Carlos de Foucauld, antídoto contra a autorreferencialidade

| 11 Mai 2022

Carlos de Foucauld “tornou-se um modelo de referência no universo da santidade cristã do nosso tempo, ao inaugurar um exemplo de vida contemplativa não enclausurada em mosteiros, mas no coração do mundo”.

 

O Papa Francisco irá canonizar Carlos de Foucauld, no próximo domingo, 15 de maio, depois de este ter sido declarado venerável por João Paulo II  em 2001 e proclamado beato em 2005 por Bento XVI. Desde o início do seu pontificado, este Papa já procedeu à beatificação de 1400 pessoas e à canonização de mais novecentas. Esta sua opção, que convida a reparar na proximidade dos “santos ao pé da porta”, homens e mulheres comuns, assenta no discernimento de que a santidade não está reservada a super-humanos. Como afirma na sua encíclica Gaudete et Exultate (nº 70), santo é aquele que, antes de tudo, é um “pobre de coração”, à imagem de Cristo. Talvez por isso, na encíclica Fratelli Tutti ele vê em Carlos de Foucauld “uma pessoa de profunda fé, que, a partir da sua experiência de Deus, realizou um caminho de transformação até se sentir irmão de todos” através de “uma identificação com os últimos, os mais abandonados no interior do deserto africano” (n. 286 e 287).

Para melhor se perceber o seu percurso de santidade, recordem-se alguns dos passos da vida deste novo santo. Aos dezasseis anos, Carlos de Foucauld perde a fé, permanecendo numa grande indiferença religiosa durante mais de doze anos. Vive a sua juventude a delapidar a rica herança, entregando-se a uma vida licenciosa de excentricidade e de excessos mundanos. Depois de ingressar no serviço militar aos 18 anos, é enviado para a Argélia, onde se revelou um oficial muito apreciado por chefes e soldados. Seguiu-se a sua participação numa exploração de territórios remotos de Marrocos, antes de ter regressado a França, onde continuou a procurar encontrar respostas para os seus desassossegos.

A fé de uma tia e de sua prima Maria de Bondy aviva-lhe as questões que acicatam a sua inquieta e ardente procura. Entra nas igrejas de Paris para repetir esta oração: “Meu Deus, se existes, faz com que eu te conheça.” Vai à igreja de Santo Agostinho para partilhar suas dúvidas com o padre Huvelin, mas este, ao aperceber-se de que as suas buscas se situam a um nível muito mais profundo que o doutrinário, convida-o a confessar-se e a comungar.

Depois de muito ter peregrinado pela vida e pelo mundo, começou a operar-se uma radical mudança dentro de si. Seduzido pela pobreza de Jesus durante os trinta anos de vida oculta de Nazaré, faz uma peregrinação à Terra Santa e decide fazer-se monge trapista. Pede, contudo, para deixar a Trapa, por considerar que a pobreza de Jesus em Nazaré não seria semelhante à que se praticava na clausura, mas às condições de vida das famílias muito pobres que viviam à volta do mosteiro. Vai viver como criado das Clarissas, cuidando da horta e entregando-se à contemplação num casebre.

Compreendendo pouco a pouco que para amar como Jesus de Nazaré, teria de fazer-se próximo dos mais abandonados, depois de ser ordenado padre, vai para o Sara argelino. Estabelece-se em Beni-Abbès, perto da fronteira com Marrocos, numa vida oculta e pobre, onde se entrega a longas horas de adoração eucarística. Quer gritar o Evangelho com a vida, considerando que a bondade de Deus deve ser proclamada pelo modo de relacionamento com os outros. Ao longo do dia acolhe pobres, doentes e soldados franceses, sem distinção de raça ou religião. Alegra-se por as pessoas começarem a dar à sua casa o nome de “fraternidade”, pois sente que a sua vocação é a de ser “irmão universal”. Reage contra a injustiça da escravatura, ainda praticada nessas paragens com a cumplicidade hipócrita do Governo francês, considerando que, diante de tal desumanidade, não podemos ficar como “cães mudos”.

