Papa falou contra “machismo” e clericalismo

Carta do Sínodo pede escuta, muita escuta para 2024, “a começar pelos mais pobres”

| 25 Out 2023

Os cardeais Prevost e Dieudonée e o bispo Broglio, ao lado da teóloga de Nora Kofognotera Nonterah, teóloga do Gana. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

A XVI assembleia do Sínodo dos Bispos, a primeira a incluir um quarto de participantes padres, religiosas e leigos, divulgou nesta tarde de quarta-feira a sua “carta ao povo de Deus” – que é como quem diz, a todos os católicos do mundo. O Sínodo, que termina sábado esta sua primeira sessão (a segunda decorre em Outubro do próximo ano), “em muitos aspectos, foi uma experiência sem precedentes” – pelo diálogo que se estabeleceu, pela diversidade de experiências, pelo clima de escuta. E, “para progredir no seu discernimento, a Igreja precisa absolutamente de escutar todos, a começar pelos mais pobres”, destaca o documento, que pretende ser uma forma de mobilizar os católicos para mais um ano de debate e participação.

A carta – divulgada na tarde em que o Papa falou na aula sinodal contra os que “desfiguram o rosto da Igreja com atitudes machistas e ditatoriais” – enumera depois um conjunto de situações que devem ser escutadas: “aqueles que não têm direito à palavra na sociedade ou que se sentem excluídos, mesmo da Igreja”; também “as pessoas que são vítimas do racismo em todas as suas formas, especialmente, nalgumas regiões, os povos indígenas cujas culturas foram desprezadas”; ainda “aqueles que foram vítimas de abusos cometidos por membros do corpo eclesial”, com o empenhamento “para que isso não volte a acontecer” – isto, no mesmo dia em que se soube que, na Eslóvenia, e com o acordo de responsáveis do Vaticano, o ex-jesuíta padre Marko Rupnik foi aceite para ser integrado como padre da diocese de Koper (ver outra notícia no 7MARGENS).

Depois, noutros passos, a linguagem da carta como que trai o próprio sentido do Sínodo, identificando a “Igreja” com o corpo clerical e hierárquico. É o caso, quando diz: “A Igreja precisa de escutar os leigos, mulheres e homens (…): o testemunho dos catequistas, que em muitas situações são os primeiros anunciadores do Evangelho; a simplicidade e a vivacidade das crianças, o entusiasmo dos jovens, as suas interrogações e as suas chamadas; os sonhos dos idosos, a sua sabedoria e a sua memória.” Ou ainda quando fala de a Igreja “colocar-se à escuta das famílias, as suas preocupações educativas, o testemunho cristão que oferecem no mundo de hoje”. E também quando se refere à importância de ela “acolher as vozes daqueles que desejam envolver-se em ministérios leigos ou em órgãos participativos de discernimento e de tomada de decisões”.

Talvez não seja por acaso que isto aconteça: a mudança, qualquer mudança, é um processo lento; o discurso católico acentua cada vez mais a igual dignidade de todos e todas no baptismo, mas quem fala primeiro em todas as conferências de imprensa continuam a ser os cardeais, depois os bispos, os padres, as religiosas e os leigos ou leigas. As mulheres falam sempre no final, apesar de o tema da igualdade do baptismo entre todos os crentes ser um dos que tem aparecido nas conversas e debates a propósito deste sínodo. Todos irmãos, como diz o título da encíclica do Papa, mas também em muitos detalhes do modo de agir diário da Igreja (indicações litúrgicas, comunicados, referências várias), os intervenientes são apresentados com todos os títulos de eminência reverendíssima (os cardeais), excelência reverendíssima (bispos), doutor e doutora…

 

Sentar-se a escutar as mulheres

Nora Kofognotera Nonterah, do Gana, teóloga de Ética Comparativa.

Nora Kofognotera Nonterah: É preciso a Igreja sentar-se a escutar o que as mulheres do Sul global têm a dizer. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Na conferência de imprensa desta quarta-feira, a última a falar, depois de dois cardeais e um bispo, foi Nora Kofognotera Nonterah, do Gana, teóloga na área da Ética Comparada, com investigação também na área do diálogo inter-religioso e dos processos de pacificação. Afirmando que se tem sentido escutada no sínodo, enquanto leiga, mulher e mulher africana, numa Igreja que muitas vezes, no passado, não deu voz nem lugar à sabedoria das mulheres africanas, Nonterah acrescentou: “Uma Igreja sinodal tem de estar disposta a sentar-se junto das mulheres, especialmente das leigas do sul global, para renovar a imaginação da Igreja”.

