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Tolentino Mendonça, livros
O cardeal Tolentino Mendonça na apresentação do seu último livro. Foto © Agência Ecclesia/PR

Novo livro pela inteligência social

Cardeal Tolentino: um prémio para os professores e os jovens

Cardeal português pede para reconhecer o trabalho dos professores e para se olhar o interior e as suas “verdadeiras potencialidades”. A fronteira é uma “plataforma fundamental para o diálogo cultural com a Europa”. Palavras na recepção do prémio Eduardo Lourenço. Na véspera, na apresentação de um novo livro, destacou a procura de soluções que vençam “a lógica do antagonismo ou a lógica da polarização”.

 

O cardeal José Tolentino Mendonça recebeu o Prémio Eduardo Lourenço 2025 nesta quinta-feira, 27, na Guarda, recordando o “homem poliédrico” que dá nome ao galardão, uma das “grandes figuras da cultura portuguesa contemporânea”. Ao mesmo tempo, quis dedicar a distinção a todos os professores, enquanto o valor da distinção será destinado na totalidade a um centro juvenil.

“Aproveitarei o meu discurso para dedicar este prémio a todos os professores, para dizer quanto a missão do professor é hoje uma missão fundamental, que deve ser revalorizada, porque tantas vezes os professores se sentem sós, se encontram em dificuldade”, afirmou o cardeal aos jornalistas, antes da cerimónia de entrega na Guarda.

A docência “é uma carreira profissional que hoje socialmente perdeu valor, perdeu prestígio, e é necessário revalorizar, reencontrar a gratidão social pelo contributo dos professores”, acrescentou o prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação (DCE), da Santa Sé, citado pela Ecclesia.

Tolentino Mendonça recordou a “extraordinária simplicidade” de Eduardo Lourenço, uma “pessoa humana, muito próxima”, que “vivia uma vida muito despojada, com uma disponibilidade muito grande para servir”. Lourenço era “uma das grandes figuras da cultura portuguesa contemporânea, um homem extraordinariamente poliédrico, que pensou Portugal como poucos” e que ajudou a “olhar para a riqueza extraordinária da cultura portuguesa de todas as épocas e também dos últimos tempos”, com uma “infatigável curiosidade por todos os aspectos da vida e da cultura”.

Numa memória pessoal, o actual cardeal recorda: “Lembro-me, quando estava a começar o meu percurso, ele ter ido ao meu encontro ao Centro de Reflexão Cristã e estar sentado a escutar-me.” Era uma pessoa que “estava sempre disponível para escutar as vozes novas, as pessoas que apareciam, os novos temas, as novas interrogações, e essa sua simplicidade e abertura constituem para mim um exemplo”.

De Eduardo Lourenço, que morreu em 2020, o cardeal português recorda ainda uma “inquietação permanente: da dispersão de saberes mais diversos, ele construía uma espécie de fio de unidade”, afirma. “E nós aprendemos isso com o professor Lourenço, porque ele diz-nos que os grandes autores não são apenas escolares, mas que se tornam mestres de vida, ensinam-nos a voar, ensinam-nos a resolver as grandes questões que trazemos dentro de nós. Ajudam, no fundo, a encontrar sentido e razões de esperança”.

 

O diálogo dos dois lados da fronteira

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O cardeal Tolentino Mendonça na recepção do Prémio Eduardo Lourenço 2025, na Guarda, 27 Novembro 2025. Foto © Agência Ecclesia/CB

O cardeal português, prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação, quis olhar para a distinção recebida também como uma valorização do interior do país: “É um prémio que procura o diálogo de um lado e do outro da fronteira, mostrando, como dizia o professor Eduardo Lourenço, que são os outros que nos permitem conhecermo-nos a nós próprios.”

Espanha e Portugal não podem ficar de costas voltadas, acrescenta Tolentino. “Precisamos de encontrar estes pontos de diálogo que nos ajudam a ser também nós próprios; e este prémio fala de um Portugal que se encontra no seu interior com outro país, com uma tradição cultural muito rica.” Hoje, com o interior associado “a uma perda de velocidade, a uma diminuição de oportunidades, também para as novas gerações” são importantes “prémios como este e exemplos de cidadania” como os de Eduardo Lourenço”.

“É um estímulo de esperança para olhar para este território e para perceber as suas verdadeiras potencialidades”, afirmou Tolentino Mendonça. “A Guarda e a região interior do nosso país é uma plataforma fundamental para o diálogo cultural com a Europa, porque o Portugal do diálogo não é só o Portugal Atlântico, é também o Portugal desta fronteira interior.”

O cardeal Tolentino decidiu destinar o valor pecuniário do prémio (7500 euros) à construção Casa de Juventude Franciscus, um projecto na cidade da Guarda que quer “apoiar novas gerações”, em homenagem ao Papa Francisco.

“É preciso apoiar as novas gerações, incentivá-las, criar espaços de encontro, espaços para que eles possam ser habitados pelas perguntas, pelas grandes perguntas”, justificou. “Um papel de alguém mais velho é olhar para os jovens e dizer, ‘vamos dar-lhes oportunidades para que eles possam amar as coisas que nós amamos’.”

