
Santa Catarina: “o elo entre as almas e o seu criador, entre Deus e os homens, esse amor que pregou na cruz o Deus encarnado. Só o amor é capaz de pacificar as disputas, unir aqueles que a inimizade separa, enriquecer os que são pobres e, virtude, só o amor pode dar impulso às demais virtudes. O amor termina a guerra e estabelece a paz”Pintura: Santa Catarina de Sena, Rutilio di Lorenzo Manetti (1571–1639) / Wikimedia Commons.
Por iniciativa da Província Portuguesa da Ordem Dominicana e do Instituto S. Tomás de Aquino (ISTA) foi publicada em abril a biografia de Santa Catarina de Sena (1347-1380), da autoria de Sigrid Undset. A obra foi editada na Biblioteca Dominicana – uma coleção surgida no âmbito das comemorações dos 800 anos da fundação da Ordem dos Pregadores – e que tem publicado livros fundamentais de, e sobre, autores dominicanos, numa lista onde não poderia faltar, conforme refere Frei José Nunes, no prefácio, “uma representante feminina desta grande família: Santa Catarina de Sena, terceira dominicana, figura maior da Ordem dos Pregadores e copadroeira da Europa”.
A autora combina na sua reflexão uma aproximação factual – recheada de dados biográficos e históricos – com uma empatia evidente com a figura da biografada, sendo claro que escreve simultaneamente como biógrafa e como crente. Sigrid Undset (1882-1949) nasceu na Dinamarca, cedo partindo para a Noruega. Foi obrigada a fugir da Europa durante a II Guerra Mundial, na sequência da invasão do país pelas tropas alemãs, refugiando-se até ao final do conflito nos EUA.
Os seus primeiros romances refletem sobre o lugar das mulheres no mundo contemporâneo no contexto europeu da classe média baixa, mas logo a partir dos anos 20 a autora enveredou pela reflexão sobre um passado mais distante – o do mundo medieval – compondo a trilogia que haveria de ser celebrada como a sua obra maior: Kristin Lavransdatter (redigida entre 1920 e 22). Aquela aproximação ao contexto medieval, onde surge retratado o percurso, crescimento e destino de uma mulher – a protagonista que dá nome ao romance – haveria de a preparar para a reflexão que desenvolveria décadas mais tarde sobre Catarina de Sena.
Naquele e nos romances que se lhe seguiram, a problemática religiosa constituía já um tema importante, funcionando como chave de leitura para a literatura da autora, no contexto da qual a sua conversão ao catolicismo romano desempenhou uma influência fundamental. Receberia, em 1928, o prémio Nobel da Literatura, ali se reconhecendo e sedimentando o lugar de destaque de Undset não apenas no contexto da chamada “literatura escandinava” ou “nórdica”, mas também no âmbito mais lato da literatura europeia e ocidental. Para lá do campo da ficção literária, a autora dedicou-se também à escrita autobiográfica e, por fim, à biografia de Santa Catarina, que terminou poucos meses antes do seu falecimento, em junho de 1949. A obra seria publicada pela primeira vez já a título póstumo, em 1951.
A investigação da autora, sistematizada ao longo de mais de trezentas páginas, assenta essencialmente em fontes primárias: as primeiras biografias de Catarina de Sena – da autoria de Raimundo de Cápua (1330-1399) e Tommaso Caffarini (1350-1434) – e os seus Cadernos, uma síntese da sua espiritualidade a que o seu primeiro biógrafo daria o título de Diálogo, mais tarde traduzido para várias línguas e adotando títulos como o Livro da Ciência Divina ou o Livro da Misericórdia. Analisando e citando profusamente aquelas obras, a autora teve ainda acesso ao epistolário de Catarina de Sena, com destaque para a correspondência que trocou com diferentes interlocutores da hierarquia eclesiástica. Ali revelam-se claramente a sua personalidade, firmeza, sentido de missão, convicções e fé, mas também a sua impressionante destreza diplomática e política.
O interesse que a biógrafa sempre expressou em torno do alargamento da participação das mulheres na vida pública conduziu-a até ao protagonismo de Catarina de Sena no seio da sociedade de Cristandade. Ao longo dos 29 capítulos que compõem a obra, a autora retrata o percurso de Caterina Benincasa, nascida na cidade de Siena em 1347 e falecida, em Roma, a 29 de abril de 1380. Acompanhando o seu percurso desde a infância – um caminho riquíssimo, complexo e atribulado – define os conceitos que lhe parecem absolutamente centrais e persistentes em Santa Catarina: a dedicação “ao amor a Deus e de Deus” (citando Santa Catarina: “o elo entre as almas e o seu criador, entre Deus e os homens, esse amor que pregou na cruz o Deus encarnado. Só o amor é capaz de pacificar as disputas, unir aqueles que a inimizade separa, enriquecer os que são pobres e, virtude, só o amor pode dar impulso às demais virtudes. O amor termina a guerra e estabelece a paz”); a intensidade da oração (“a chave deste mundo está na oração”); o serviço aos doentes e aos pobres e as problemáticas da conversão e, enfim, da reforma da Igreja, pela qual Catarina de Sena se bateu incessantemente.
Acompanhamos assim a história de Santa Catarina desde o tempo de juventude, em que procura o isolamento pela primeira vez, no seio de uma casa familiar grande e movimentada (no interior da qual esteve isolada durante três anos), até ao tempo em que participa ativamente na vida pública para se tornar uma figura influente na vida da Igreja, numa era extremamente conturbada – “Em breve”, escreve Undset, “seria arrastada para o meio da multidão barulhenta das ruas da sua cidade e até para as estradas e os oceanos do mundo – em toda a parte onde os seus semelhantes careciam do seu auxílio”, acreditando ainda, e muito firmemente, que a paz em Itália – e na Cristandade – só poderia ser alcançada se o Papa, então vivendo em Avinhão, regressasse a Roma, negociasse a paz com os “rebeldes” e empreendesse a Cruzada. Moveria nesse sentido todos os seus esforços.
Nesta história viva, não acompanhamos apenas o percurso singular de Catarina de Sena, tendo também acesso privilegiado ao seu contexto: a sua rede familiar (relação com pai e com a mãe e com os seus irmãos e irmãs), a Ordem dos Pregadores (nas suas ordens primeira, segunda e terceira), a sua rede de seguidores (os seus “filhos espirituais” ou Caterinati), o contexto italiano e francês – Siena, Florença, Pisa, Roma, Estados pontifícios, Avinhão, Bordéus – e a geografia ampla da Cristandade. Para além disso, a componente espiritual, mística e, enfim, religiosa que traça inevitavelmente a linha condutora do percurso de Santa Catarina está integrada num contexto político, cultural, social e económico de que a sua biografia dá eco, o mesmo acontecendo em relação à história da Igreja e do papado. Um excelente trabalho de investigação e de reflexão da biógrafa e um percurso extraordinária da biografada, agora, e em boa hora, editados em português.
Rita Mendonça Leite é investigadora do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa (UCP-CEHR); contacto: ritamenleite@gmail.com