Nonterah defendeu ainda que a Igreja deve optar preferencialmente pelos leigos – incluindo as mulheres – em áreas da educação da Igreja, como a teologia, o direito canónico, a doutrina social ou o ministério de liderança das comunidades. “Isto deveria tornar-se a norma e a prática de uma Igreja sinodal”, afirmou.

Das respostas a uma das perguntas veio mais um sinal da lentidão da mudança: Joshua J. McElwee, do National Catholic Reporter, dos Estados Unidos, quis saber o que pensavam, do que afirmara a teóloga do Gana, os três clérigos ali presentes: os cardeais Robert Francis Prevost, prefeito do Dicastério dos Bispos, e Dieudonné Nzapalainga, arcebispo de Bangui (República Centro-Africana), e o bispo castrense dos Estados Unidos, Timothy Broglio.

O tema é um processo “em construção”, as mulheres já fazem muita coisa na Igreja e têm um papel “tremendo” por exemplo nas escolas católicas dos Estados Unidos, as categorias da Igreja são diferentes das do resto da sociedade e não se pode mudar uma tradição com dois mil anos, responderam todos. Isto, mesmo sabendo que os exegetas bíblicos apontam cada vez mais o papel de líderes que o apóstolo Paulo atribuiu a várias mulheres em comunidades por ele fundadas.

Nora Nonterah ainda recordara o papel e significado da mãe de Jesus, dizendo que tendia a acreditar que “as mulheres africanas podem ensinar a Igreja sobre como ser mãe para todos, como ser uma mãe visionária para todos os seus filhos”.

 

O “clericalismo institucionalizado”

A aula sinodal vazia, num dos momentos de pausa: a assembleia quer ver os católicos a participar durante o próximo ano. Foto: Direitos reservados.

 

Pouco depois da divulgação da carta e das afirmações da teóloga ganesa diante dos jornalistas, o Papa Francisco interveio na assembleia criticando o “machismo” de clérigos e enaltecendo o papel das mulheres na transmissão da fé, “geralmente em dialeto feminino”, nas famílias: “São as mulheres quem sabe esperar, sabem descobrir os recursos da Igreja, do povo fiel, arriscam para lá dos limites, talvez com medo mas corajosas, e no alvorecer de um dia que começa, aproximam-se de um sepulcro com a intuição (ainda não esperança) de que possa haver algo de vida.”

De acordo com o texto divulgado ao final da tarde aos jornalistas, Francisco acrescentou que o povo “segue em frente com paciência e humildade, suportando o desprezo, maus-tratos, marginalizações por parte do clericalismo institucionalizado”. E exemplificou: “Com quanta naturalidade falamos de príncipes da Igreja ou de promoções episcopais, como subidas na carreira”. Ou ainda: “Basta ir às alfaiatarias eclesiásticas de Roma para ver o escândalo de jovens sacerdotes experimentando batinas e chapéus, ou albas e roquetes com rendas.”

Atitudes como essas “ultrapassam o seu serviço e maltratam o povo de Deus”, acrescentou, condenando ainda a “lista de preços” dos serviços sacramentais em muitas paróquias, pois a Igreja não é um “supermercado da salvação”.

Regressemos à carta, que recorda também a importância de, neste próximo ano, até Outubro de 2024, recolher também a palavra e experiência dos padres e dos religiosos e de fazer com que este tempo permita a todos os católicos “participar concretamente no dinamismo de comunhão missionária indicado pela palavra ‘sínodo’.” E, defendendo-se dos detractores desta assembleia em concreto, a carta recorda:” Não se trata de uma questão de ideologia, mas de uma experiência enraizada na Tradição Apostólica”, ou seja, que vem do tempo dos apóstolos de Jesus e das primeiras comunidades cristãs. Citando o Papa Francisco, a carta conclui: “Comunhão e missão correm o risco de permanecer termos algo abstractos se não cultivarmos uma práxis eclesial que exprima a concretude da sinodalidade (…), promovendo o envolvimento real de todos e de cada um.”

Num dos parágrafos, a mensagem relembra o “contexto de um mundo em crise” de “feridas e escandalosas desigualdades ressoaram dolorosamente” nos participantes e deram aos trabalhos “uma gravidade peculiar”. Num outro, recorda que algumas pessoas sem-abrigo, convidadas pelo Papa a dizer o que esperavam do Sínodo, “responderam: ‘Amor!’.”

“Os desafios são muitos, as questões numerosas: o relatório de síntese da primeira sessão esclarecerá os pontos de acordo alcançados, destacará as questões em aberto e indicará a forma de prosseguir os trabalhos”, lê-se ainda no texto. Ou seja, sábado, no fecho desta sessão, saberemos o que é proposto aos católicos do mundo inteiro.

(O texto completo da carta pode ser lido no portal Vatican News.)

 

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