Inquérito para dar voz aos que estão “sob o véu do silêncio”

Católicos de Braga escutam “presencial e incondicionalmente” cristãos LGBTQ

| 18 Jan 2024

Comunidade LGTBTQ. Foto Amparo Garcia

“Há muito sofrimento escondido”, um sofrimento frequentemente “claustrofóbico”, que precisa de espaços (e passos) seguros. Que não é somente de pessoas LGBT, mas também, em alguns casos, dos seus familiares. Foto © Amparo Garcia

 

“Precisamos de escutar as histórias de vida das pessoas LGBTQ para vermos como isso questiona os nossos preconceitos e ideias feitas, também no interior da comunidade eclesial, e nos enriquece”. Esta pode ser a síntese da conversa que o 7MARGENS teve com o padre Jorge Vilaça, diretor Departamento Arquidiocesano de Braga para a Pastoral da Saúde, a propósito de um trabalho que desenvolve há cerca de um ano, integrado num grupo de escuta.

Mas não bastam estes encontros e conversas, porque, em algumas situações, faz-se sentir a dificuldade de falar. Por isso, e para escutar também quem se encontra desse lado, o grupo está a promover um inquérito online e anónimo,que estará ativo ao longo de um mês.

Tem sido um trabalho feito de forma discreta, sem publicidade, que se iniciou com encontros com associações deste setor, laicas e confessionais. Ganhou alguma visibilidade quando alguém fez sair uma  notícia, mas que vai continuar nesse registo de discrição. “Há muito sofrimento escondido”, um sofrimento frequentemente “claustrofóbico”, que precisa de espaços (e passos) seguros. Que não é somente de pessoas LGBT, mas também, em alguns casos, dos seus familiares.

Em algumas situações, trata-se de pessoas que tinham uma participação na vida da sua comunidade cristã, mas que se renderam a um certo ostracismo a que foram votadas quando a homossexualidade foi assumida no quadro de uma relação; mas também de quem continua, como se uma parte de si própria vivesse na clandestinidade. Nas várias situações, e cada caso é um caso, observa o padre Jorge Vilaça, “a ausência de uma palavra de acolhimento, por parte da Igreja”.

Foi para acolher e acompanhar essas pessoas que alguns membros da Pastoral da Saúde iniciaram “um percurso sereno de escuta presencial de algumas pessoas LGBTQ e seus familiares, para quem Jesus Cristo é referência fundante (…). Quanto as feridas e a fé o permitiram, partilhamos histórias e rezamos juntos”. Assim o assumem num texto divulgado na última terça-feira no site da Arquidiocese de Braga, assinado por aquele presbítero e por Rita Silva, também do Departamento para a Pastoral da Saúde.

 

Fiducia Supplicans foi “uma validação”

Referindo-se ao espírito deste projeto, os autores afirmam “quer[er] ser uma família que pede o dom das lágrimas, acompanhando os dramas dos seus filhos: quer dos que saíram, dos que permanecem à margem e dos que se experimentam em casa”, já que “quem não sabe chorar, não é mãe”.

Neste contexto, a recente Declaração Fiducia Supplicans, do Dicastério para a Doutrina da Fé, com a aprovação do Papa, é, para Jorge Vilaça, “uma validação” do caminho de escuta que vem a ser feito em Braga. Esta validação não é necessariamente “uma aprovação”, refere aquele presbítero, mas sim um reconhecimento, condição sem a qual é impossível “acompanhar as pessoas”, garantindo a sua dignidade.

Assim, o trabalho vai prosseguir, “sem agenda nem prazos a cumprir”, mas “com um objetivo bem definido: partir de Cristo, com Cristo e como Cristo”. Relativamente ao questionário online, atrás referido, trata-se de “alargar a escuta a todos aqueles que estão, de alguma forma, sob o véu do silêncio do universo digital, por receio ou proteção”.

“Façam-nos entender o incontrolável da Palavra, a filigrana com que se reparam rochedos, as lágrimas com que se consertam pontes. O degrau serve para avançar não para descansar”, apelam, em linguagem poética, Jorge Vilaça e Rita Silva.

O grupo, que se assume como constituído por “apóstolos da escuta, em hospital de campanha, de acordo com o apelo do Papa Francisco”, diz seguir “a tripla sensibilidade: à pessoa, ao discernimento e aos impulsos ‘para diante’”. Dos degraus já percorridos apontam quatro aspetos fortes: “a) a importância da escuta mútua e incondicional; b) a necessidade de formação de todos; c) a relevância do cuidado com a linguagem; e d) a urgência da criação de espaços seguros”.

Voltando ao início, e recordando a afirmação frequentemente usada pelo Papa, de que “a realidade é superior às ideias”, o padre Jorge Vilaça reafirma a profunda necessidade de escutar as histórias dos que sofrem, se inquietam e andam em busca. “Isso altera as coisas. Quando escutamos, há qualquer coisa em que mudamos”, remata para o 7MARGENS o presbítero bracarense.

 

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