Carlos de Foucauld: a liberdade do despojamento

| 20 Mai 2022

Canonização de Charles de Foucauld e mais nove santos. Foto © Tony Neves

Canonização de Charles de Foucauld e mais nove santos. Foto © Tony Neves

 

Cerca de 45 mil fiéis (alguns idos de Portugal) acorreram à Praça de S. Pedro, no domingo 15 de Maio, para participarem na celebração em que o Papa Francisco canonizou Carlos de Foucauld e mais nove figuras católicas. De entre elas, destacamos Titus Brandsma, um padre e jornalista holandês, conhecido pelo seu compromisso contra a propaganda nazi, morto no campo de concentração de Dachau em 1942, e Lázaro Devasahyam (1712-1752), hindu convertido ao cristianismo e primeiro leigo indiano a ser canonizado.

Na sua homilia, o Papa exortou os presentes a não verem na santidade uma forma idealizada de “heroísmo pessoal”, ou “um objetivo inacessível”, já que ela deve ser procurada e abraçada “no quotidiano, na poeira da rua, nos esforços na vida concreta”.

Como o Papa explicou, “caminhar na santidade é antes de tudo deixar-se transfigurar pelo poder do amor de Deus”. Foi isso que aconteceu no caso de Carlos Foucauld, o qual, para usar as palavras de um homem que estava a assistir à sua canonização na Praça de S. Pedro, “era um grande pecador e tornou-se um grande santo”.

Já aqui referimos alguns dados do percurso da sua vida.

Nascido de uma rica família, depois de uma vida dissoluta, veio a ser oficial de cavalaria, explorador e geógrafo em Marrocos, monge trapista. Continuando insatisfeito, acabou por se retirar no deserto, para aí se tornar eremita em Béni-Abbès, antes de ir viver os onze últimos anos da sua vida em Tamanrasset, um minúsculo povoado perdido no meio do deserto. Depois de ter ficado fascinado pela fé forte e simples da população do Magreb, veio a descobrir que a sua vocação era a de ser “um irmão universal” entre os tuaregues, com quem estabeleceu uma relação de total proximidade. Foi junto dessa tribo que ele descobriu no grande silêncio do deserto o vento do Espírito que vibrava em cada batimento do seu coração. O texto de um concerto com coro e orquestra organizado em sua memória na Basílica de São João de Latrão, ao fim do dia em que foi canonizado, traduzia esta transfiguração com esta força poética: “Tu libertaste o silêncio, a doçura de Deus te modelou, formou-te, transformou-te em borboleta e o teu voo levou aos nossos irmãos a caridade de Deus.”

Na referida homilia da canonização, o Papa formulou o desejo de que os novos santos inspirem vias de diálogo no coração e no espírito daqueles que têm cargos de responsabilidade, de modo a serem “protagonistas da paz e não da guerra”. Foucauld testemunhou que o encontro com o outro, mesmo que muito diferente de nós, não é forçosamente motivo de conflito e de guerra. Foi ele um dos primeiros a praticar o diálogo com os muçulmanos. O seu ermitério tornou-se a “fraternidade” para todos e ele redizia que queria ser visto como o irmão universal, “porque muçulmanos, berberes, judeus, cristãos…todos nós somos filhos de um só Pai”.

Morreu no mais total despojamento, assente numa radical confiança, traduzida na sua “Oração do abandono”, que termina desta forma: “é para mim uma necessidade de amor dar-me, entregar-me sem medida nas tuas mãos, com uma infinita confiança, porque Tu és o meu Pai”.

Ela continua a ser hoje a oração comum de toda a Família Espiritual Carlos de Foucauld, com cerca de 13 mil membros, espalhados por todo o mundo, distribuídos em congregações religiosas e associações de padres e fiéis. Cada um a seu modo procura testemunhar a simplicidade da vida de Nazaré, sem qualquer posição social de relevo, sendo, através desta obscuridade e inutilidade aparente, testemunhos da fraternidade universal sem limites de fronteiras, de culturas e de religiões.

 

Manuel António Ribeiro é professor aposentado e faz voluntariado na docência de Português para imigrantes e refugiados. É membro do Metanoia e animador de catecumenado de adultos na Igreja Católica.

 

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