Catholicos arménio acusa Turquia de envolvimento no conflito com o Azerbaijão, Papa pede diálogo entre as partes

| 29 Set 2020

Passagem do Mar Vermelho. Iluminura de T’Oros Roslin no Ritual de Vartan,1266. Patriarcado Arménio de Jerusalém, Ms. 2027.

 

“Pedi ao Papa Francisco para levantar a sua voz de modo a restaurar a justiça e a paz”, disse o Catholicos da Igreja Apostólica Arménia, Karekin II, antes da sua partida apressada para a Arménia, decidida por causa de novos conflitos no enclave de Nagorno-Karabach, ou Artsakh no histórico nome arménio da região disputada entre aquele país e o Azerbaijão.

As declaraçoes do Catholicos foram feitas domingo, 27, em Roma, onde o líder cristão da Arménia se encontrava para vários contactos no Vaticano e antes da partida antecipada de regresso ao seu país.

Na tarde desta segunda-feira, 28 de Setembro, as agências internacionais davam conta que a contagem dos mortos do lado arménio ia já em quatro dezenas: pelo menos 32 soldados separatistas arménios de Nagorno-Karabach além de cinco civis azeris e dois arménios. (O Azerbaijão, nota o Público, não anuncia as suas perdas militares.)

O conflito, com motivações históricas, tem sido intermitente desde o desmoronamento da União Soviética na década de 1990 e as consequentes independências dos países que a integravam. Nessa altura, o enclave, de maioria arménia e que fora “dado” ao Azerbaijão por Estaline, proclamou a independência e a ligação à Arménia, facto nunca reconhecido internacionalmente.

A guerra que se seguiu, entre 1991 e 1994, quando o cessar-fogo foi declarado, deixou 30 mil mortos. Em 2016, o conflito reacendeu-se e fez mais de 200 mortos, mas já em Julho deste ano se registaram novas escaramuças de que resultaram pelo menos 16 mortos, como recorda ainda o Público.

 

História, economia, geopolítica
Nagorno-Karabakh

Localização do enclave de Nagorno-Karabakh, reivindicado pela Arménia e pelo Azerbaijão.

 

Às razões históricas do conflito somam-se, hoje, razões religiosas, económicas e geopolíticas: a Arménia é um país de maioria cristã, confinando com países de maioria muçulmana a Leste, Sul e Oeste (Turquia, Irão, Azerbaijão; só a norte há um país, a Geórgia, de maioria cristã); hoje, a região é atravessada por oleodutos e gasodutos que abastecem também vários países ocidentais; e a Turquia prometeu já ajuda ao Azerbaijão (que tem, por seu turno, um enclave no sudoeste da Arménia), o que faz temer o alargamento do conflito a vários países, o que poderia levar a uma guerra regional, que alargaria o número de conflitos em toda a região.

Desta vez, a Arménia acusou o país vizinho de ter lançado um ataque ao enclave, proclamando em seguida a lei marcial e a plena mobilização militar. O Azerbaijão, por sua vez, diz que o ataque respondeu ao lançamento de uma granada do lado inimigo.

Na segunda-feira, o Presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, veio exigir à Arménia que retirasse imediatamente do enclave, ameaçando intervir militarmente. A inimizade e a peoximidade entre ambos os povos é também histórica e há 100 anos o então Império Otomano e, depois, a República turca, foram responsáveis pelo genocídio arménio, que terá provocado muito mais de um milhão de vítimas, entre 1915 e 1923; a Turquia nunca reconheceu o termo genocídio e quem falar nesse facto no país incorre em penas de prisão.

Ao mesmo tempo, algumas tímidas tentativas diplomáticas foram postas em marcha: o Presidente russo, Vladimir Putin, falou ao telefone com o primeiro-ministro da Arménia, Nikol Pashinyan, tendo apelado ao cessar-fogo e ao diálogo, o mesmo que também pediu a União Europeia.

 

“Uma acção pré-programada com a ajuda de Istambul”

No encontro, domingo ao final da manhã, a conversa entre Karekin e o Papa Francisco, acabou, por isso, por se centrar no conflito e na situação na região, conforme noticiou a ACI Stampa. O Catholicos (título do líder da Igreja Arménia, uma das mais antigas igrejas cristãs autónomas do mundo) tinha previsto vários encontros para esta semana no Vaticano, mas cancelou tudo e regressou ao seu país logo após o seu (sexto) encontro com o Papa.

