Há duas casas, na minha vida, suspendendo-se na memória. Enquanto a tiver, elas estarão presentes. Como foram memorizadas, de acordo com os sentimentos que tenho por elas, transformaram-se, transfiguraram-se.
Na primeira, eu era uma visitante, visto que a minha mãe me impregnou desse sentimento. Em pequenos gestos, em frases com reticências. Mas era uma visita com prazer. Alegria esfuziante, sobretudo em algumas épocas do ano. Passeios, piqueniques, hábitos que vinham das gerações anteriores. Mesa farta, sempre posta para os visitantes. Olhar o céu estrelado à noite e ouvir a voz plena de mistério do meu tio, sobre os mistérios do cosmos, na sua voz calma, pausada. E o sacrário da casa, o quarto da minha avó, onde ela se refugiava e onde, aí, a minha mãe tinha absoluta primazia. Completo prazer, interacção secreta e apaixonada entre ela e a mãe. Era a única filha – talvez por ser a mais velha, mas acho que não era só por isso – que tratava a mãe, pela doçura dessa expressão em português: “minha mãe”, “ó minha mãe”.

Foto: Casa dos avós, Covas do Douro, Pinhão. DR
Ela, a avó, continuava a recortar d’O Primeiro de Janeiro banda desenhada que depois dava às netas – aquelas que se interessavam pelas suas velharias – para ler. Um espírito resistente às tempestades, num corpo alto, mas franzino. Profundamente religiosa, mas em absoluto silêncio. Acolhia-nos com um sorriso. Com uma dieta rigorosa, contrastando com o que se oferecia aos convivas. E os dois grandes retratos, do início do século XX, talvez prenda de casamento, omnipresentes no quarto: um, do “Santíssimo Coração de Jesus”, por cima de uma cama, sempre vaga, do marido falecido. Por cima da cama dela, uma pintura semelhante, mas do “Imaculado Coração da Virgem Maria”. Quando oro ao Coração de Jesus e ao de Sua Mãe, fixo essas imagens impressas na memória.
Da outra casa, a 250, 300 metros de distância, recordo as trepadeiras, as árvores, flores, a roseira, a tal da Família, plantadas pela minha mãe, o xisto negro ou prata ou azul transparente, os velhos muros, a terra quente e seca. E sei que não voltarei lá jamais.

Foto: Casa dos pais, Covas do Douro, Pinhão. DR
Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário; foi monja budista zen e integrou a Comunidade Mundial de Meditação Cristã.










