Cantor, professor e maestro

Carlos Ançã (1967-2023): o músico da fé, da vida e do amor

| 25 Jun 2023

Carlos Ançã a dirigir o Coro Gospel: “O maestro e professor requeria dedicação e empenho, mas nunca perdia a sua humanidade. Foto: Direitos reservados

Carlos Ançã a dirigir o Coro Gospel: “O maestro e professor requeria dedicação e empenho, mas nunca perdia a sua humanidade. Foto: Direitos reservados

 

No dia 12 de maio faleceu o maestro Carlos Ançã, e queremos homenagear um homem que usou a música para que a esperança divina fosse visível no mundo. O Carlos estudou no Instituto Gregoriano de Lisboa (IGL), na Escola Superior de Música de Lisboa e mais tarde no Chapitô. Fez parte do Coro do Teatro Nacional de São Carlos, participou nos Shout, foi diretor vocal do musical Amália de Filipe La Féria, participou no Festival da Canção, em 1997, e mais recentemente, foi jurado no programa All Together Now, da TVI. Foi professor de técnica vocal e maestro de vários coros. Criou o Coro Gospel de Lisboa, nome dado pelo Presidente da República, para quem o coro atuou. Um dos seus últimos trabalhos está no disco Marcos Alves, de Cacos. Estas são as coisas que a nossa sociedade valoriza, mas quem conheceu o maestro sabe que todas as oportunidades serviram apenas para que ele pudesse partilhar a esperança que havia em Deus. 

Nascido em Lisboa, a 22 de janeiro de 1967, o maestro teve sempre a presença da música na sua vida pelo lado da família materna. Os seus avós tocavam órgão e cantavam e o seu avô também tocava violoncelo. Desde muito pequeno, quando Carlos cantava na igreja evangélica, ele e uma das suas irmãs criavam, instantaneamente, harmonias perfeitas. Foi neste ambiente de fé e música que Carlos viveu até aos últimos momentos da sua vida, deste lado da eternidade. 

A sua irmã Lídia foi a sua primeira professora de piano. Foi também ela que indicou aos pais que o Carlos deveria seguir para o Instituto Gregoriano de Lisboa (IGL). Para além do piano, o maestro também gostava de flauta de bisel. No entanto, seria com a voz e com os coros que se destacaria. Quem ouvia o Carlos não conseguia evitar a emoção. Foi isso que aconteceu no seu exame final de Canto no IGL, com a sua professora Manuela Canas. Mesmo ouvindo o Carlos cantar centenas de vezes o Caro Mio Ben, não reteve as lágrimas ao ver a entrega e expressão de alma do futuro maestro. A sua voz não estava presa, tinha vibrações inexplicáveis, e uma energia que não se encontra em qualquer um. Quando o Carlos cantava, a presença de Deus manifestava-se, e não havia ninguém que ficasse indiferente. 

Apesar da natureza única da sua voz, o Carlos conseguia estar horas a estudar um vocalizo ou malha, até que a sua voz saísse da forma que desejava. O maestro e professor requeria dedicação e empenho, mas nunca perdia a sua humanidade. Talvez seja por isso que grande parte dos que trabalharam com ele ficaram seus amigos e companheiros de jornada. Exemplo disso é a cantora Selma Uamusse, que em 1999 se cruzou com o maestro numa festa de aniversário. No final da festa, o Carlos Ançã perguntou se podia fazer uma oração. Foi nessa oração cantada que nesse momento as vozes do Carlos e da Selma, que ainda não pertencia a nenhuma igreja evangélica, se uniram, até ao dia em que o maestro faleceu. Foi também através do maestro que a cantora reconhecida internacionalmente veio à fé em Jesus. A história do maestro Carlos Ançã e da Selma pode ser lida na entrevista de Selma ao 7MARGENS. 

Espontaneidade em orar

Carlos Ançã durante um culto evangélico: “Agarrado ao testemunho do pai, ele começou a dedicar-se não só à música, mas através desta, à obra de Deus.” Foto: Direitos reservados

Carlos Ançã durante um culto evangélico: “Agarrado ao testemunho do pai, ele começou a dedicar-se não só à música, mas através desta, à obra de Deus.” Foto: Direitos reservados

Esta espontaneidade em orar e a liberdade que sentia de interceder por alguém é uma das melhores descrições do saudoso maestro. A sua espontaneidade foi vista também na forma como abraçava tantas coisas tão diversas. O Carlos gostava de ter animais de estimação, ao ponto de deixar passarinhos voar pela casa toda. Era também um colecionador, que guardava desde moedas e notas antigas a bilhetes de concertos importantes ou bilhetes de avião. Desde pequeno que era um engenheiro. Dentro de casa montava sistemas, campainhas para o seu quarto, lâmpadas com efeitos especiais, e outras coisas complicadas à volta do seu comboio “Marklin”. Ainda na infância desenvolveu a paixão pelas histórias com muita ação e muito elenco, que imaginava e criava com a sua irmã Isabel. Amava a cultura anglo-saxónica e de estar no aeroporto a olhar as pessoas. Gostava de ver os turistas. Há dois anos pediu à sua irmã para o deixar no aeroporto para que ele pudesse sentir o movimento das pessoas.

