50 anos do Copic

Católicos, protestantes e evangélicos assinam programa Eco-Igrejas com organizações ambientais

| 11 Jun 21

Painéis solares instalados no topo da Basílica da Santíssima Trindade, com vista para a Basílica de Nossa Senhora. Foto © Luís Oliveira/Santuário de Fátima

 

A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP, católica), o Conselho Português de Igrejas Cristãs (Copic, protestante) e a Aliança Evangélica Portuguesa (AEP) subscrevem neste sábado, 12 de Junho, o memorando para o programa Eco-Igrejas Portugal, que será liderado pela organização não governamental de ambiente A Rocha e subscrito ainda pela rede Cuidar da Casa Comum (CCC).

Com base em indicadores de sustentabilidade, o programa pretende apoiar o diagnóstico, a melhoria contínua e a comunicação da sustentabilidade das comunidades cristãs. Ao mesmo tempo, procurará promover a ética da sustentabilidade, “contida nos princípios eco-teológicos do cristianismo, e a aplicação nas diferentes Igrejas e comunidades cristãs de indicadores de diagnóstico, educação e gestão ambiental visando uma melhoria contínua da sustentabilidade ecológica”.

Entre os objectivos do memorando, a cujo texto o 7MARGENS teve acesso em primeira mão, estão o de “partilhar exemplos de boas práticas que possam ser tidos em conta na tomada de decisão orientada para a sustentabilidade ecológica das comunidades cristãs”. Outro dos propósitos é o de “atender a uma adequada formação ao nível dos respectivos fundamentos bíblicos e teológicos”. Esta ideia será olhada “em particular no âmbito das gerações mais jovens, em ordem ao compromisso concreto na salvaguarda da criação”.

“Pela primeira vez em Portugal, três instituições cristãs representativas vão assinar um memorando conjunto”, diz ao 7MARGENS o bispo da Igreja Lusitana (Comunhão Anglicana) e presidente do Copic, Jorge Pina Cabral, perguntado sobre o significado do acto que neste sábado se realizará.

“É sinal de que, em assuntos concretos, as diferentes igrejas cristãs conseguem um entendimento. E isso pode dar alguma dinâmica à caminhada ecuménica, mesmo entre a juventude” tendo em conta o âmbito do documento, acrescenta Pina Cabral.

O documento será subscrito dias depois de o 7MARGENS a revista Família Cristã terem realizado um inquérito a meia centena de instituições católicas sobre a aplicação da encíclica Laudato Si’ na Igreja em Portugal – e cuja preparação contou com a colaboração inicial da rede CCC.

 

Um organismo para a unidade

O presidente do Copic, Jorge Pina Cabral, com o Presidente da República, na cerimónia inter-religiosa que assinalou o início do novo mandato de Marcelo Rebelo de Sousa, em Março, na Câmara do Porto. Foto: Direitos reservados.

 

A assinatura do documento decorre numa cerimónia inicialmente convocada pelo Copic para assinalar os 50 anos da criação deste organismo. Com efeito, em 10 de Junho de 1971, no Centro Ecuménico Reconciliação (Figueira da Foz), as igrejas Evangélica Metodista, Evangélica Presbiteriana e Lusitana Católica Apostólica reuniram-se para criar um organismo que “pretende dar no contexto religioso e sociológico português um testemunho de consenso, de cooperação, de unidade, em obediência” à Palavra de Deus. Actualmente, a Igreja Evangélica Alemã do Porto integra também o Copic.

O acto deste sábado é também “uma forma de dar expressão ao compromisso ecuménico actual”, na perspectiva do que tem sido a reflexão cristão já desde a década de 1970, aliando os temas da justiça, paz e integridade da criação, recorda Pina Cabral.

Podendo ser acompanhada através do canal YouTube do Copic, a cerimónia deste sábado tem início às 15h na catedral lusitana de S. Paulo (Rua das Janelas Verdes, Lisboa).

