Católica apresentou queixa e alunos de Moral limparam grafites racistas que apareceram em escolas de Lisboa

| 1 Nov 2020

Alunos. Racismo

Alunos da Escola Eça de Queirós (Lisboa) depois de taparem as inscrições racistas que apareceram na escola. Foto © Agrupamento de Escolas Eça de Queirós.

 

A Universidade Católica Portuguesa (UCP) denunciou ao Ministério Público o facto de terem aparecido pintadas, nas paredes do campus de Lisboa, inscrições com carácter racista. Como reacção a um episódio semelhante, e por causa do incómodo que sentiram ao chegar à escola e deparar com os grafites, alunos da disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC), da Escola Eça de Queirós, decidiram tapar as inscrições com as suas suas próprias mãos.

Num comunicado divulgado publicamente, a reitora da UCP, Isabel Capeloa Gil, escreve que “a universidade rejeita este acto, que atenta contra os princípios basilares do que a universidade enquanto espaço de abertura e diálogo representa”. Afirmando que, “pelo conteúdo dos dizeres, este é um crime público” a responsável diz que a instituição apresentou queixa “junto do Ministério Público”, para que se proceda ao apuramento de responsabilidades.

Isabel Capeloa Gil acrescenta que a UCP continuará a trabalhar pela “inclusão e coesão sociais em prol do bem comum da sociedade”, e a desenvolver uma acção educativa “assente no respeito pela dignidade da pessoa, nos valores da liberdade e do diálogo, rejeitando qualquer forma de discriminação social, de raça ou sexo”.

Já na Escola Eça de Queirós, na zona dos Olivais (Lisboa), que integra o Agrupamento de Escolas (AE) com o mesmo nome, “o incómodo veio à baila” na aula de EMRC “e logo ali se desenhou um ataque solidário à investida racista, alinhavando-se, entre outras ideias, a disponibilidade dos alunos ajudarem a tapar a ‘vergonha’, estampada na entrada da ‘nossa casa’, conta o professor da disciplina, Acúrcio Domingues, numa curta publicação na página do AE.

“Hoje [sexta, 30 de Novembro], de manhã, uma parte dos muros da escola estava eivada de ódio, dissimulado entre frases ‘chave’ de um apregoado patriotismo estúpido e alarve, mas sem sentido ou cabimento. Os cobardes, na expressão de uma aluna da Eça, ‘energúmenos’, aproveitaram a calada da noite para escrever enormidades, temendo que a luz do dia lhes denunciasse a falta de coragem ou os cobrisse de ridículo”, conta o professor.

Uma brigada de alunos, juntamente com um funcionário da escola, tratou então de “reduzir ao esquecimento, em plena luz do dia, o que os ignorantes gostariam de prolongar em tempo de trevas”. O professor regista ainda que um dos alunos comentou: “Sem apagar isto, eu recusava-me a entrar na escola.” Uma imagem, comenta, “duplamente redentora: porque preserva o património universal dos que habitam a escola e aqui aprenderam que a herança multicultural é a resposta a oferecer àqueles que porfiam, cegamente, em não a querer aceitar e porque confirma uma elevada atitude cívica e crítica, que não quer deixar passar em claro qualquer mensagem racista ou xenófoba.”

 

“Escolas de todas as cores”

O secretário de Estado Adjunto e da Educação, João Costa, escreveu, na sua página no Facebook, que este tipo de comportamentos, que se verificou também em várias outras escolas de Lisboa, não pode “ter lugar em 2020, tantos anos depois de Rosa Parks”.

O governante dirige-se, depois, ao autor ou autores das inscrições, convidando: “Regressa à escola, estuda e vais ver que a cobardia, a estupidez e a fraqueza vão deixar de dominar as tuas ações”. E acrescenta: “Não podemos calar nem aceitar que alguém escreva isto. Queremos escolas com todas as cores, porque o arco-íris é mais bonito do que a cal do muro do cemitério do saber ou do que o escuro da caverna. Porque a paleta do pintor tem lá as cores todas e produz espanto e beleza. Se a tela ficar branca, é pobre, não tem valor.”

As mensagens revelavam não só insultos de carácter étnico como nacionalista – dirigidas, por exemplo, a brasileiros. No ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, outra escola superior atingida por estes ataques, a Associação de Estudantes (AE) também repudiou o vandalismo. Numa mensagem na rede Twitter, a AE manifesta o “total choque” dos estudantes com as inscrições.

“Este tipo de acções são repugnantes e vão contra todos os nossos valores, bem como os de um ensino superior inclusivo e que procura construir futuros cidadãos mais ativos e conscientes”, acrescenta o comunicado, que se manifesta solidário com “qualquer estudante que se tenha sentido diretamente visado pelo sucedido”. Os actos racistas, acrescentam, “não podem ser tolerados ou confundidos com liberdade de expressão, pois colocam em causa a existência e dignidade humana”.

A acção de vandalismo racista atingiu ainda escolas da Portela, Olivais e Sacavém (Loures) e, de acordo com a TVI24 citada no Diário de Notícias, os autores pintaram um símbolo comum, associado a um movimento de extrema-direita, Geração Identitária.

De acordo com o Público, que cita uma fonte da PSP, também o Centro de Acolhimento para Refugiados da Bobadela, do Conselho Português para os Refugiados (CPR), foi alvo de ataque. A mesma fonte do comando distrital da Polícia diz que não tinham sido ainda identificados quaisquer suspeitos, mas confirmou a participação das situações como actos criminais, cujos autos foram remetidos para o Ministério Público. E acrescentava que não havia qualquer informação sobre os símbolos que apareciam desenhados junto das frases.

No mesmo jornal, o director do Agrupamento de Escolas de Portela e Moscavide, dizia que este já era o terceiro ataque, este ano, à escola. “São situações provocatórias e a nossa posição enquanto agrupamento tem sido a de não dar relevância e limpar rapidamente”, afirma, dizendo que também ali “um aluno branco” pegou numa lata de tinta e tratou de, com outros colegas, pintar o muro com as inscrições.

 

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