“Catástrofe humanitária pode estar iminente”, alerta a PAR em apelo ao Governo sobre os refugiados nas ilhas gregas

e | 17 Mar 20

Um refugiado embrulhado num cobertor térmico à chegada à ilha grega de Lesbos, a 29 de Janeiro de 2016. Quatro anos depois, a situação pode estar à beira da tragédia, alertam as organizações no terreno. Foto © Darrin Zammit Lupi/JRS Portugal

 

“Podemos estar na iminência de uma catástrofe humanitária” nas ilhas gregas onde há refugiados em campos sem condições mínimas de vida, diz ao 7MARGENS André Costa Jorge, director do Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS, da sigla em inglês) e coordenador da PAR (Plataforma de Apoio aos Refugiados). Esta organização apelou, entretanto, ao Governo, para “que colabore, com urgência e coordenado com as instituições europeias, num plano de contingência média e na evacuação das ilhas”.

O apelo surge por causa da situação em que sobrevivem cerca de 42 mil pessoas requerentes de asilo, e depois de ter sido detectado o primeiro caso de Covid-19 na ilha de Lesbos – só aqui, há cerca de 20 mil refugiados. E também tem em conta o facto de, recorda o apelo, o actual governo grego do partido Nova Democracia, de direita, ter impedido o acesso dos requerentes de asilo ao sistema de saúde pública da Grécia.

A evacuação pode ser feita usando hotéis ou alojamentos turísticos, diz Francisca Onofre, que até Novembro coordenou o Serviço Jesuíta aos Refugiados na Grécia. Para travar o que pode ser “uma catástrofe” deveriam utilizar-se “os hotéis e resorts gregos, pois a maioria não tem turistas”, normalmente, nesta época de Inverno. Seria uma solução temporária, mas era uma forma de permitir “algum isolamento” aos refugiados, sugere.

A solução ideal, defende a técnica de serviço social, consistiria na concretização “de um programa de recolocação dos refugiados noutros países da Europa, como aconteceu em 2015 e 2016”. Mas Francisca reconhece que a solução será muito difícil de implementar nesta fase, “com todos os países a querer fechar as fronteiras” por causa do novo coronavírus.

 

Pedir que lavem as mãos “é irónico”

Refugiados nas ilhas gregas: água, quase só a das chuvas. Foto © JRS/ Portugal

Francisca Onofre acrescenta que todos os refugiados quer vivam nos campos oficiais, quer à volta deles, se encontram extremamente vulneráveis. “Basta surgir o primeiro caso, e rapidamente o vírus irá espalhar-se por milhares de pessoas.”

“Pedir àquelas pessoas o mesmo que nos pedem a nós, como lavar as mãos, por exemplo, é irónico. Muitas delas não têm sequer acesso a água, muito menos a sabão”, alerta a assistente social. Francisca Onofre salienta ainda que, nas condições em que vivem as famílias, não é possível assegurar qualquer tipo de isolamento ou proteção. “Os campos de refugiados estão muito para além da sua lotação máxima e não estamos a falar do dobro, nem do triplo das pessoas. Estamos a falar de um campo como Moria, preparado para 3.100 pessoas, e no qual, em Janeiro, viviam 19.000”, afirma.

“Se aqui nos pedem para ficarmos em casa, ali não há casas… Há tendas ou pré-fabricados de poucos metros quadrados onde vivem várias famílias. Se aqui nos pedem para ligarmos para a linha Saúde 24, ali há pessoas que nem sequer têm acesso ao sistema grego de saúde, devido às medidas tomadas pelo Governo. Estas pessoas não têm como proteger-se”, acrescenta.

A ex-coordenadora do JRS na Grécia viveu durante 14 meses em Atenas e acompanhou vários refugiados aos hospitais públicos. “O serviço já costumava ser caótico e, neste momento, será ainda mais complicado. Além disso, coloca-se também a barreira da língua, pois nos hospitais praticamente só falam grego e por vezes algum inglês. Os refugiados dificilmente conseguem fazer-se entender”.