O memorando aponta ainda outros objectivos às igrejas que o subscrevem – e que representam grande parte do universo de igrejas e comunidades cristãs em Portugal: “Facilitar o acesso à opinião de peritos em transição ecológica que efetuem recomendações concretas no âmbito de uma ecologia sustentável e integral; promover a comunicação da sustentabilidade das comunidades cristãs, locais de culto e equipamentos em Portugal; criar impactos ambientais positivos de grande escala; (…) contribuir para a mudança de estilos de vida na linha de uma ecologia sustentável e integral.”

Estes objectivos são assumidos “como um elemento fundamental e estruturante” da identidade e missão das igrejas e comunidades cristãs, “bem como um caminho para um testemunho comum e mais credível do Evangelho”.

Os indicadores que estão na base do programa, desenvolvidos pel’A Rocha, são inspirados em modelos já postos em prática no Reino Unido e em França (onde o projecto Église Verte, ou igreja verde, já atribuiu mais de 550 selos verdes). E pretendem “contribuir para dar visibilidade às comunidades que já adoptam estas práticas ambientais, motivando-as para a melhoria contínua”.

A gestão de edifícios e propriedades, o envolvimento comunitário e global, a celebração e formação, bem como os estilos de vida serão as áreas a abarcar, a partir de uma lista de cinco pontos que medirão os indicadores para atribuição do certificado eco-igreja.

 

Impactos ambientais, sociais, económicos e culturais
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O incentivo à descarbonização será um dos indicadores a medir. Foto: Direitos reservados.

 

Os indicadores medirão os impactos ambiental (incentivo à descarbonização, economia circular e eficiente) e social (apoio dos mais vulneráveis, combate à pobreza e às desigualdades sociais, acolhimento e integração de minorias étnicas e de migrantes e consolidação de comunidades de fé comprometidas com a construção de um mundo mais justo e fraterno). Outras duas dimensões a medir serão o impacto económico (melhorar o equilíbrio das contas das comunidades cristãs e aumentar a retenção de proventos económicos para a economia local) e cultural (mudança de estilos de vida apoiados em novas maneiras de habitar e transformar o mundo).

O programa inspira-se ainda nas “reflexões e apelos” feitos por entidades como o Conselho Mundial das Igrejas, o patriarca ortodoxo Bartolomeu, o arcebispo de Cantuária (primaz anglicano) Justin Welby, a Aliança Evangélica Mundial ou o Papa Francisco com as encíclicas Laudato Si’, de 2015, e Fratelli Tutti, de 2020. Também a assembleia ecuménica de Basileia, em 1989, sobre Justiça, Paz e Integridade da Criação, e a Charta Oecumenica de 2001.

“Integrar a preocupação e o cuidado com a casa comum, numa perspectiva integral”, de forma a “conduzir a uma mudança de comportamentos e atitudes” é também um desiderato do memorando. “Contrariando populismos e outro tipo de apropriações e manipulações das preocupações ambientais, as tradições religiosas podem conduzir (…) a uma ética do cuidado, responsável e solidária”, diz o documento a assinar, que promete ainda a disponibilização dos resultados através de uma aplicação digital.

O memorando será assinado por Maria da Conceição Almeida Santos (A Rocha), António Calaim (Aliança Evangélica Portuguesa), Jorge Pina Cabral (Copic), Rita Veiga (Rede Cuidar da Casa Comum) e o bispo de Setúbal e presidente da CEP, José Ornelas Carvalho.

Na cerimónia, que conta com a presença do Presidente da República, serão ainda assinalados o 20º aniversário da Lei da Liberdade Religiosa em Portugal e o 20º aniversário da Carta Ecuménica para a Europa. A celebração conta ainda com a presença do presidente da Conferência das Igrejas Europeias (que reúne 114 igrejas de diferentes tradições), Christian Krieger.

 

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