Ao Grupo VITA,
As recentes declarações da vossa coordenadora, Rute Agulhas, afirmando que o processo de atribuição das compensações financeiras “tem sido um grande desafio”, exigem uma leitura crítica e uma resposta clara por parte de quem viveu o processo não como desafio técnico, mas como experiência profundamente dolorosa.
Quando se afirma que “a maioria das vítimas e sobreviventes sente como positivo este processo”, é utilizada uma lógica estatística que não pode servir de medida para a justiça em matéria de abuso sexual de crianças. Neste contexto, não há maiorias que absolvam exclusões. Uma única vítima desconsiderada, desacreditada ou afastada por critérios administrativos representa uma falha grave do sistema e da sua missão declarada.
A referência a vítimas que “se sentiram menos confortáveis” reduz, por via da linguagem, experiências que foram de revitimização institucional. Não se tratou de desconforto, mas de decisões sustentadas em alíneas restritivas, numa leitura excessivamente formalista do regulamento, que acabou por hierarquizar sofrimento, exigir prova impossível e reproduzir mecanismos que durante décadas protegeram a instituição em detrimento das vítimas.
A anunciada revisão do regulamento, sem reconhecimento explícito de erros, sem assunção de decisões injustas e sem garantia de alteração das alíneas mais excludentes, corre o risco de ser apenas um gesto administrativo. O facto de os pedidos continuarem a chegar não valida o modelo; pelo contrário, demonstra que a ferida permanece aberta e que o processo não respondeu, nem responde, de forma adequada a todos.
A compensação financeira não pode ser tratada como um problema de gestão ou de equilíbrio institucional. Para as vítimas, ela representa reconhecimento, responsabilidade e dignidade. Quando esse reconhecimento falha, o que fica não é neutralidade: é mais uma forma de silêncio imposto.
O Grupo VITA foi criado com a promessa de escutar, reparar e proteger. Essa promessa só se cumpre plenamente quando existe coragem institucional para reconhecer falhas, rever decisões injustas e colocar a verdade e a dor das vítimas acima de qualquer regulamento.
Sem esse compromisso, não há verdadeira justiça reparadora — apenas a sua aparência.
Com respeito,
mas sem silêncio.
Cristina Amaral e Paulo Silva são sobreviventes de abusos da Igreja Católica em Portugal.