O patriarca de Lisboa, Rui Valério, que esteve na cerimónia, disse que com este prémio a cidade da Guarda e o seu Centro de Estudos Ibéricos distinguem “um dos maiores fazedores de futuro”. E acrescentou ser “simbólico” que o prémio Eduardo Lourenço seja entregue a José Tolentino Mendonça. “Este prémio une dois espíritos que em épocas diferentes partilharam o mesmo desígnio: pensar Portugal sem o diminuir, pensar o ser humano sem desistir dele, pensar o futuro sem roubar à vida a esperança.”

O presidente da autarquia, Sérgio Costa, quis reconhecer “o escritor, o académico, o homem de fé que, “num mundo acelerado, hipertecnológico e tantas vezes centrado no humano”, tem uma poesia que lembra que o futuro da Europa e da Ibéria se constrói “com profundidade, com sentido e com capacidade de olhar para dentro antes de avançar para o fora”. Uma poesia, acrescentou, que lembra “que a educação, a ciência, o diálogo, a criatividade e a cultura são instrumentos essenciais para enfrentar as crises do nosso tempo”.

O escritor e editor Francisco José Viegas, da Quetzal, onde nos últimos anos têm sido publicadas as obras de Tolentino Mendonça, fez o elogio do galardoado, referindo que “a dúvida” é uma marca dos seus livros, bem como de Eduardo Lourenço. “Ambas se fazem de inesperado, da passagem, são um processo, uma interrogação, um caminho”, afirmou, citado pela Lusa, numa notícia citada em vários meios de informação.

 

“Inteligência social” para vencer “polarização”

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Teresa Bartolomei na apresentação do livro de Tolentino Mendonça: ““Há muitos manuais de autoajuda que nos ensinam alguma coisa, como se a vida pudesse ser aprendida por uma técnica. Nada disso está neste livro.” Foto © Agência Ecclesia/PR

Na véspera, em Lisboa, foi precisamente o último livro de José Tolentino Mendonça que foi apresentado na Universidade Católica. Para os Caminhantes Tudo é Caminho, de que o 7MARGENS publicou alguns excertos,

é uma obra de resposta à “complexidade” do tempo actual e um apelo à esperança, definiu o próprio. A sociedade vive uma “mudança de época” e uma “aceleração muito grande”, que exigem “recursos interiores” e uma “escuta talvez mais atenta”.

“Se há uma palavra que define o nosso tempo, é a palavra complexidade. Vivemos tempos que pedem de nós competências” para encontrar respostas que “não sejam superficiais ou unívocas”, afirmou o cardeal e poeta, citado pela Ecclesia.

Para o autor, o novo livro procura estimular a procura de soluções que vençam “a lógica do antagonismo ou a lógica da polarização”, servindo o bem comum. E, no momento em que se discute o impacto da Inteligência Artificial, Tolentino Mendonça destacou a importância de não esquecer a “inteligência social”.

“Juntos, nós somos capazes de pensar soluções, de construir alternativas, de propor caminhos”, defendeu, sustentando que este é o tempo de “afirmar a esperança” e de fazer “alianças para uma ideia de comunidade”.

A capa da obra apresenta um barbusano (Apollonias barbujana), árvore que se distingue entre a grande diversidade presente na floresta laurissilva, da Madeira, cujo porte se eleva até aos 20 metros, e que tem folhas perenes e escuras, uma copa arredondada e um tronco resistente e de grande densidade. Uma árvore que é uma “lição de vida” e um símbolo da “orla” atlântica (Madeira, Açores, Canárias). “O barbusano vinga nos sítios mais difíceis onde, para afirmar a vida, há que lutar mais”, explicou, referindo-se à resiliência necessária para “iluminar a paisagem”, como um “milagre verde”.

O cardeal revelou que continua a escrever, definindo a poesia como uma “espécie de laboratório da vida: não é apenas uma consequência, é também uma causa”.

Na intervenção durante a apresentação, perante cerca de duas centenas de pessoas, o autor alertou contra um “défice de confiança”, sublinhando também o desafio de passar essa mensagem às novas gerações.

A obra de 180 páginas, editada pela Quetzal, reúne pequenos textos de reflexão, e aborda temas do quotidiano, do calendário litúrgico católico (Natal, por exemplo), da relação entre culto e cultura ou da condição humana, alertando para o risco de a cultura se desvitalizar se “cancelar a memória do culto”.

Na apresentação da obra, Teresa Bartolomei, investigadora da Universidade Católica, referiu: “Há muitos manuais de autoajuda que nos ensinam alguma coisa, como se a vida pudesse ser aprendida por uma técnica. Nada disso está neste livro.”

José Tolentino Mendonça nasceu em Machico (Diocese do Funchal) em 1965, é padre desde 1990 e bispo desde 28 de Julho de 2018, nomeado pelo Papa Francisco, que também o designaria cardeal em 5 de Outubro de 2019. Doutorado em Teologia Bíblica, foi já reitor do Colégio Pontifício Português, em Roma, director da Faculdade de Teologia da UCP e director do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura. Depois de ter estado à frente da Biblioteca e Arquivo da Santa Sé, passou a dirigir o Dicastério para a Cultura e Educação.

 

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