Carlos de Foucauld, o novo santo, assassinado quando vivia entre os tuaregues

| 28 Mai 20

Carlos de Foucauld

Carlos de Foucauld

 

De soldado folgazão a monge no deserto, tornou-se pioneiro da vida religiosa entre os mais pobres e os marginalizados – no caso, os tuaregues no Norte de África. O Papa aprovou agora uma cura que permite a canonização de Carlos de Foucauld.

 

O inspirador dos Irmãozinhos e Irmãzinhas de Jesus, o francês Carlos de Foucauld, tem finalmente abertas as portas para a canonização como santo da Igreja Católica, 104 anos depois de ter sido assassinado em Tamanrasset (Sara argelino), em parte graças ao impulso que o Papa Francisco deu ao processo. O Papa aprovou, quarta-feira, 27 de Maio, a cura inexplicada apresentada pela Congregação para a Causa dos Santos e que abre as portas à canonização. Falta agora saber a data da cerimónia.

Em Dezembro de 2016, quando se completaram 100 anos da sua morte, o Papa Francisco dissera, acerca de Carlos de Foucauld: “Um homem que venceu tantas resistências e deu um testemunho que fez bem à Igreja. Peçamos que nos abençoe do céu e nos ajude a caminhar nos caminhos de pobreza, contemplação e serviço aos pobres.”

Na altura da sua beatificação, há 15 anos (13 de Novembro de 2005), em Roma, o então Papa Bento XVI referiu-se ao etnólogo e linguista que se tornaria eremita que “através da sua vida contemplativa escondida em Nazaré [onde viveu uma temporada, Carlos] encontrou a verdade da humanidade de Jesus (…) convidando-nos à fraternidade universal, vivendo mais tarde no Sara, dando-nos exemplo do amor a Cristo (…) e pondo a eucaristia e o evangelho no centro da existência”.

Carlos de Foucauld (1858-1916), cuja vida e pensamento se inspirou na espiritualidade de Francisco de Assis, sonhou com o projecto de criar comunidades “semelhantes às comunidades dos primeiros tempos na Igreja”. A sua ideia, que nasceu numa visita à Terra Santa depois de ter deixado o exército, acabou por dar origem a dez congregações religiosas, entre as quais as fraternidades dos Irmãozinhos e Irmãzinhas de Jesus, todas elas criadas só depois da sua morte.

O irmão Carlos viveu num eremitério entre os tuaregues do deserto do Sara e queria que a sua vida fosse a de um “irmão universal”. Acabaria, com a sua experiência de vida entre os mais pobres, por se constituir como um pioneiro da renovação das ordens religiosas no século XX.

 

“Uma profunda agitação”

Nascido em Estrasburgo, em Setembro de 1858, filho de conde, Charles-Eugène de Foucauld fica órfão aos seis anos. Em 1876 vai para o exército. Aos 22 anos, parte para a Argélia, então colónia francesa. Não deixara, no entanto, a fama de “folgazão” com que ficara conhecido na Escola de cavalaria de Saumur.

Ao fim de três anos, a sua vida muda de rumo, abandona o exército e dedica-se a fazer explorações geográficas em Marrocos. É neste contacto mais directo com os muçulmanos que ele sente “uma profunda agitação” e começa a colocar a pergunta que abandonara há anos: “Será que Deus existe?”

Em 1886, Foucauld converte-se, tenta sucessivamente a vida religiosa em vários mosteiros. Parte em 1900 para Jerusalém e Nazaré, regressa um ano depois à Argélia, passando a viver no eremitério de Beni Abbès.

A sua ideia é imitar o estilo de vida simples de Jesus, em Nazaré. “Sonho com qualquer coisa de muito simples, grupos pequenos e semelhantes às comunidades dos primeiros tempos na Igreja… viver a vida de Nazaré, no trabalho e na contemplação de Jesus… ser uma família pequena, onde tudo seja muito humilde e simples.”

Nos anos seguintes viverá entre mais dois eremitérios e pequenas viagens à França e no interior da Argélia. Constrói o seu dia a dia na ajuda aos mais pobres dos nómadas do deserto. Não pretende “instruir” os muçulmanos na religião cristã nem convertê-los, mas dar-lhes “a conhecer, mais com os actos do que pelas palavras, a moral cristã”.

Ao mesmo tempo, Carlos de Foucauld escreve obras sobre a linguística e a cultura tuaregue, que se constituirão como referência nos estudos sobre a matéria, e traduzindo ao mesmo tempo numerosos poemas e textos da cultura nómada.

Precursor do diálogo inter-religioso, apesar da sua proximidade com os nómadas do deserto e do apoio que dava aos mais pobres, o emergir da I Guerra Mundial cria-lhe dificuldades. Acabará vítima do conflito mundial e da luta que diversos grupos muçulmanos já travavam contra a ocupação francesa. Atacado por um grupo hostil aos cristãos, morre assassinado a 1 de Dezembro de 1916.

 

“Respeitar a cultura diferente”

Carlos de Foucauld

Ícone representando Carlos de Foucauld. Direitos reservados.

Quando foi beatificado, em Novembro de 2015, vários tuaregues estiveram presentes na cerimónia de Roma, com o véu tradicional e túnicas azuis. O então Papa Bento XVI, que os recebeu no final da cerimónia, disse que a vida de Carlos de Foucauld é um convite a todos os que desejam a “fraternidade universal”.

Na cerimónia, que foi presidida pelo cardeal português José Saraiva Martins, então responsável pela Congregação da Causa dos Santos, este sublinhou a “simplicidade” daquele que é conhecido como o irmão Carlos, acrescentando que Foucauld levou o seu compromisso ao ponto de “testemunhar Jesus no respeito pelas outras experiências religiosas” e a “reafirmar o primado da caridade vivida na fraternidade”.

As comunidades de frades e freiras que se inspiram na sua vida e testemunho vivem normalmente em bairros degradados, em meios pobres ou junto de populações desfavorecidas. Em Portugal, por exemplo, há uma comunidade dos Irmãozinhos em Setúbal, e três comunidades de irmãs em Chelas (Lisboa), Apelação (Loures) e Fátima.

“A primeira coisa a fazer é respeitar uma cultura diferente da sua, de procurar compreender a luz da verdade e descobrir nela o projecto de Deus sobre cada ser humano”, escrevia a irmã Magdeleine Hutin, ou Magdeleine de Jesus, que criou as Irmãzinhas de Jesus a partir da proposta de Carlos de Foucauld. “É somente a partir do respeito das culturas, das civilizações e das religiões que será possível revelar aos outros o amor de Deus.”

O caminho para chegar à canonização de Foucauld não foi isento de dificuldades, que Vázquez Borau recorda no Religión Digital.

No mesmo dia em que foi aprovado o decreto de canonização do irmão Carlos, o Papa aprovou ainda outras duas canonizações e cinco beatificações. Uma das novas beatas será Pauline Jaricot (1799-1862) que se converteu aos 17 anos e, sem nunca se consagrar à vida monástica, se dedicou à evangelização, preocupando-se em apoiar os missionários. Acabou por fundar a Obra da Propagação da Fé, que acabou por ganhar dimensão internacional.

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