duas assembleias do Sínodo sobre a sinodalidade, mostrando a “diversidade” de pessoas a pensar o futuro da Igreja. Noutro momento do diálogo, referiu a recente visita à prisão de Rebibbia, em Roma, para abrir a “porta santa” do Jubileu: Francisco já visitou 21 vezes várias prisões, recordou o cardeal português. E “para lá da emoção” do momento, foi impressionante ouvir os presos que tinham ficado nas celas a gritar à passagem do Papa: “Francisco nós amamos-te.”
Ele “não faz tudo” sozinho, mas conta que esses gestos “possam gerar outras dinâmicas”, acrescentou Tolentino Mendonça, referindo-se ao Papa, acrescentando outro exemplo, do que se passou na missa que encerrou o Sínodo sobre a Amazónia, com o príncipe de Gales ao lado de líderes dos povos primeiros daquele território. “Este pastor traz dentro de si uma fora generativa da palavra” e tem “conseguido injectar sinais de esperança” onde ela falta.
Neste sábado, o programa oficial do Vaticano para o Jubileu das comunicações inclui um encontro do Papa, ao final da manhã, com os jornalistas e profissionais presentes. Antes disso, haverá um debate com a participação da jornalista filipina Maria Ressa, prémio Nobel da Paz em 2021, e do escritor irlandês Colum McCann. À tarde, em diferentes lugares de Roma, haverá uma dezena de debates sobre temas relacionados com o jornalismo, a comunicação, a construção da paz e o papel da Igreja.
O Jubileu é uma iniciativa da Igreja Católica a cada 25 anos, que pretende propor a ideia do perdão (incluindo das dívidas), do recomeço e do repouso da terra. O deste ano, proclamado pelo Papa Francisco, é dedicado ao tema da esperança. [ver 7MARGENS]
(Foto de destaque: o cardeal Tolentino Mendonça e o padre jesuíta Antonio Spadaro durante o encontro com jornalistas e profissionais da comunicação. Foto © António Marujo/7MARGENS)
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