Depois do IGL, o maestro ainda passou pelo curso de contabilidade. Carlos cresceu numa altura em que se dizia que a música não fazia carreira. Era isso que pensava o seu pai, mas porque o gene da música estava lá, não só ele, como grande parte da sua família fez carreira na música! Ruben Alves, Levi Alves, Cacos, Sara Alves e Calaim, e ainda Carl Taylor (músico nos Estados Unidos) são sobrinhos de Carlos que seguiram as pisadas da família e do tio. A sua irmã mais nova, Isabel Ançã, está também prestes a lançar um álbum a solo, com o título Empatia, que era precisamente o que o Carlos tinha em abundância. 

Único rapaz entre três meninas, Carlos era muito ligado à sua família. O pai tinha sido duro com ele porque talvez esperasse que o filho fosse um homem de negócios. Mas Carlos era um artista, era espiritual e, em vez de amealhar, ele dava tudo o que tinha. Mas nem por isso a relação de pai e filho não foi especial. Carlos estava de mão dada com o seu pai quando este faleceu, e isso marcou o resto do seu percurso. Agarrado ao testemunho do pai, ele começou a dedicar-se não só à música, mas através desta, à obra de Deus.

Viveu para os outros

Carlos Ançã com o Coro Gospel de Lisboa: “A missão do Carlos foi ser instrumento de Deus naquilo que era o seu talento natural: a música”. Foto: Direitos reservados

Carlos Ançã com o Coro Gospel de Lisboa: “A missão do Carlos foi ser instrumento de Deus naquilo que era o seu talento natural: a música”. Foto: Direitos reservados

 

Porque o maestro percebia a autêntica obra de Deus na terra, não quis passar por este mundo e viver para o seu próprio benefício. Pelo contrário, ele viveu para os outros. Viveu para que a realidade da esperança em Deus fosse visível, através dele, para o bem dos outros. Ele não tinha agendas e por isso o Divino revelava-se, de forma muito autêntica e única. Isso era notório para qualquer pessoa que cruzasse o caminho do maestro. Como partilhou a sua irmã Isabel, “Deus era a maior paixão do Carlos”. Ele animava qualquer ajuntamento, e a sua gargalhada era sonora e alegre. Ele não esperava que alguém viesse pedir a sua ajuda em situações sensíveis. Ele conseguia ouvir o clamor do coração dos que falavam com ele. Como refere o seu amigo Luís Assunção, “servia a todos com o que Deus lhe providenciava. Comprava roupas, mantimentos, agasalhos, mantas, comprava passe, acompanhava as pessoas aos hospitais, tratava dos documentos de estrangeiros no SEF, providenciou alojamentos para os mais necessitados.” 

A missão do Carlos foi ser instrumento de Deus naquilo que era o seu talento natural: a música. Por isso, o maestro Carlos Ançã foi mais do que apenas um músico ou um maestro com currículo: foi um evangelista, um cuidador, um conciliador, um amigo, um incentivador, para muitos, um pastor. Dava-se completamente porque também era assim que ele percecionava Deus. Os seus últimos minutos de vida, antes da doença que o acometeu, foi gasto para outros: comprar uma Bíblia a quem não tinha possibilidades para a ter. Tudo o que ele tinha era para os outros. O mesmo amigo Luís diz que “ninguém poderá falar do Carlos, sem o impacto que ele teve como pessoa, como amigo e sobretudo como homem de Deus.”

O maestro trabalhou até ao fim e pode ser ouvido no álbum do seu sobrinho Cacos, no tema Olá a Deus.

 

Nessa faixa sonora de um curto minuto e vinte e dois segundos podemos sentir a transcendência da voz do maestro. Mas o que fica nas nossas vidas é o peso do amor com que o Carlos presenteou a cada um que cruzou o seu caminho. 

[É possível ouvir a voz do maestro também em Dou-te o meu coração.]

Débora Hossi é gestora de redes sociais; integra a Missão Evangélica Intercultural e considera-se peregrina e apaixonada por Jesus e pelos seus ensinamentos. Contacto: deborahossi@gmail.com

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Irritações e sol na cara

Irritações e sol na cara novidade

“Todos os dias têm muito para correr mal, sim. Mas pode-se passar pela vida irritado? Apitos e palavras desagradáveis, respirações impacientes, sempre com o “não posso mais” na boca.” – A crónica de Inês Patrício, a partir de Berlim

A cor do racismo

A cor do racismo novidade

O que espero de todos é que nos tornemos cada vez mais gente de bem. O que espero dos que tolamente se afirmam como “portugueses de bem” é que se deem conta do ridículo e da pobreza de espírito que ostentam. E que não se armem em cristãos, porque o Cristianismo está nas antípodas das ideias perigosas que propõem.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This