Um grupo de pessoas de diferentes organizações espanholas ligadas à Igreja Católica e à promoção da não-violência ativa e da cultura de paz acabam de lançar um apelo à ação de bispos e todas as pessoas que têm algum tipo de responsabilidade pastoral a favor da “resposta não-violenta de Jesus” nas famílias, paróquias, dioceses, locais de trabalho, escolas, universidades e na vida política do país e do mundo.
Numa carta aberta subscrita por mais de duas centenas e meia de leigos, clérigos e religiosos ligados a diferentes coletivos e comunidades católicas, intitulada “Pela não-violência: a resposta do Evangelho à guerra e à violência”, assume-se uma posição clara contra a guerra; defende-se a não-violência como atitude espiritual, mas com consequências práticas; e apela-se à Igreja para agir e não apenas falar.
Os subscritores lembram a mensagem de Leão XIV para o Dia Mundial da Paz deste ano, em que o Papa convoca para a necessidade de construir possibilidades de paz, concretas e credíveis, “mediante uma criatividade pastoral atenta e geradora”, evidenciadora de que “a paz não é uma utopia”.
É que, salienta o abaixo assinado, “a realidade atual das guerras e da violência estrutural, aliada à crescente perda de respeito pela dignidade humana, bem como à grave violação do direito internacional que está a destruir o multilateralismo e o exercício da diplomacia como meio de diálogo e entendimento entre as nações, são indicativos da urgência de que, como pessoas e comunidades cristãs, ofereçamos uma resposta a partir do Evangelho que permita organizar a esperança e partilhar a Boa Nova”.
Em registo de denúncia, o documento observa também que “por detrás das guerras existem negócios e lutas pelo controlo do mundo por parte de uma minoria que não hesita em provocar milhões de mortes para alcançar os seus objetivos”.
Sendo a guerra sempre uma “derrota da humanidade”, faz todo o sentido a insistência de Leão XIV na construção conjunta de uma “paz desarmada e desarmante”. “No próprio Domingo de Páscoa recordou-nos na sua homilia que ‘a força com a qual Cristo ressuscitou é totalmente não-violenta’”, sublinha.
A construção da resposta não-violenta de Jesus, que os subscritores propõem, filia-se, como refere o texto, em múltiplas experiências em diferentes lugares do mundo assolados por conflitos e outas formas de violência, em que mostrou a sua eficácia.
De algumas dessas experiências nasceram projetos como o Instituto Católico pela Não-Violência, da Pax Christi Internacional, cuja missão é tornar a investigação, os recursos e a experiência sobre a não-violência mais acessíveis para os líderes, as comunidades e as instituições da Igreja Católica, ou a Plataforma de Ação Laudato Si’, que defende a Criação e protege os mais vulneráveis a partir da metodologia da não-violência.
A carta aberta dirige-se, por tudo o que ficou dito, aos bispos e à Conferência Episcopal (no caso, a de Espanha, mas poderá ser qualquer outra, incluindo a portuguesa, para que promova a não-violência através de cartas pastorais; desenvolva planos de formação e capacitação em não-violência ativa nas paróquias, escolas, seminários, centros de estudo católicos, institutos de ciências religiosas e universidades católicas; e fomente a celebração do Dia Mundial da Paz em cada 1 de janeiro, e os Dias Católicos de Ação pela Não-Violência entre os dias 21 de setembro e 2 de outubro.
Este apelo estende-se também a todos os agentes de pastoral, movimentos, organizações e, em geral, a todas as comunidades cristãs, para que integrem a não-violência ativa de forma criativa nos seus programas de pastoral e no seu acompanhamento. E solicita, finalmente, à Comissão Episcopal para as Comunicações Sociais, em coordenação com a Comissão de Pastoral Social e Promoção Humana, para incrementar a presença do testemunho das experiências e práticas da não-violência do Evangelho nos meios de comunicação da Conferência Episcopal, bem como difundir todo o potencial da Doutrina Social da Igreja nestas questões.
Àqueles e àquelas menos familiarizados com o conceito e prática da não violência, deixam esta nota reflexiva:
“A não-violência do Evangelho é espiritualidade, modo de vida, método eficaz para a transformação pessoal, social e ética. Não é passiva, mas uma força transformadora que confronta a injustiça com ações concretas baseadas na dignidade e no bem do outro. Por isso é necessário favorecer de forma explícita o conhecimento das experiências de transformação e resposta não-violenta às violências e às guerras no mundo. A tarefa de uma paz desarmada e desarmante requer a construção de processos e ações concretas, que são responsabilidade de todo o Povo de Deus, mas que necessitam do estímulo e do acompanhamento dos nossos bispos e pastores”.
Nota: Em Espanha, a Comissão Geral de Justiça e Paz e a aliança de organizações Enlázate por la Justicia acabam de iniciar uma campanha trienal precisamente sobre Direitos Humanos, Paz e Não-Violência. Para contactos: porlanoviolencia@etik.com










