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“Carta a Nikola”– um filme-poema para um filho e para a Humanidade

“Esse mar-cemitério que guarda nas suas entranhas escuras e revoltas, a vida de milhares e milhares de seres humanos que ao longo dos anos tentaram alcançar a Europa. É deles que nos fala Hara Kaminara, ela que percorreu o Mediterrâneo abordo do navio de resgate Aquarius.” Foto retirada do Trailer Oficial do filme “Carta para Nikola”

 

Hoje falo-vos de um filme-poema-carta que tive a oportunidade de ver esta semana por iniciativa da Margarida Marques que levou este filme ao Parlamento Europeu.

Filme-poema-carta. É assim que chamo a ‘Carta para Nikola’, o filme da jovem realizadora grega Hara Kaminara. Não é um filme de circuito comercial, e não é só um filme.

Logo à primeira imagem, percebo que somos como que convidados a entrar na intimidade de um olhar. ‘Há que fazê-lo, portanto, com respeito’, penso para mim. E sinto a reverência que me acompanha quando entro em casa de alguém especial, ou de alguém que não conheço. Quando nos é dado o privilégio de entrar no espaço privado de uma pessoa, é sempre algo extraordinário, porque nada a obriga a receber-nos num espaço que é o seu. ‘Merece-nos recato’, continuo a pensar para mim, ‘por oposição ao salto de quem mergulha no sofá da sua própria casa’.

Olho as primeiras imagens nesta atitude de respeito, que percebo ser comum a todos os que estão na sala. (Não somos muitos, é fim de tarde num dia que foi certamente longo para todos nós, e estamos no parlamento europeu numa sala que emerge ao fundo de um percurso labiríntico de andares e corredores. Mas estamos e é isso que importa).
As primeiras imagens mostram-nos o que se assemelha à visão limitada e turva de alguém que está por trás de uma escotilha, num barco em andamento, tendo por horizonte as ondas do mar. Há algo de ventre materno nessas imagens. Uma metáfora que se volta a repetir em outras imagens do filme, como se por elas tivéssemos o vislumbre que nos dá uma ecografia ao interior aquático e escuro de um útero prenhe de vida. O vislumbre da vida, e da morte. Morte sim, porque, percebo bem, o útero faz paralelo com o Mar Mediterrâneo. Esse mar-cemitério que guarda nas suas entranhas escuras e revoltas, a vida de milhares e milhares de seres humanos que ao longo dos anos tentaram alcançar a Europa. É deles que nos fala Hara Kaminara, ela que percorreu o Mediterrâneo abordo do navio de resgate Aquarius (navio que entre 2016 e 2018 salvou 29 523 pessoas – não há direito aqui a fazer arredondamentos, porque estamos a falar de vidas e todas contam. 29 523). Hara percorreu o Mediterrâneo antes de saber que o seu pequeno Nikola começava a navegar dentro das suas entranhas, e registou com a sua máquina fotográfica centenas e centenas de rostos. Como se através desses rostos procurasse que todos, os vivos e os mortos, fossem poupados à mera dissolução num mar de números, de estatísticas, de curvas e de gráficos.

Hara conta a dada altura no filme como passavam os dias a perscrutar com os binóculos a linha do horizonte, em busca de pequenos pontos negros, porque sabiam que esses pontos negros depressa se tornariam em silhuetas de gente à deriva, das quais emergiam rostos, até por fim se entrar na profundeza dos olhos. Esse zoom implacável, a que ela assistiu na primeira pessoa, e que a maioria de nós apenas conhece a partir de testemunhos como o seu. Esse zoom implacável, que nos coloca frente a frente com outro ser humano. Olhos nos olhos, seria interessante ver quantos dos decisores políticos que nesta Europa civilizada têm optado pela criminalização daqueles que na sociedade civil se dedicam ao resgate de migrantes, quantos, dizia, teriam então a coragem de proclamar a um migrante, a um ser humano ‘tu não prestas. Não tens valor. Morre’.

Quando o filme termina, estamos em silêncio. Isabel Santos, também ela incansável lutadora pelos Direitos Humanos, lança a provocação ‘deveríamos todos escrever mais ‘cartas a Nikola’ para que ninguém se esqueça, para que não nos esqueçamos nunca!’
‘Quando se faz a autópsia a estes corpos’, diz-nos Pietro Bartolo ‘são exatamente iguais aos nossos’. Pietro, o médico de Lapeduza sabe bem o que diz. Fez um número sem fim de autopsias a corpos naufragados, muitos deles de crianças. ‘Crianças lindas, lindas como o teu Nikola, como os meus netos, lindas, e muitas delas bem vestidas, porque as famílias queriam que chegassem em festa e dignamente à terra prometida, queriam dizer à Europa “vejam as nossas crianças são como as vossas”.’ E Hara começa a chorar. E naquela sala sabemos que é talvez a única coisa digna que todos podemos fazer, não termos vergonha das nossas emoções. Bartolo sabe isso há muitos anos, e diz ‘nunca me habituarei’. A ver a morte de tanta gente. Gente pobre, gente com outra cor, gente com outros credos. ‘A Europa tem um problema, mas não é com o refugiado ou o migrante’ atrevo-me a dizer, ‘O seu problema é consigo mesma, com o seu passado mal digerido, é com esse Outro que é negro, muçulmano, e que para mais é pobre, porque se é pobre nem sequer justifica que se invista em pontes de diálogo’. Para esse Outro, fica o fundo escuro e frio de um mar como o Mediterrâneo.
‘Não me habituarei nunca a ver tanta morte’, volta-me a dizer Bartolo, já no final da sessão, ele que antes de ser médico foi pescador, e que sonha que o Mediterrâneo que tanto lhe deu, que lhe deu o sustento e que lhe permitiu outrora estudar e ser médico, volte a ser mar de esperança e não de morte. ‘Nunca nos podemos habituar’, repito, porque no dia em que víssemos sofrimento e morte já sem pestanejar, então seria porque o naufrágio da própria Humanidade tinha começado sem que nos tivéssemos dado conta. É para evitar essa anestesia auto-destruidora, que Bartolo, que Hara, e tantos outros, continuam a lutar. Para que todos vejam para lá do ponto negro perdido na linha do horizonte, para que todos encontrem os olhos que estão no rosto de cada um dos milhares e milhares de migrantes, que fogem às guerras, à fome, à pobreza, que não são loiros, não têm olhos azuis, não são de pele clara, não partilham os nossos credos, e não trazem visa no bolso.

 

Isabel Estrada Carvalhais é deputada pelo Partido Socialista ao Parlamento Europeu, professora associada da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho e doutorada em Sociologia.

Este texto foi inicialmente publicado no Correio do Minho

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