Contributo dos Bispos Alemães para o Sínodo

Católicos temem ausência de liberdade no debate de temas cruciais

| 15 Ago 2022

Sessão final da primeira assembleia do Caminho Sinodal da Igreja Católica na Alemanha: as reflexões para o Sínodo promovido pelo Papa são similares às conclusões dos sínodo alemão. Foto © Direitos reservados

 

As sínteses das dioceses referem a existência de “dúvidas de que uma reflexão aberta possa ocorrer dentro da igreja” num clima “livre de ansiedade” sobre “os assuntos tabus relacionado com a sexualidade (contraceção, aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo…)”, lê-se no relatório final que a Conferência dos Bispos Alemães (GBC, no acrónimo em língua inglesa) enviou para Roma como contributo para o Sínodo dos Bispos de 2023.

O texto refere inclusive que há “teólogos que têm medo de verem as suas licenças de ensino revogadas” caso “se pronunciem de forma aberta” sobre aqueles temas e que “muitos leigos se sentem inferiorizados e incompreendidos pelos clérigos e outras pessoas com formação teológica” que não lhes permitem “tomar a palavra e dar a sua opinião.”

O relatório de 13 páginas foi divulgado no dia 5 de agosto e pode ser agora ser lido em versão inglesa no sítio da GBC e está dividido em duas partes: a primeira foca a história, o percurso e os avanços espirituais que caracterizaram os sínodos realizados na Alemanha depois do Vaticano II; a segunda procura sintetizar as respostas das dioceses aos 10 pontos propostos no documento de trabalho do Vaticano para o atual Sínodo dos Bispos.

Ao refazerem a história do movimento sinodal no seu país, os bispos alemães sublinham a onda de alarme e consternação produzida pelas conclusões do estudo MHG, por eles encomendado a peritos das universidades de Mannheim, Heidelberg e Gissen em 2018.

 

Razões sistémicas e não apenas fracassos individuais

 

“Os resultados do estudo mostraram claramente”, lê-se no documento da GBC, “que razões sistémicas favoreceram os abusos sexuais na Igreja e a forma como foram encobertos” e que não se podia ver os abusos “apenas como uma questão de fracassos individuais.” Pelo contrário, tornou-se claro que a ocorrência de abusos sexuais obrigava a repensar “como lidar com o poder e como controlar o poder e os poderes decisórios na Igreja”, rever “o perfil do ministério e o estilo de vida sacerdotal”, “bem como o modo como a Igreja tratava as questões relativas à moral sexual.” Nas primeiras reflexões sobre estes pontos “ficou de imediato claro que a questão da posição das mulheres na Igreja” estava “intimamente ligada a estas questões” e era “igualmente urgente” repensá-la.

Foi neste contexto que os bispos alemães decidiram, na primavera de 2019, lançar a “Via Sinodal Alemã” para “dar resposta credível a todas estas questões” e que veio, posteriormente, a cruzar-se com o Sínodo dos Bispos convocado pelo Papa Francisco para ter conclusão em 2023. As conclusões das assembleias em que se concretizou essa via sinodal criaram fortes tensões com outras conferências episcopais e com o Vaticano [ver 7MARGENS].

Tendo em conta essas fricções, o documento agora divulgado sublinha “ser desejo expresso pelas dioceses alemãs que os temas da Via Sinodal Alemã sejam integrados, como expressão de importantes preocupações das igrejas locais” no Sínodo dos Bispos de todo o mundo. Esta integração dos temas na agenda do Sínodo é vista como “um pré-requisito para se enfrentarem as reformas necessárias dentro da igreja” e como o caminho para “dar nova credibilidade à igreja na Alemanha e à sua missão no mundo e na sociedade de hoje.” E os temas em questão são quatro: 1. Poder e separação de poderes na Igreja; 2. Vida sacerdotal hoje; 3. Mulheres em ministérios e cargos na igreja; 4. Vida em relações sucessivas

 

Enfrentar as questões prementes do nosso tempo, condição para recuperar a confiança

 

“Se os bispos desejam restaurar a confiança na Igreja têm de assumir uma posição clara sobre as questões prementes do nosso tempo, como sejam o acesso igual para todos os batizados aos cargos na igreja, uma reavaliação da moral sexual e uma abordagem não discriminatória das pessoas homossexuais e queer”, conclui o documento enviado para Roma pela Conferência dos Bispos Alemães. Essa é a conclusão de um texto que percorre os 10 pontos propostos à reflexão dos católicos de todo o mundo pelo documento preparatório emanado do Vaticano em 2021. Sobre cada um desses pontos recuperamos algumas das reflexões mais contundentes retidas pelo episcopado alemão:

 

  1. COMPANHEIROS NA VIAGEM

“As seguintes pessoas sentem-se marginalizadas: aqueles que não estão em conformidade com os ensinamentos da Igreja (por exemplo, pessoas LGBTQ, pessoas que experimentaram separações nas suas vidas, pessoas que deixaram a Igreja…); aqueles que são excluídos dos cargos da igreja ou ministérios (especialmente mulheres, mas também homens casados, jovens, voluntários); aqueles que não pertencem à classe média educada (por exemplo, pessoas afetadas pela pobreza, pessoas com antecedentes migratórios…).”