Para estar o mais perto possível do povo mais desprotegido, deixa Beni-Abbès, optando por ir viver totalmente integrado na vida quotidiana de uma tribo tuaregue, num remoto aldeamento, em Tamanrasset, no sul da Argélia.

Depois de estalar a Grande Guerra 1914-18, Carlos de Foucauld chega a pensar ir para a frente do combate em França, mas não quer abandonar os seus amigos tuaregues nesse tempo de perigo em que as diferentes tribos tomavam partido pelas diversas potências dominantes. Constrói um fortim para proteger as pessoas da aldeia no caso de serem atacadas. No contexto de lutas entre grupos rivais, um bando conseguiu o assalto e o saque do fortim, deixando Foucauld manietado. Um adolescente desse grupo, que ficara encarregado de o vigiar, fica desorientado quando se apercebeu da chegada de um grupo rival e atinge-o com um disparo na cabeça. Foi nesse remoto lugar escondido, que ele, à imitação de Jesus de Nazaré, se manteve próximo dos irmãos muçulmanos até ao sacrifício da vida, no dia 1 de dezembro de 1916.

Esse seu exemplo tornou-se um modelo de referência no universo da santidade cristã do nosso tempo, ao inaugurar um exemplo de vida contemplativa não enclausurada em mosteiros, mas no coração do mundo. Uma tal modalidade, assente numa mística de imitação da vida oculta de Jesus em Nazaré, continua a inspirar as várias fraternidades, que entre nós vivem a vocação, religiosa ou laical, através de uma vida simples e comum, nunca afastada da condição quotidiana dos mais pobres. Os seus membros vivem ou sobrevivem à custa do seu trabalho, graças aos pequenos salários auferidos em profissões mais ou menos indiferenciadas, tal como acontece aos vizinhos com quem mantêm relações de total proximidade. Habitam nos bairros mais pobres, partilhando as condições precárias dos demais residentes. Compartilham o seu estilo de vida, suas expectativas e sofrimentos, sem olharem às suas crenças ou estatutos familiares. Assumem compromissos com o mundo, a partir de uma vida em comunhão com os mais desfavorecidos. Reservam tempos fortes à oração e adoração eucarística, onde buscam forças para se dedicarem cada vez mais a Deus e aos irmãos. É o que tem acontecido entre nós com as Irmãzinhas de Jesus, em Fátima e em bairros de Lisboa, como o do Prior Velho, ou com os Irmãozinhos de Jesus, em Setúbal. Igual testemunho de fraternidade universal continua a ser dado com a Fraternidade Secular Carlos de Foucauld, que congrega membros de vários pontos do país.

A Igreja deve estar muito grata a quem, através destas opções vocacionais, continua a manter vivo o testemunho do Irmão Carlos, procurando, como ele, encontrar Deus numa quotidiana vida oculta para aí “gritar o Evangelho com a vida”.

Ao referir o Irmão Carlos como alguém que “quis ser pequeno para ser irmão de todos, a começar pelos excluídos e descartados”, Edson Damian, bispo de São Gabriel da Cachoeira, no Brasil, considera que ‘a busca do último lugar’, assim testemunhada de forma existencial e geográfica, “apresenta-se hoje como um antídoto à autorreferencialidade da Igreja que se expressa no clericalismo, no carreirismo, no autoritarismo e no mundanismo de seus ministros”.

Este novo santo, que o teólogo Yves Congar considerou como “um farol que a mão de Deus acendeu no limiar do século XX” estimula um modo de presença da Igreja em estreita comunhão com pessoas de outras religiões e culturas, através de uma vida simples e próxima dos mais desfavorecidos, sem preconceitos moralizantes.

 

Manuel António Ribeiro é professor aposentado e faz voluntariado na docência de Português para imigrantes e refugiados. É membro do Metanoia e animador de catecumenado de adultos na Igreja Católica.

 

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