Estes novos dados e problemas surgem depois de, nas últimas cinco semanas, a Turquia ter aberto a possibilidade de saída de refugiados, dando lugar à concentração de mais alguns milhares de pessoas nas zonas fronteiriças. Foi, por isso, com estes factos como pano de fundo que a PAR pediu que a evacuação dos refugiados das ilhas de Lesbos, Kios, Samos, Leros e Kos seja feita “antes que a Covid-19 cause uma quase certa tragédia humanitária”.

 

O que Portugal pode fazer

Refugiados nas ilhas gregas: acordo entre Grécia e Portugal deve ser concretizado, diz a PAR. Foto © JRS/ Portugal

 

Além desse plano de evacuação, diz a PAR, o acordo bilateral entre Portugal e a Grécia deve ter aplicação efectiva, criando também “as condições necessárias para que Portugal possa acolher” as pessoas.

No apelo dirigido ao Governo, a PAR alerta para as “deploráveis” condições de vida nos campos, onde tudo se passa ao contrário do que deveria ser para evitar a propagação do novo coronavírus: os refugiados estão “impedidos de sair, forçados a contacto físico próximo, com casas de banho partilhadas por milhares de pessoas, tendas sobrelotadas” e sem o acesso devido a cuidados de saúde”.

“Não há água nem higiene”, diz André Jorge. E “se houver situação de contágio, pode ser muito grave, por isso fazemos apelo a uma evacuação imediata”, justifica.

Em relação ao que se passa com Portugal, o responsável do JRS e da PAR diz que “houve um arrefecimento da disponibilidade” manifestada inicialmente pelo país, na altura da crise de 2015. “Nesse ano, houve um grande entusiasmo, mas a situação requer agora um entusiasmo” que não se fique pela emoção do primeiro momento.” E só agora, após quatro anos, é que se garantiu, no Orçamento de Estado para 2020, uma “contribuição financeira da parte do Estado”. Até aqui, acrescenta, o modelo de acolhimento “assentou no esforço da sociedade civil”.

André Jorge lembra que, depois do acolhimento inicial, é necessário que a integração inclua todos os aspectos: “Se Portugal quer acolher mil pessoas, tem de criar condições para isso”, possibilitando residência, acompanhamento psicológico, integração laboral ou ensino da língua, entre outras coisas.

“A pessoa tem de poder autonomizar-se, com acesso ao mercado de trabalho e habitação autónoma, por exemplo, e sabendo que o mercado de arrendamento entrou em declínio”, diz. E tendo em conta que a língua é uma ferramenta indispensável para o dia-a-dia, esse é também um instrumento fundamental. “Quando as pessoas se dispersam pelas várias instituições, não conseguimos garantir a qualidade do ensino da língua, os intérpretes ou uma única metodologia para ensino da língua.”

 

E os mais vulneráveis?

Há outro pormenor importante: “Há famílias onde as mulheres não estavam habituadas a trabalhar fora de casa.” E, em termos de condições de vida, em países como a Síria ou o Iraque, era possível uma família sobreviver apenas com o homem a trabalhar fora de casa. “Mas em Portugal não é possível uma família sobreviver” desse modo.

Antes deste apelo directo, a PAR e outras organizações reuniram com a secretária de Estado para a Integração e as Migrações. Fonte oficial do gabinete esclareceu ao 7MARGENS que, na reunião, foram debatidas e avaliadas eventuais acções a tomar. “O Governo está a fazer um levantamento das disponibilidades e a encontrar novas soluções e estratégias inovadoras para garantir uma maior eficácia no processo de acolhimento e integração de refugiados”, acrescentou a mesma fonte.

No que respeita ao funcionamento interno das organizações e da sua capacidade de resposta nestas semanas em que se pede isolamento para conter a propagação da Covid-19, André Jorge diz que os vários centros e actividades fecharam, quando não há necessidade de atendimento presencial, ou reduziram ao mínimo a presença de profissionais – todos os voluntários estão em casa. Mas faz um alerta: “Preocupa-me muito a situação dos mais vulneráveis, que vivem do trabalho braçal, podem ser as maiores vítimas não tanto da doença, mas das consequências sociais e económicas que já se começam a fazer sentir em alguns sectores.”

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