  1. OUVINDO

“A verdadeira escuta é mais uma opção do que uma realidade. Critica-se que os bispos ou vigários-gerais, padres e agentes pastorais a tempo inteiro que não ouvem leigos, voluntários, jovens, ou “simples fiéis”, … ou que não os ouvem suficientemente. A Igreja é percebida como uma “instituição que endoutrina, mas não escuta.”

  1. FALANDO

“A maioria das respostas das dioceses pede que a Igreja se envolva mais nos debates públicos sobre questões socialmente relevantes como as mudanças climáticas, a justiça social, a dignidade humana, a pobreza e a migração, a guerra e a paz… (e não apenas questões que são do interesse da Igreja).”

  1. CELEBRAÇÃO

“Um grande número de propostas concretas requer: um ministério de pregação feita por leigos, uma reforma do lecionário, (…)  celebrações litúrgicas lideradas por mulheres, jovens e voluntários devidamente treinados (…) e que, por exemplo, o carisma das mulheres as leve a participarem na proclamação e na interpretação das Sagradas Escrituras.”

  1. COMPARTILHAR A RESPONSABILIDADE PARA NOSSA MISSÃO COMUM

“Na prática, porém – de acordo com o feedback das dioceses – os fiéis mais comprometidos sentem-se frustrados a quererem assumir as suas responsabilidades pela missão, porque as decisões continuam a ser tomadas ‘de cima para baixo’ e não existem padrões e regras que facilitem a participação e o envolvimento. Isto ‘seca carismas, empenho e entusiasmo’.”

  1. DIÁLOGO NA IGREJA E NA SOCIEDADE

“Para se tornar capaz de dialogar, antes de mais nada, a igreja deve procurar uma forma diferente de comunicar, realizar um constante exercício de usar ‘linguagem simples’, colocar ‘mais perguntas do que proclamações, usar uma ‘linguagem que vem mais do coração’, e ‘renunciar aos símbolos de status e privilégio, tornando possível dialogar com pessoas ´em pé de igualdade.’ A Igreja deve aprender a sair dos seus edifícios, jogos de linguagem e de regras e sair ao encontro das pessoas. A sua linguagem deve ser acessível, o seu interesse genuíno e a sua mensagem compreensível.”

  1. ECUMENISMO

“Há um desejo geral de que ´o terreno comum entre os fiéis seja enfatizado mais fortemente do que as diferenças que os dividem’ a bem do testemunho de fé.”

  1. AUTORIDADE E PARTICIPAÇÃO

“Há um apelo para a criação de estruturas participativas, para transparência e participação na escolha dos bispos e na nomeação do pároco local, (…) para o controlo do poder e do exercício do poder, para a deteção e punição dos abusos de poder, para uma cultura de feedback e de canais para queixas e recomendações (…). Em termos específicos, há também um apelo para que as mulheres participem do Sínodo Mundial dos Bispos e tenham direito de voto nele.”

  1. DISCERNIR E DECIDIR

“Algumas dioceses já adquiriram experiência no processo de tomada de decisão espiritual conjunta como sendo necessário para chegar a uma decisão envolvendo o clero e os leigos num processo aberto de escuta do Espírito Santo. Outros temem que isto mascare uma agenda oculta do clero e promova uma atitude de contemporização com o desequilíbrio de poder de facto que existe.”

  1. FORMANDO-NOS EM SINODALIDADE

“Se os bispos desejam restaurar a confiança na Igreja têm de assumir uma posição clara sobre as questões prementes do nosso tempo, como sejam o acesso igual para todos os batizados aos cargos na igreja, uma reavaliação da moral sexual e uma abordagem não discriminatória das pessoas homossexuais e queer. Assumir uma posição clara significa falar uma linguagem que as pessoas possam entender e não se esconder atrás de palavras complicadas. No que diz respeito aos escândalos dos abusos, é necessária uma aceitação inequívoca de responsabilidade; o poder precisa de ser controlado e é preciso tudo fazer para reparar as vítimas dos abusos sexuais e espirituais. Uma Igreja sinodal só pode ser bem-sucedida se for possível a todos os fiéis assumirem responsabilidades e participarem nas decisões a nível paroquial e diocesano”.

 

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