“Devido à agressão do Azerbaijão ao Artsakh, fui obrigado a encurtar a visita, e assim pude encontrar-me com o Papa esta manhã”, disse o Catholicos Karekin à agência ACI Stampa.

“Todos os tipos de armas foram utilizados contra a população arménia pacífica, incluindo helicópteros e artilharia. As cidades e aldeias Artsakh estão sob ataque, incluindo a capital Stepanakert. Há vítimas entre a população vizinha”, acusou o líder da Igreja Arménia.

Em resposta, contou Karekin, “o Papa expressou a sua preocupação e dor” e disse-lhe que na mensagem do Angelus, logo a seguir, iria falar do assunto. Mas o Catholicos também acusou a Turquia de envolvimento no conflito, na linha da argumentação do Governo do seu país: “Também expressei ao Papa a minha opinião sobre o envolvimento da Turquia na região, e sublinhei que, na minha opinião, era uma acção pré-programada com a ajuda de Istambul. Recentemente, a Turquia tem apoiado abertamente o Azerbaijão nas suas posições agressivas contra a Arménia, com muitas declarações oficiais, e assistimos a exercícios militares realizados conjuntamente entre o Azerbaijão e a Turquia há algumas semanas.”

Numa mensagem enviada ainda de Itália aos cristãos arménios, o Catholicos segue a mesma argumentação, acusando as forças armadas do Azerbaijão de violarem o cessar-fogo com um ataque traiçoeiro “bombardeando colonatos pacíficos em Artsakh, incluindo a capital, Stepanakert.

 

Identidade nacional e cristianismo
Catedral. Igreja. Erevan. Arménia

Catedral de São Gregório, o Iluminador, em Erevan, Arménia. Foto Marcin Konsek / Wikimedia Commons

 

Sendo o cristianismo parte da identidade nacional e cultural do país, a mensagem do Catholicos, disponível na página oficial da Igreja (em inglês), faz mesmo apelos à unidade política (recentemente, o Governo tinha sido alvo de contestação e de manifestações de protesto) e ao compromisso em torno da defesa militar: “A nossa pátria, Artsakh, apela a todos nós para defendermos os direitos da nossa nação, da nossa terra sagrada, do nosso futuro, e da nossa dignidade nacional. Apelamos ao nosso povo para que se una e para que todas as forças políticas ponham de lado as suas diferenças em prol da necessária defesa da Pátria. Que Deus proteja a terra de Artsakh e apoie os nossos bravos soldados e comandantes.” Mal soube das primeiras notícias, o Catholicos arménio telefonou ao primeiro-ministro a manifestar idênticos sentimentos.

Na entrevista já citada, Karekin acrescentou que é importante “resolver a situação”, mas também que os meios de comunicação transmitam uma informação “correcta” sobre o que se passa, “para que a justiça possa ser restaurada”.

Na sua alocução final no Angelus de domingo, o Papa apelaria ao diálogo entre arménios e azeris, reconhecendo que as notícias chegadas eram preocupantes e que rezava “pela paz no Cáucaso: “Peço às partes em conflito que façam gestos concretos de boa vontade e de fraternidade que possam levar à solução dos problemas, não com o uso da força e das armas, mas através do diálogo e da negociação.”

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

"Nada cristãs"

Ministro russo repudia declarações do Papa

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguei Lavrov, descreveu como “nada cristãs” as afirmações do Papa Francisco nas quais denunciou a “crueldade russa”, especialmente a dos chechenos, em relação aos ucranianos. Lavrov falava durante uma conferência de imprensa, esta quinta-feira, 1 de dezembro, e referia-se à entrevista que Francisco deu recentemente à revista America – The Jesuit Review.

À espera

[Os dias da semana]

À espera novidade

Quase todos se apresentam voltados para o sítio onde estão Maria e José, que têm, mais por perto, a companhia de um burro e de uma vaca. Todos esperam. Ao centro, a manjedoura em que, em breve, será colocado o recém-nascido. É tempo agora de preparar a sua chegada, esse imenso acontecimento, afinal de todas as horas.

Bispo Carlos Azevedo passa da Cultura para as Ciências Históricas

Novo cargo no Vaticano

Bispo Carlos Azevedo passa da Cultura para as Ciências Históricas novidade

O bispo português Carlos Azevedo foi nomeado neste sábado para o lugar de delegado (“número dois”) do Comité Pontifício para as Ciências Históricas, deixando o cargo equivalente que desempenhava no Dicastério para a Cultura e a Educação, da Santa Sé, que há poucas semanas passou a ser dirigido pelo também português cardeal José Tolentino Mendonça.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This