Católicos, protestantes e judeus contra “perigo real” do racismo nos EUA

| 1 Jun 20

George Floyd; I cant't breath; Racismo; EUA; pintura em Mafra

Pintura em Mafra, com a frase “I can’t breathe” (“Não posso respirar”), repetida várias vezes por George Floyd enquanto o polícia o asfixiava. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS.

 

Enquanto os protestos se sucedem nas ruas, somam-se também as reações das mais diversas Igrejas e confissões representadas nos Estados Unidos, na sequência do homicídio do afro-americano George Floyd. Todas são unânimes em reconhecer que o racismo é um “perigo real” no país e é necessário ter a coragem de enfrentá-lo, de uma vez por todas.

“Não podemos fechar os olhos diante desta atrocidade, mas sim professar respeito por toda a vida humana”, afirmam os presidentes de sete comissões da Conferência Episcopal norte-americana (USCCB), católica, enfatizando que o racismo no país “não é coisa do passado ou simplesmente uma questão política que se ‘usa e deita fora’ quando convém. É um perigo real e atual que deve ser encarado de frente”.

Na sua declaração, os bispos católicos expressam “dor, desgosto e indignação por mais um vídeo que mostra um afro-americano morto diante dos nossos olhos”, manifestam solidariedade para com as comunidades negras do país “compreensivelmente indignadas” e pedem uma investigação que faça justiça à vítima, apelando ainda a que os protestos contra o que se passou sejam pacíficos.

Também o arcebispo local, Bernard Anthony Hebda, publicou uma nota no site da diocese, referindo-se à morte de Floyd como um acontecimento “comovente e profundamente perturbador”, um verdadeiro “murro no estômago”. “Especialmente neste momento em que a fragilidade humana ficou evidenciada pela pandemia de covid-19, somos chamados a respeitar o valor e a dignidade de cada indivíduo, quer se tratem de civis que precisam de proteção, quer de agentes das forças de ordem encarregados de propiciar essa proteção”, sublinhou.

 

“Não é suficiente limitarmo-nos a palavras, pensamentos e orações”

Na perspetiva da Pax Christi, movimento católico internacional ao serviço da paz, “a morte de George Floyd – e a morte de tantas pessoas de cor ano após ano – mostrou-nos que a vida dos negros não importa no país”. Face a isto, “a tarefa da Igreja deve ser a de estar na linha da frente para mudar essa realidade e afirmar que a vida deles é importante”.

O comunicado do movimento é incisivo: “Não é suficiente limitarmo-nos a palavras, pensamentos e orações. A Igreja deve falar de forma corajosa e inequívoca a todos os níveis contra o pecado do racismo, presente em todos os aspetos da vida nos Estados Unidos, e contra o flagelo da brutalidade policial”.

Reconhecendo que são necessárias medidas concretas para derrotar o racismo e construir uma sociedade antirracista, “incluindo combater a cultura policial que apoia a supremacia branca e trabalhar para desmantelá-la”, a Pax Christi EUA encoraja os seus membros a apoiar os movimentos das pessoas de cor, salientando que o “silêncio dos brancos” e o seu “afastamento dos movimentos pela justiça” podem contribuir para que o racismo, em todas as suas formas, perdure.

A declaração do Conselho Nacional de Igrejas dos EUA (que reúne protestantes, anglicanos e evangélicos) vai no mesmo sentido, sublinhando que “a supremacia branca” está “muito difundida” na sociedade morte-americana. “Ainda não há vacina contra o racismo. (…) Ainda não há cura”, lamentam no seu comunicado.

Já entre as comunidades judaicas, o sentimento é de “cansaço” e “frustração”. Isaiah Rothstein, rabi responsável por uma comunidade multirracial em Hazon, foi um dos judeus que falou ao jornal Jewish News sobre o ambiente que se vive neste momento no país.

“Os meus antepassados têm um longo historial de dor por serem discriminados e oprimidos. Nestes momentos, às vezes é difícil processarmos e interiorizarmos o que está a acontecer, mas são momentos em que se espera de nós que nos levantemos e revoltemos, por isso todos os dias tento fazer ouvir a minha voz”, explica. E deixa algumas pistas: “Gostaria que cada comunidade tivesse uma plataforma educativa para discutir as questões raciais”, de forma a compreendermos “as perspetivas ao longo da história, através do conhecimento do passado, e assim criarmos uma ponte mais forte e mais saudável para o futuro”.

 

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