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Carta sem resposta

| 29/01/2025

Comecei por nunca falar. Verdadeiramente, acreditei que as ameaças nunca avançariam para a concretização do que propunham. A intermitência dos extremos – carinho extremo e ameaça extrema – acabaram por me enfiar num cerco movediço do qual era impossível sair.

A ameaça assustava, eu corria. Na porta de saída ele chorava o arrependimento, rasgava a fraqueza do peito a sangrar em soluços, pedia a morte, acusava dor de traumas – talvez nunca vividos – e … voltava ao colo, numa ilusão de última vez; de amor eterno e mudado, maduro. Jurava.

Eu nunca falei. Eu estava só a aprender o que era o amor. O que era a primeira vez. O que era a primeira relação. Até onde ia o direito de quem se instala na nossa intimidade. Aquele lugar ao qual ninguém chega preparado.

Eu não falava. Eu não sabia o que era normal e anormal. Eu não sabia o que era próprio ou impróprio. Eu não sabia se ele era doente ou dorido, louco ou inseguro, traumatizado ou ignorante.

Cada um ama à sua maneira, dizia-se. Ele amava como sabia. E eu? Que nem sabia como é que o amava?

Os homens são mesmo assim, brutos, dizia-se também. E eu tentava adivinhar, nas apalpadelas ao escuro, que linhas eram essas que se transpunham em nome do amor.

Se apanham e voltam para eles, é porque gostam de apanhar, dizia-se também. E eu olhava no espelho da casa de banho o meu peito marcado para sempre, e eu a não gostar da dor do tempo da ferida, nem do tempo de agora, cicatrizes eternas. E eu sem saber como era esta coisa de ser ou não ser; amar ou não amar; permitir ou não permitir.

Eu sufocada na movedicidade do cerco, a só respirar quando o amor era o que devia ser. Eu a querer esses momentos em permanência. Eu a ser caranguejo branco enterrado na areia húmida da rebentação.

“Eu sufocada na movedicidade do cerco, a só respirar quando o amor era o que devia ser. Eu a querer esses momentos em permanência. Eu a ser caranguejo branco enterrado na areia húmida da rebentação.” Designed by Freepik

Um dia falei. Perguntei à Inês se era normal o L. me queimar o peito com as pontas dos cigarros porque eu tinha estado a falar com o Pedro, ou o Tiago, ou o Emanuel, ou outro qualquer. A Inês olhou-me com cara de caso, boca semi-aberta à espera de força para me perguntar se eu estava a falar a sério, olhos assustados, daqueles que não pestanejam por largos segundos e cujas sobrancelhas se convertem num acento circunflexo. Foi a cara dela que me explicou que, para além de não ser normal, era terrorífico.  Foi isso, a Inês olhou-me com cara de filme de terror.

Há quanto tempo, ela perguntou. Começou há pouco, menti. Por que é que menti? Por que é que se mente em nome de vergonhas inocentes?

No dia em que eu e a Inês estávamos no shopping a comprar roupa para a festa de passagem de ano, o L. entrou na loja aos gritos, com ofensas e predicados sem sentido nenhum. Pegou no meu telemóvel, jogou-o ao chão, partiu-o. Lançou, pelos ares, as roupas das estantes com a fúria de um real injustiçado. Ele é doente, eu pensei.

Eu com a cara que a Inês tinha feito, no dia em que lhe contei das queimaduras de cigarro, a ouvir os gritos ao fundo, muito longe. As cores a turvarem-se no meu campo diminuto de visão. Eu a ser estátua gelada. O segurança a fechar a grade da loja. A empregada a trazer-me água para me acalmar, a grade a fechar. O L. agarrado pelos outros seguranças do lado de lá. Eu a perguntar a ninguém, O que é que aconteceu.

A polícia chegou, recolheu dados por todo o lado e abalou.

No meu quarto, chorei sozinha. Sozinha, não. Chorei com a culpa inteira. Chorei com a negligência. Chorei com o erro a cometer-se sem saber. Chorei com a pena, com a desumanidade, com a minha falta de aptidão para entender o que era, ou não, o amor.

No dia seguinte, no posto da GNR, o interrogatório durou três longas horas em sala ártica. A queixa seguia. Disseram que o crime era público, tinha sido presenciado pelos seguranças, inclusive.

Eu cansada, sem forças para perceber por onde daria os próximos passos. Eu com medo. Eu a pedir proteção. Eu desprotegida. Eu a ouvir, Querias estar protegida escolhesses um gajo decente para ir para a cama. Eu de olhos no chão a voltar ao meu quarto. Eu sem lágrimas nem palavras, como antes. Eu sozinha.

Passaram-se três meses em que não vi o L.. Deixou de ir à faculdade e ao Telhado Bar. Deixou de contactar os amigos; pelo menos era o que eles diziam. E a mim, a mim, nunca mais me disse nada.

Quando, depois desses três meses, chegou a carta a casa a dizer que, afinal, o crime era de natureza privada e, se eu quisesse seguir com a queixa teria de apresentar advogado e novo processo, eu já não pude responder.

Não pude responder que não tinha dinheiro suficiente para pagar um advogado. Que o meu part-time na Pizza Hut só me dava para os materiais de estudo, algumas roupas e pouco mais. Que os meus pais faziam um enorme esforço para manter dois filhos na faculdade, com propinas, quartos arrendados e alimentação. Já não pude responder que lhes tinha escondido tudo com medo de os fazer sofrer. Ou com medo de maior desgraça, por vingança.

Já não pude responder que tinha pedido ajuda ao diretor da faculdade, que me mandou ir ao apoio à vítima. Já não pude responder que tinha ido ao Apoio à Vítima, que me disse que só podiam atuar após queixa formal na GNR. Já não pude responder que tinha feito a queixa e estava à espera … à espera não sei de quê. De uma condenação, de uma proteção, de uma resolução, talvez.

Quando chegou a carta, eu já não pude responder.
Não pude responder nem perguntar, Onde foi que eu errei?
Não tive direito à oportunidade de aprender para fazer diferente da próxima vez.
No dia em que chegou a carta eu já não tinha direito a próxima vez.
Não pude responder porque a carta chegou à morada errada.

Senhores policias, da próxima vez que me escreverem, façam-no para a morada correta:

Rua Cinzenta da Minha Cidade
Cemitério das Invisibilizadas
Campa nº 18/2024

 

Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros “Em Breve, Meu Amor” e “O Homem do Trator”, o seu último livro, “A Menina Dança em Dezembro”, publicado em maio 2024

 

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